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Netflix: ‘Mais Uma Chance’ e o peso de tentativas
CINÉFILOS
30 abr 2020 | Por Maria Luísa Bassan (marialuisaobassan@gmail.com)

Quando se decide construir uma família, há muito que se avaliar além da vontade do casal. É preciso pensar na estabilidade financeira, na estrutura familiar e na disponibilidade de tempo e energia exigidas para criar e educar uma criança. Esses podem ser impasses enfrentados por alguns casais, mas outros lidam com algo muito mais primário e profundo: a dificuldade de conceber um filho.

Mais Uma Chance (Private Life, 2018), filme original da Netflix, acompanha um casal na casa dos quarenta anos em sua caminhada para engravidar. Os dois são artistas reconhecidos – ela é escritora e ele, diretor de teatro – e por muitos anos focaram em suas carreiras. Agora, sentem que o tempo está, de certa forma, “acabando”, enquanto todos à sua volta contam sobre as aventuras encontradas na jornada da maternidade/paternidade.

Richard (Paul Giamatti) se vê cada vez mais distante da esposa Rachel (Kathryn Hahn). Eles estão tentando engravidar há alguns anos, e decidiram realizar a fertilização in vitro, ao mesmo tempo em que aguardam na fila da adoção. Embora Richard possua limitações na concepção, é Rachel que carrega a maior carga. É ela que precisa tomar doses de hormônios para estimular seu corpo a produzir óvulos; foi ela que pediu para esperar um pouco mais até que conseguisse terminar de escrever seu livro, para então pensar em construir uma família.

O fracasso de mais um procedimento faz com que o casal seja apresentado a uma outra alternativa: uma doadora de óvulos. O processo de fertilização ocorreria unindo os óvulos aos espermatozoides de Richard artificialmente, para então serem transferidos ao útero de Rachel. A decisão representa um ponto sensível para a escritora – como ela será capaz de gerar alguém que não irá “carregar” nada dela? Em suas próprias palavras, o sentimento é o de ser deixada de lado.

 

Rachel e Richard passam por conflitos pessoais e como casal na jornada para construir uma família

Rachel e Richard passam por conflitos pessoais e como casal na jornada para construir uma família [Créditos: Netflix]

Além da falta de apoio da família, pensar na hipótese da doadora significaria conversar com uma e fazê-la passar por uma série de longos e delicados procedimentos médicos. Caso eles optem por esse caminho, quem poderia ser a doadora ideal?

O foco nos dilemas enfrentados pela mulher na relação é evidente. A diretora Tamara Jenkins levanta pontos importantes, como a ideia de que a mulher sempre terá que abrir mão de alguma coisa de sua vida, se quiser corresponder às expectativas sociais. Além disso, é a mulher que é cobrada para ser mãe. A gravidez precisa vir naturalmente. Adoção é menos valoroso que gerar uma criança. E esqueça sua vida profissional e pessoal daqui pra frente. Ainda assim, falta profundidade em alguns momentos, como diálogos pontuais seguidos por mudanças rápidas de cenas, sem conexão com a discussão anterior, mas a mensagem é bem passada.

Giamatti e Hahn funcionam bem como casal e individualmente. Ambos entregam atuações transparecendo humanidade, e baseadas em detalhes como olhares e pequenas falas, que ajudam a construir uma narrativa de tema delicado, mas ainda assim fluida. Destaque também para Kayli Carter, que interpreta Sadie, a vibrante sobrinha do casal, cujo papel é essencial para o desenvolvimento da trama. Juntos, os três têm uma dinâmica que fala muito sobre o que é acolher, ouvir, respeitar, e acima de tudo, amadurecer.

Mais Uma Chance fala sobre família a partir de uma ótica pouco lembrada e muitas vezes diminuída. Com um final agridoce, o longa cumpre o papel de convidar o espectador a refletir sobre a carga de escolhas e expectativas depositadas naquilo que se designa como vida ideal. Às vezes, não se trata de tentar, mas assumir que o controle das coisas simplesmente não está ao nosso alcance. E tudo bem.

O filme está disponível para todos os assinantes da Netflix. Assista ao trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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