Home Virou História Para mudar a história: Título inédito do Manchester City comemora 10 anos
Para mudar a história: Título inédito do Manchester City comemora 10 anos

Em partida épica no dia 13 de maio de 2012, o Manchester City conquistava a Premier League pela primeira vez, dando início a uma nova era no futebol inglês

ARQUIBANCADA
13 maio 2022 | Por Gustavo R. Silva (gustavo.r@usp.br) e Ricardo Thomé (ricardo.thome@usp.br)

Quando se fala nas grandes equipes do mundo, nos times mais poderosos e bonitos de se ver jogar, é difícil deixar fora o Manchester City. Treinador estrelado, elenco valioso e de grandes jogadores, campanhas memoráveis na UEFA Champions League (uma final e duas semifinais, perdendo para Chelsea e Real Madrid duas vezes, respectivamente) títulos e recordes na liga nacional mais difícil do mundo, a Premier League. Mas nem sempre foi assim. 

Até sua compra por Khaldoon Al Mubarak, do governo dos Emirados Árabes Unidos, em 2008, o City era, sim, uma equipe tradicional do futebol inglês, com seus lapsos de glória ao longo de 128 anos de história, porém muito longe dos gigantes, como Arsenal, Liverpool e seu rival local, o Manchester United. essa história começou a mudar, de fato, em 2012, com a conquista da primeira Premier League pelos Citizens.

Entre 1880, seu ano de fundação, e 2008, quando o clube foi adquirido pelo grupo do Oriente Médio, o time azul de Manchester não passava muito disso: do time azul de Manchester. Afinal, a única equipe de fato protagonista da cidade no futebol inglês e mundial era o United. Até 2012, ano do título da Premier League, o City tinha 20 conquistas, com apenas dois campeonatos ingleses, referentes à era pré-Premier League, cinco Copas da Inglaterra (uma delas já na fase rica), duas Copas da Liga, três Supercopas da Inglaterra e sete títulos de divisões interiores. As “eras de ouro”haviam sido durante os anos 1960 e 1970, com um bom momento nos anos 1930. Era muito pouco para sequer chegar próximo do rival. 

Na temporada 1967-1968, o City também foi campeão sobre o United por uma vantagem de dois pontos. Neil Young e Francis Lee eram os grandes goleadores da equipe comandada por Joe Mercer e Malcolm Allison. [Foto: Divulgação/Paul Manson]

A rivalidade com o Manchester United até então

É o que conta o entrevistado do Arquibancada, o jornalista João Castelo-Branco, correspondente da ESPN Brasil em Londres e que viveu essa fase de transformação do City. “Antes o Manchester City era piada para o United nas décadas anteriores, o United com tanto sucesso e o City lá embaixo. Tinha até piadas: o Alex Ferguson falando que era um vizinho chato, barulhento”.

Sir Alex Ferguson é um lendário treinador do United e que até hoje ostenta, sozinho, mais títulos ingleses do que o City, mas que talvez não previsse a ascensão do rival quando fez a brincadeira, afinal o Manchester United, à época, tinha 19 títulos somente de Campeonato Inglês, um abismo frente aos 20 gerais do rival. “Quando o Manchester City teve sucesso o United não estava bem. Então, era uma rivalidade da mesma cidade que estava meio quieta, e como não disputavam títulos, não era uma rivalidade muito forte, nem tinha muitos encontros”.

A batalha final em Manchester

Tudo isso mudou, no entanto, na partida épica de 13 de maio de 2012 no Etihad Stadium, em Manchester. Pela primeira vez em 44 anos (desde a última conquista de campeonato nacional do City, com o United ficando em segundo), Manchester City e Manchester United, azuis e vermelhos, travavam uma corrida feroz rumo ao título da Premier League. Para o United, mais um na era Alex Ferguson e na sua história de glórias. Para o City, a honra, o orgulho, o peso de 44 anos de espera, um título inédito naquele formato, “as batatas”. Ambos os times chegaram à última rodada empatados com 86 pontos cada, com os Citizens levando vantagem no saldo de gols. 

