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Movimentos Femininos no Futebol

O crescimento dos coletivos femininos no futebol e a presença feminina nas arquibancadas

ARQUIBANCADA
06 jul 2021 | Por Júlia Castanha (julia.castanha@usp.br)

No Brasil, as mulheres nunca foram proibidas de frequentar os estádios, porém foi culturalmente atribuído à elas o papel de não gostar de futebol. Quando estavam presentes nas arquibancadas eram como acompanhantes de pai, irmão ou marido. No entanto, essa realidade que nunca foi única, vem se perdendo, e as mulheres lutando para conquistar seu espaço como torcedora dentro do estádio, e nesse âmbito o crescimento dos coletivos têm sido fundamental. Para entendermos melhor como eles funcionam,  o Arquibancada conversou com três coletivos de futebol.

Torcedoras representam os clubes paulistas no encontro da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA),
São Paulo, década de 1930 [Imagem: Reprodução/Acervo Museu do Futebol]

O que é um coletivo feminino? 

Um coletivo feminino, em seu sentido mais amplo, é um grupo de mulheres que se unem para juntas promoverem ações a fim de impactar a sociedade, dando visibilidade à luta das mulheres.

No futebol — um espaço predominantemente masculino — o surgimento desses grupos é muito importante para  promover inclusão: “A mulher nunca foi incluída em diversos assuntos da nossa sociedade e o futebol é um deles. Então para mim a importância está em prestar essa mensagem da inclusão, de semelhantes ocupando o mesmo espaço que você quer ocupar e que sempre te negaram, ou pior, te ofereceram as piores experiência sobre aquilo” afirma a jornalista Mariana Pereira, do Dibradoras.

Nesse aspecto, mais coletivos e movimentos femininos têm surgido dentro dos clubes, todos com o mesmo propósito, mas cada um com uma história própria. O coletivo palmeirense, VerDonnas, por exemplo, surgiu em 2018 após duas torcedoras do clube serem agredidas por alguns torcedores do rival Corinthians. Já o Atleticaníssimas, do Athletico Paranaense, surgiu  como um grupo de amigas que  cresceu e se tornou um coletivo.

O Torcedoras Raiz do Ceará, que também começou como um grupo de meninas para falar sobre o time, resolveu se organizar oficialmente após o clube anunciar a contratação de dois jogadores acusados de agredirem as parceiras.

As torcedoras perceberam que só unidas iriam conseguir lutar contra isso — e se nesse caso elas não conseguiram impedir a contratação, em 2020 elas obtiveram sucesso ao impedir que o goleiro Jean, acusado de agredir a esposa, fosse para o Ceará.

 

“O VerDonnas surge como um grupo de mulheres para mulheres, para levar mais mulheres ao estádio, de maneira mais segura e assim podermos nos apoiar, tanto no caminho de ida e de volta do estádio, quanto dentro dele, e assim motivar mais mulheres a irem e se sentirem à vontade.”

 Tainá Shimoda, uma das idealizadoras do movimento.

 

Janna Queiroz, presidente da Torcedoras Raíz conta que ao invés de coletivo, elas se tornaram uma torcida organizada feminina, pois no Ceará só é permitida a entrada no estádio usando material de torcida diferente do oficial com um ofício da Polícia Militar e para isso era necessário a criação de um CNPJ como torcida organizada — em outros estados como São Paulo e Paraná, isso não é necessário.

arquibancada futebol

VerDonnas na arquibancada [Imagem: Divulgação/Instagram]


Apoio do clube e federações 

Sobre a relação dos movimentos com os respectivos clubes, Daiane Luz, do Atleticaníssimas, conta que quando o grupo começou a crescer e ganhar visibilidade,houve uma reunião com todos os presidentes, tanto do deliberativo, quanto do administrativo do clube. Isso proporcionou uma abertura na relação entre ambos, em que elas ajudam o clube — por exemplo nas campanhas do Outubro Rosa,  sempre são convidadas para divulgar, participar ou dar palestras.

Uma das grandes dificuldades que Daiane vê, no entanto, é o fato de elas não terem nenhuma conselheira dentro do clube. “ Quando mudou a gestão, uma das nossas co- fundadoras foi chamada pelo clube para que ela assumisse uma diretoria, mas ela optou por não fazê-lo, pois na época o coletivo estava sofrendo muita perseguição. Mas atualmente temos incentivado e apoiado as meninas a tentarem fazer parte do conselho”.

