Britney vs Spears é um documentário sobre a complexa batalha judicial da pop star para se livrar da tutela do pai, Jamie Spears. Lançado em 28 de setembro na Netflix, o longa expõe, a partir de entrevistas exclusivas e documentos confidenciais, fatos chocantes sobre os abusos cometidos contra a cantora, que vão desde o controle financeiro e patrimonial, até ameaças e dopagens. No entanto, a abordagem escolhida pelas produtoras, Erin Lee Car e Jenny Eliscu, é controversa.
Inicialmente, o longa aborda os problemas da artista no início dos anos 2000, como as relações familiares conturbadas, o assédio da imprensa, os escândalos públicos e o uso de drogas. Foi nesse contexto que Jamie se tornou o guardião legal da filha, tornando-se responsável por ela e por seus bens, após a cantora ser considerada incapaz pela Justiça em 2008. O documentário acerta ao explicar, de forma clara e coesa, o processo judicial da tutela e o absurdo por trás dele.
Segundo os documentos do processo, acessados pelas produtoras do longa por intermédio de uma fonte anônima, Britney havia sido diagnosticada com demência e foi impedida de escolher seu próprio advogado porque não teria “clareza psíquica”. Contudo, naquele mesmo período, a cantora fazia turnês milionárias, criava coreografias e até atuava na televisão (ela participou da série How I Met Your Mother quando os autos ainda estavam sendo produzidos).
Embora Britney vs Spears seja bem sucedido nesse aspecto, sua abordagem deixa a desejar em outros momentos, nos quais há uma exposição excessiva da vida íntima da cantora. Por exemplo, o divórcio entre ela e Kevin Federline e a disputa pela guarda dos filhos recebem um enfoque exagerado, desviando a narrativa do propósito de defender Britney. Além disso, o documentário traz à tona figuras controversas do passado da artista, retratando-lhes como pessoas mal compreendidas e que apenas queriam seu bem.
É o caso de Sam Lufti, ex-agente da pop star, que já foi acusado de dopá-la e é considerado o principal suspeito por trás das ameaças de morte e episódios de assédio contra ela e sua família em 2019. No documentário, entretanto, ele alega nunca ter feito algo dessa natureza e diz que sempre a apoiou. Em um dos depoimentos, ele acusa a mídia de ter tentado destruir sua imagem para prejudicar o relacionamento amoroso entre os dois. O fotógrafo Adnan Ghalib, outro ex-parceiro da cantora, também ganha espaço e mostra mensagens que trocou com ela, de forma bastante invasiva.
Ainda que fosse relevante traçar um panorama das relações pessoais e dos dramas vividos por Britney antes e durante a tutela, isso poderia ter sido feito com mais responsabilidade. Afinal, expor detalhes da vida particular da artista e dar voz a pessoas polêmicas de seu passado não parece ser uma abordagem adequada, mas sim uma estratégia para satisfazer a curiosidade dos espectadores.

Outro problema do documentário é o tempo considerável perdido com fontes importantes que se recusam a responder perguntas, como ex-funcionários de Britney e um dos médicos que assinou um dos principais relatórios da tutela. A aparição desses indivíduos não tem um propósito claro, já que eles contribuem pouco ou nada para agregar novas informações.
Um aspecto interessante de Britney vs Spears, contudo, é o envolvimento direto de uma das produtoras, Jenny Eliscu (que é jornalista), no caso. Durante o início do processo, ela se encontrou secretamente com Britney para tentar conseguir-lhe um novo advogado. Esse depoimento ajuda a dimensionar a privação de liberdade da artista, sobretudo na parte em que Eliscu relata que precisou encontrá-la no banheiro de um hotel, longe da vista de seguranças ou outros funcionários contratados por Jamie Spears.
Apesar dos erros, Britney vs Spears é útil para aqueles espectadores que ainda não conhecem o caso e desejam compreender a batalha judicial contra a tutela – vencida pela cantora um dia após a estreia do longa, o que a permitiu finalmente começar a retomar o controle sobre sua vida pessoal, financeira e profissional. A história apenas poderia ter sido contada de forma mais ética e informativa, e menos “tabloidesca”.
Imagem: [Divulgação/Netflix]