O United enfrentava o Sunderland, fora de casa, no Stadium of Light. O Sunderland estava no meio da tabela sem riscos de rebaixamento. O City, por sua vez, tinha como rival o Queens Park Rangers, 17º colocado e que buscava a salvação a qualquer custo. Para os Red Devils, vitória simples com gol da lenda Wayne Rooney. Para os Citizens, um dos confrontos mais duros já vistos. Embora os números apontem para um massacre do City, com mais de 80% de posse de bola e 25 finalizações, a bola parecia não querer entrar e a ansiedade da torcida e dos jogadores era evidente. Aquele era claramente um momento inédito em todos os aspectos, ninguém estava acostumado a ver o Manchester City naquela posição. 

No primeiro tempo, as coisas pareciam ir bem, com o gol do lateral direito argentino Zabaleta aos 39 minutos, com passe de Yaya Touré, meio-campista marfinense que jogava mesmo lesionado. Na volta para a segunda etapa, o QPR, que estava sendo rebaixado com os resultados de momento, reagiu. Logo aos 3 minutos, Cissé fez o gol de empate do time visitante. Minutos depois, o meio-campista Barton, expulso por uma cotovelada em Sergio Agüero, que não imaginava o que estava por vir. Ainda assim, o QPR foi capaz de virar a partida aos 21 minutos, com um cruzamento de Traoré para o gol de Mackie. Não foram raras as imagens da torcida do City chorando em desespero, vendo um título tão sonhado escapar no último jogo, em casa, contra um time que brigava contra o rebaixamento de virada e com um jogador a mais.

No momento do gol de Mackie, o Etihad se transformou num mar de lágrimas. [Foto: Reprodução/Twitter @KyleDeGiulio]

‘Agüeroooo’: para a eternidade!

A verdade é que o destino reservava algo ainda maior aos Citizens do que somente o levantamento da taça. Se antes do segundo gol do Queens Park Rangers o City já pressionava e criava oportunidades de todas as formas, a partir daquele momento o Etihad Stadium virou cenário de bombardeio atrás de bombardeio por parte do ataque do City. O técnico Roberto Mancini mexia no time, mas uma atuação de gala do goleiro Kenny, somada às tomadas de decisão afobadas dos jogadores azuis, parecia pôr em xeque as chances de quebrar aquele jejum. 

Parecia. Aos 45 minutos do segundo tempo, a transmissão oficial da Barclays Premier League apontava 17 escanteios para o Manchester City, contra nenhum do QPR. Foram 19 ao total, e justamente no 19º saiu o gol de empate dos Citizens, com Edin Džeko. O atacante bósnio recebeu o levantamento de David Silva e jogou para as redes. 

Restavam quatro dos cinco minutos acrescidos pelo árbitro Mike Dean para que o Manchester City fizesse o sonho se tornar realidade. E fez! Aos 93 minutos e 20 segundos, Manchester parou. Azuis e vermelhos olhavam atônitos para o que veio a se tornar a disputa de título nacional por pontos corridos mais emocionante da história. Sergio Agüero tabelou com Mario Balotelli dentro da área adversária, limpou a marcação e bateu para fazer o Manchester City campeão inglês pela primeira vez em 44 anos, mais uma vez tendo como vice seu rival e dando início a uma era gloriosa que segue até os dias de hoje. O QPR sobreviveu, apesar da derrota.