Segundo Janna, o Ceará é muito fechado para as questões sociais, nunca reconheceu a Organizada delas ou auxiliou no processo da retirada da documentação legal.

Esse também foi um motivo para  se oficializar como Torcida Organizada: “Nós percebemos que, como coletivo,  teríamos respaldo principalmente na torcida e a gente queria se impor, senão eles iriam passar o resto da vida tratando a gente como se estivéssemos distantes do clube’’. Além disso, Janna comenta sobre a necessidade do aumento no número de mulheres na direção do clube: “Nós mulheres temos que ocupar esses espaços, principalmente nós que fazemos parte desses movimentos femininos. Temos que ocupar com o selo do clube porque é lá que as coisas acontecem, que os estatutos mudam”.

A relação entre o VerDonnas e o Palmeiras se dá de forma semelhante: “ É uma instituição fechada para pautas que vem da torcida de uma forma geral. Algumas pessoas lá dentro até sabem da existência do coletivo, mas não temos nenhuma abertura”, afirma Tainá Shimoda.

A relação é mais complicada com as Federações. Tanto a Federação Paranaense quanto a Cearense de Futebol têm uma relação com os coletivos bem distante ou quase inexistente – assim como com todos os outros grupos de torcedores. A Federação Paulista, se difere um pouco, já que em janeiro de 2020 fez uma ação com os coletivos de São Paulo após uma pesquisa realizada pelo Datafolha indicar que somente 14% do público que foi aos estádios em 2019 durante o Campeonato Paulista eram mulheres.

Os coletivos lançaram com os clubes a campanha “Elas no Estádio” para que a presença feminina aumentasse. Infelizmente, a pandemia do Coronavírus chegou ao Brasil em março do mesmo ano, o que levou o futebol a ser suspenso, retornando em julho sem torcida – como permanece até a presente data (junho de 2021) — fazendo com que a eficácia da campanha seja desconhecida e até difícil de avaliar.

 

“Falta ainda clubes e federações entenderem seus papéis sociais para com a sociedade, federações mais ainda. Incluir e incentivar todo e qualquer público que goste do esporte e queira estar nele, independente de religião, opção sexual, cor, sexo etc. Além de incentivar, dar o respaldo para que isso aconteça de maneira orgânica, segura e se torne habitual”.

Mariana Pereira, jornalista

 

Representantes dos Coletivos Movimento Alvinegras, São Pra Elas, Sereias da Vila e VerDonnas na campanha “Elas no Estádio” [Imagem: Reprodução Instagram]

Recepção da torcida 

O apoio da torcida também difere muito de estado para estado, e de clube para clube. “A torcida feminina e a masculina abraçaram muito a gente, assim como a torcida LGBT. É muito gratificante ver o reconhecimento que eles têm pela gente, mesmo faltando um reconhecimento maior do clube com a gente”, conta Janna.

Em contrapartida, no Atleticaníssimas o começo do coletivo foi conturbado: “No início muitas atleticanas que são um pouco mais experientes falavam que sempre frequentaram a baixada desde novas e nunca sofreram preconceito ou machismo. Só que não é porque elas não sofreram que não existe”, relata Daiane.

Além disso, quando elas começaram a se reunir como grupo, receberam alguns ataques na internet, pois os homens respeitavam muito elas como torcedoras, só que sozinhas. O movimento, o grupo, o ato de se unir a outras mulheres começou a incomodar.

Tainá relata que a situação com a torcida do Palmeiras foi parecida, embora tenham um apoio bom da torcida, algumas torcedoras começaram a questionar o motivo da criação de um coletivo feminino, já que elas nunca tinham sofrido com nada dentro do estádio.

Para as meninas esse tipo de negativa por parte das torcedoras com os movimentos femininos parte do desconhecimento da realidade como um todo. Embora muitos estádios hoje em dia sejam mais seguros, quem não tem o costume de frequentá-los tem a imagem de um ambiente extremamente hostil, violento e perigoso.

