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Pequena coreografia do adeus: uma ode ao amor que jamais teremos

Inovador, poético e brutal, ‘Pequena Coreografia do Adeus’ escancara toda a incapacidade humana de amar.

Na Estante
07 jul 2021 | Por Mariana Marques (m4rimarques@usp.br)

“já naquela época eu sabia que mentir era
 um direito básico
à fabulação
que eu usufruía
quase sem

culpa
para conseguir ser um pouco mais livre.”
Aline Bei, Pequena coreografia do adeus

 

O segundo livro de Aline Bei, vencedora do prêmio São Paulo Literatura de 2018 por O peso do pássaro morto (Companhia das Letras, 2017), é um retrato preciso de uma infância banhada em solidão. Publicado em 2021 também pela Companhia das Letras, Pequena coreografia do adeus surpreende com seu ritmo de escrita, estética e brutalidade.

Conhecemos Júlia Terra, nossa jovem e apaixonante protagonista, às vésperas de um dos seus rompantes de violência. Incapaz de lidar com os destroços do casamento dos pais e com a rígida rotina à qual é submetida dentro de casa, é na brutalidade física que ela encontra alguns escassos momentos de alívio. 

Isso muda quando, por sugestão da diretora da escola, uma das raras pessoas capazes de enxergar por trás do manto de indiferença no qual Júlia envolveu a si mesma, ela encontra na dança a sua grande paixão. O primeiro amor, assim como todos os primeiros amores, é intenso, exigente e curto. Em pouco tempo a garota é forçada a voltar à aridez da sua vida doméstica conturbada.

Pequena Coreografia do Adeus: autora Aline Bei, mulher branca, de cabelos escuros, trajando blusa preta e casaco leve vermelho, segura um arranjo de flores laranjas.

Escritora Aline Bei, autora de “Pequena Coreografia do Adeus” (2021) e “O peso do pássaro morto” (2020). [Imagem: Reprodução/Instagram]

A sensação de abandono que nutre em relação ao pai que consegue superar o fim do relacionamento e, ao sair de casa, se torna uma figura ainda mais distante da filha perdura durante toda a vida de Júlia. Mas a relação com sua mãe é de longe a mais complexa do romance. As agressões constantes por motivos irrisórios, a ausência de demonstrações de afeto e as frases depreciativas corroem qualquer sentimento de pertencimento e conforto que Júlia pudesse nutrir por seu lar.

A estruturação da escrita surpreende: a obra é majoritariamente construída em forma de versos que criam um ritmo de leitura harmonioso. A autora também faz uso da alternância entre os tamanhos da fonte para expressar os diferentes níveis de intensidade dos sentimentos da personagem. 

Boa parte da autenticidade de Júlia desaparece quando ela alcança a idade adulta. Introvertida, apaixonada por livros e atendente em um café pouco frequentado, ela encarna um clichê muitas vezes representado na literatura e no cinema. A dificuldade em se relacionar amorosamente também não se revela uma novidade. 

Apesar disso, as relações familiares conturbadas ainda ocupam um lugar de destaque na vida da protagonista. Suas tentativas de se afastar do lar destrutivo onde foi criada e o relacionamento frio com o pai ainda constituem boa parte de suas contradições interiores. Mas também abrem espaço para a conquista da própria independência, amizades e sonhos.  

Pequena coreografia do adeus nos apresenta uma protagonista cativante, sincera em suas mentiras e capaz de perseguir o amor mesmo diante da impossibilidade de ser correspondida. Um romance contagiante sobre o amor feroz pela escrita.

*Imagem de capa: Mariana Marques/Jornalismo Júnior

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