Sergio Agüero foi o grande herói do título com um gol épico nos acréscimos para sacramentar a virada. [Foto: Reprodução/Twitter @HishamHassanFCB]

Esse momento, eternizado nas vozes de Paulo Andrade e Martin Tyler, virou camisa, promoveu estátuas e até um documentário, o “93:20”, que remete ao momento do gol de Agüero, gol esse que João Castelo-Branco afirma não ter visto, embora estivesse no Etihad: “Na verdade eu estava no estádio, mas não presenciei a reação da torcida naquele momento exato porque eu tive que sair das arquibancadas, da tribuna de imprensa, para descer para uma área de entrevistas e então no momento do gol eu estava com outros jornalistas descendo uma escada, fechado”, conta o jornalista

“A gente ouviu um barulho nas arquibancadas, mas não vimos nada. Então foi um pouco frustrante isso, mas claro, um grande privilégio, muito legal estar lá. Entrevistei o Agüero depois no campo, entrei lá, uma festa incrível da torcida”, diz. O esquadrão formado por Hart, Zabaleta, Kompany, Lescott, Clichy, Yaya Touré, Barry, David Silva, Nasri, Agüero e Tévez ficará marcado para sempre nas páginas do futebol inglês. Desses, o capitão Kompany e o meia David Silva, que ainda viveram grande parte da era atual dos Citizens, já garantiram suas estátuas. No dia em que a conquista completa 10 anos, Agüero também recebeu sua homenagem.

No dia em que se celebram os 10 anos do jogo do título, o Manchester City inaugura, do lado leste do Etihad Stadium, a estátua do ídolo Sergio Agüero. A obra, do escultor Andy Scott, foi produzida a partir de milhares de peças soldadas de aço galvanizado. [Foto: Reprodução / Instagram @mancity]

“Aquele gol do Agüero é um dos maiores momentos da Premier League e será sempre lembrado como isso porque é muito raro você ter, num campeonato de pontos corridos, uma decisão que acaba no último segundo, nos acréscimos do último jogo… teve com o Arsenal em 89, antes da era Premier League, mas é muito emocionante e muito histórico”, explica João.

A nova relação de rivalidade em Manchester

João Castelo-Branco também frisa o quanto aquele título de 2012 mudou o patamar do Manchester City e a relação com o rival local, o United. “Ressurgiu uma coisa ali que é uma rivalidade de uma cidade só, uma cidade que tem dois times. 

João Castelo-Branco vive na Inglaterra há mais de 30 anos e é correspondente da ESPN há 20 anos, tendo acompanhado toda a trajetória do City rumo à glória. [Foto: Reprodução/Twitter @j_castelobranco]

um negócio enorme, porque foi uma coisa incrível para o torcedor do Manchester City, alcançar e passar,claro que não em história e em número de títulos, mas recentemente sempre chegando acima do Manchester United. Então, foi uma mudança drástica e que tornou esse dérbi algo muito maior do que era, sem dúvidas”. E de fato: após aquele dia, o City soma oito títulos a mais do que o rival, incluindo quatro Premier Leagues, muito próximas de se tornarem cinco.

Herói da Conquista

O argentino Sergio Agüero chegou ao Manchester City justamente na temporada 2011/12. O jogador veio de belas temporadas no Atlético de Madrid e chegou com o status de transferência mais cara da história do clube, ao custo de 45 milhões de euros, com altas expectativas. Vestindo a camisa de número 16, o atacante mostrou a que veio logo em sua estreia, quando saiu do banco de reservas e, em apenas 30 minutos, marcou dois gols e deu uma assistência na goleada de 4×0 sobre o Swansea City.

Depois da estreia histórica, Agüero fez grandes jogos na Premier League, com direito a hat-trick contra o Wigan Athletic e gols contra os rivais Liverpool, Chelsea e Manchester United. O argentino foi o artilheiro do clube na competição e ficou eternizado pelo tento histórico que decidiu o título.

Agüero e a vibração que tomou conta do Etihad Stadium. [Foto: Reprodução/Twitter @aguerosergiokun]

Com esse início avassalador, o jogador continuou a fazer história em Manchester, onde permaneceu por 10 temporadas. Em seus anos com a camisa dos Citizens, foi campeão da Taça da Inglaterra, venceu seis vezes a Taça da Liga, foi tricampeão da Supertaça da Inglaterra e conquistou o campeonato inglês em cinco temporadas.