Mari Pereira também acredita que falta conhecimento sobre o trabalho e a função de um coletivo, mas acha que uma parte do público  não gosta da segregação, de estar em um grupo somente com mulheres para fazer as coisas; já que no mundo ideal, deveríamos nos sentir à vontade em ir ao estádio com quem quisermos, seja na companhia de um homem, seja na de uma mulher, seja sozinha.

Mas a receptividade é maior do que a rejeição, e é a isso que elas se apegam: aos pais que agradecem a elas por estarem tentando fazer dos estádios um lugar melhor ou das mulheres que tomaram coragem de ir ao estádio por causa desses movimentos.

 

“O mais interessante para mim é a tomada de consciência das integrantes, que as realidades são diferentes e que a experiência de uma não é igual da outra, e por isso é importante o coletivo.”

Daiane Luz, Atleticaníssimas

Relacionamento com os outros coletivos

Se a rivalidade entre as torcidas é muito grande, nos coletivos, embora ela ainda exista, ela divide espaço com o espírito da sororidade feminina. “A gente tenta manter essa relação próxima para ter também esse apoio, porque é uma coisa que vai muito além de uma camisa, todos são coletivos que defendem o espaço da mulher estar onde ela quiser, é uma coisa que está  muito acima de eu vestir verde e a pessoa vestir preto. Tem rivalidade também, mas não tem esse ódio e violência tão grande”, afirma Tainá.

Coletivo Movimento Alvinegras. [Imagem: Divulgação/Instagram]

Daiane também sustenta essa ideia: “A relação com os coletivos do Coritiba e Paraná é muito boa, fazemos campanhas juntas e trocamos muitas informações umas com as outras, assim como com outros coletivos espalhados pelo país”.

Um dos acontecimentos recentes que uniu os coletivos espalhados por todo o Brasil, foi a tentativa de contratação do atacante Robinho pelo Santos, acusado na Itália de estupro; os coletivos entraram com um abaixo assinado porque o Santos não podia inscrever mais jogadores e tentou inscrever ele. A iniciativa partiu de um dos coletivos do Flamengo e recorreu a questões legais, já que somente por questões ligadas à pauta feminina seria difícil conseguir algo.

Nota divulgada pelos coletivos e torcidas femininas sobre o caso Robinho [Imagem: Divulgação/Instagram]

Vale ressaltar que um clube pode ter mais de um coletivo e é o que acontece com a maioria. Isso porque nem sempre um único coletivo consegue representar toda torcida feminina. Mas o que elas tentam sempre combater é a rivalidade entre eles, pois o que mais importa é que tenham cada vez mais mulheres falando sobre seus times e estando presente dentro dos estádios.

Principais ações

Os movimentos têm como principal ação proporcionar às mulheres a ida em conjunto ao estádio. Quando os jogos são fora do estado, normalmente, elas tentam se reunir para assistir juntas, ou organizar uma viagem até o estado que está acontecendo o jogo. Em 2019, inclusive,  as Atleticaníssimas fretaram um avião para assistirem a final da Copa do Brasil que aconteceu no Rio Grande do Sul — e que, para a felicidade delas, terminou com o Furacão campeão.

Integrantes do Atleticaníssimas em avião fretado para ir ao jogo da final da Copa do Brasil 2019 [Imagem: Divulgação/Daiane Luz]

Alguns coletivos participam de campanhas comerciais como a campanha da MasterCard, em 2019, contra o assédio, que contou com as principais torcidas femininas do Brasil, ou ações publicitárias com os próprios times.

No contexto de pandemia, a ida aos jogos e o encontro para assisti-los é impossível. Alguns grupos se reúnem em chamadas de vídeos para assistir aos jogos ou fazem pré jogos nas páginas do Instagram. Daiane conta que elas criaram um podcast nesse período, feito pelas próprias integrantes do grupo chamado  “Quebra o Muro” , que aborda temáticas sociais e históricas do Athletico Paranaense.

As meninas do Torcedoras Raiz — que se oficializaram TO em outubro de 2020 – ainda não tiveram a oportunidade de ir ao estádio carregando essa nova nomenclatura, mas têm feito alguns trabalhos de ação social como a entrega de cestas básicas e de marmitas para pessoas necessitadas. Outra ação interessante é o fato da camisa delas carregar nas costas o número 180 – disque denúncia nacional contra a violência à mulher.

Já as palmeirenses tinham um projeto de dar palestras aos jogadores da base do clube, sobre a violência contra a mulher e o assédio sexual, que também precisou ser adiado.

camisa futebol 180

Camisas da Torcedoras Raiz com o 180 nas costas [Imagem: Divulgação/Instagram]

O futebol feminino tem crescido bastante no Brasil, e os coletivos e torcidas femininas têm atuado fortemente para promover essa categoria em seus times, com faixas dedicadas às jogadoras, ou dedicadas especificamente ao time feminino.

Além disso, as meninas afirmam que as jogadoras, quando comparadas aos jogadores, são muito mais acessíveis e dispostas a dar entrevistas e interagir com os movimentos, promovendo uma visibilidade mútua.

Janna conta que em uma ocasião, junto com os historiadores que trabalham nos arquivos do Ceará, elas conseguiram juntar o time feminino dos anos 80 e dar uma lembrancinha para as jogadoras, numa forma de homenageá-las pela importância na história do clube.

Faixa feita pelo coletivo VerDonnas para a ex-jogadora do Palmeiras Carla Nunes. [Imagem: Divulgação/Instagram]


Dificuldades Atuais

Atualmente a pandemia é um grande empecilho para que os movimentos funcionem plenamente, porém um desafio maior que eles enfrentam é o combate ao machismo, principalmente o que se manifesta implicitamente e está presente na mentalidade da sociedade.

Além disso, a falta de visibilidade que os clubes e federações dão para essas torcedoras impede que mais mulheres conheçam esses movimentos e entendam “para que” e “como” eles funcionam. Mais do que essas instituições afirmarem que o estádio é um local seguro, elas precisam passar essa imagem às mulheres, famílias e todas as minorias que sempre se sentiram deslocadas em uma arquibancada.

 

“Eu frequentava o estádio com meu pai e sempre quando eu voltava tinha uma brincadeira com minha vó. Ela me perguntava quantas mulheres eu tinha visto naquele dia e eu respondia poucas, até que uma vez cheguei em casa e eu fiquei muito feliz quando contei para a minha avó que eu não conseguia contar, de tantas que eu tinha visto. Para mim é uma conquista muito significativa ter visto essa transição da mulher acompanhante para torcedora e hoje estar à frente de uma torcida organizada composta por 130 mulheres.” 

Janna Queiroz, presidente da Torcedoras Raíz.

 

 

Alguns Coletivos/Torcidas Femininas no Brasil:

Athletico Paranaense – Atleticaníssimas (@atleticanissimas)

Atlético MG – Grupa Galo (@grupagalo)

Bahia – Tricoloucas (@tricoloucas)

Botafogo – Empodera BFR (@empoderabfr)

Botafogo da Paraíba – Alvinegras 1931 (@alvinegras1931)

Ceará – Torcedoras Raiz (@torcedorasraiz)

Corinthians – Movimento Alvinegras (@malvinegras)

Coritiba – Gurias do Couto (@guriasdocouto)

CSA – Empoderazul Oficial (@empoderazul)

Flamengo – Nação Empoderada (@nacaoempoderada)

Fortaleza – Torcedoras do Leão (@torcedorasdoleaocoletivo)

Grêmio – Coletivo Elis Vive (@coletivoelisvive)

Internacional – Força Feminina Colorada (@ffcolorada)

Náutico – Timbuzeiras (@timbuzeiras)

Palmeiras – VerDonnas – (@verdonnas)

Paraná – Gralhas da Vila (@gralhasdavila)

Santa Cruz – Coralinas (@movcoralinas)

Santos – Bancada das Sereias (@bancadadassereias)

Sport – Elas e o Sport (@elaseosport)

São Paulo – São Pra Elas (@saopraelas)

Vasco – Vascaínas contra o Assédio (@crvgsemassedio)

Vitória – Loucas pelo ECV (@loucasoeloecv)

 

Arquibancada
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COMENTÁRIOS
JOSE EDMILSON
Gostei da matéria, é esclarecedora sobre os desafios e conquistas femininas dentro do ambiente até então fechado do futebol. Parabéns às jornalistas.
08 jul 2021
 
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