Agüero é o segundo jogador que mais vestiu a camisa do Manchester City e fica atrás apenas de David Silva, seu companheiro de longa data no clube. Além disso, o atacante é o maior artilheiro da história do clube, com 260 gols, e figura no Hall Of Fame da Premier League, da qual possui a melhor média de gols por minuto na história, com um gol a cada 107 minutos em campo.

O ídolo citizen encerrou sua passagem de forma amigável com o fim de seu contrato com o quinto título da Premier League e diversas homenagens. Após deixar o clube, Agüero foi ao Barcelona, onde fez poucas partidas e marcou apenas um gol, antes de ser vítima de uma arritmia cardíaca que o fez encerrar a carreira. 

O jornalista João Castelo-Branco ressalta a importância do jogador para o clube: “O Agüero sempre ficará marcado como um dos grandes artilheiros da Premier League, e na história do clube, por tirar o time dessa seca de títulos e levar a um outro patamar”. Inclusive para comemorar os 10 anos da conquista, o clube está lançando uma nova camisa especial que homenageia o título e o ídolo.

Camisa Lançada em homenagem à conquista. [Foto: Divulgação/Puma]

A consolidação do projeto de um novo Manchester City

A conquista da Premier League em 2012 é histórica não só por todos os elementos que fizeram parte daquele contexto, mas pelo que viria depois. O antigo primo pobre de Manchester, que naquele momento já não tinha nada de pobre, pode considerar o título como um pontapé inicial em uma era de protagonismo no futebol inglês, como afirma João Castelo-Branco: “Foi um momento especial, inesquecível aqui na Inglaterra. Foi o começo dessa nova era de fato, do Manchester City marcando presença e dizendo ‘estamos de volta’ ”.

De lá para cá, foram 14 títulos, sendo quatro destes conquistas da Premier League, que consolidaram a equipe como uma das principais do futebol mundial. Mesmo quando deixou de ser campeão, o City não deixou de figurar nas primeiras posições e ficou entre os quatro primeiros colocados em todas as edições desde então. As boas campanhas renderam participação em todas as edições de Champions League dos últimos anos, que consolidou seu espaço a nível continental.

Atual elenco do Manchester City celebrando a conquista do título da Premier League na temporada 2020/21. [Foto: Reprodução/Twitter @fernandinho]

“O projeto do Manchester City é impressionante. Você pode questionar se é justo poder gastar tanto comparado com rivais, se isso é bom pro futebol, e você pode questionar a origem do dinheiro, que é polêmica por vir da família real de um Estado autoritário, mas o projeto em si tem que ser reconhecido pela qualidade do que foi feito”, afirma João sobre o novo contexto do clube: 

“O investimento na região, a mudança de toda a estrutura do clube, investimento em todas as áreas para torná-lo um clube de elite, fazendo excelentes contratações em informática, estatísticas, nutricionistas, preparando toda a base pra trazer o Guardiola, trazendo os executivos do Barcelona, conseguindo trazer o Pep Guardiola, montando uma filosofia de futebol. É um exemplo de um trabalho muito bem feito. A gente vê outros clubes que também gastaram muito dinheiro nessa época, como o próprio Manchester United, que não conseguiram fazer algo desse nível”, aponta o jornalista

O Manchester City figura em uma posição de destaque no futebol moderno, como uma das maiores equipes do planeta — e ao que tudo indica não vai deixar esse posto tão cedo. O projeto já deu certo, está consolidado, e a continuidade necessária para a evolução parece ser prioridade no lado azul de Manchester, que sonha, agora, com a UEFA Champions League.

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COMENTÁRIOS
Paulo Thomé
Sensacional conhecer esta história e a importância de revivê-la 10 anos depois ! E a partir disso , como não reconhecer o valor do Manchester City ? Esse sim, um “show de bola”.
15 maio 2022
 
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