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A perspectiva infantil de amar no cinema
CINÉFILOS
13 jun 2020 | Por Pedro Guilherme Costa (pedro.massa@usp.br)

A abordagem do amor romântico no cinema confunde-se com a própria história da sétima arte. O sentimento, parte fundamental da psique humana, já foi abordado de diversas formas e perpetua-se por todos os gêneros. Mas em filmes, são os adultos que geralmente colhem da frutífera árvore de interpretação do amor, generalizam e observam. E se houvesse uma inversão etária? Se na aurora do amadurecimento, as crianças mostrassem suas perspectivas? Se substituirmos, por um momento, a visão de Jack de Titanic pela de Gabe de Little Manhattan?

Nessa matéria do Cinéfilos, veremos como a perspectiva do amor na infância em filmes também pode mostrar um caráter expansivo e profundo, ainda mais quando contrastada com a perspectiva adulta.


Meu Primeiro Amor e… Rosemary!

Gabe chorando por Rosemary. [Imagem: 20th Century Studios]

“Quando eu chego perto dela, eu fico nervoso, não sei o que falar com ela” 

– Bruno da Costa, 9 anos de idade, ao ser perguntado como fica perto da pessoa que gosta.

Com certeza Gabe e o jovem Bruno possuem muito em comum nesse sentido. Ariadne Dettman, professora doutora em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), participou de trabalhos acerca da moralidade e do amor no campo psicológico, incluindo um artigo em conjunto com Heloisa Moulin de Alencar, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), que trata especificamente do sentimento nesse período da vida.

Nesse caso, ela revela que “pensando especialmente no amor romântico, amamos o outro na expectativa de sermos amados. Essa forma de amar está relacionada a uma expectativa de reciprocidade. Nessa expectativa de sermos amados, por quem amamos, desperta expectativas de como seremos vistos pelo outro.” Ela ainda comenta que “isso ocorre com nós adultos, idosos, adolescentes, e por que não com crianças. Além disso, não podemos esquecer todos os processos fisiológicos que são acionados pelo apaixonar-se!”

 Abre-se um parênteses para ressaltar um ponto que irá aparecer mais frequentemente no decorrer da matéria: comportamentos amorosos não se restringem a faixas etárias. Com percepções diferentes, um amor na infância não é o mesmo que um amor na terceira idade, mas veremos que não há uma barreira intransponível entre eles.

Muito antes de Peeta Mellark em Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), seu papel mais conhecido, Josh Hutcherson dava vida à criança com pensamentos mais profundos sobre o amor. No aniversário de 15 anos de ABC do Amor (Little Manhattan, 2005), o filme continua a firmar-se como uma das obras mais famosas a abordar esse tema.

O longa conta a história de Gabe, de 10 anos, que começa a esboçar questionamentos referentes a sua condição de estar apaixonado por Rosemary Telesco (Charlie Ray), de 11 anos. Saindo do ambiente escolar e explorando um novo, as aulas de karatê, o jovem começa a notar sensações estranhas quando também explora um novo universo, o de Rosemary.

A obra, no entanto, brilha ao pegar justamente essa história de amor nessa pequena Manhattan das crianças e expandi-la ao ponto de tratá-la de uma forma geral. Vai desde a trajetória do nascimento do amor, retratado aqui como a quebra do muro dicotômico invisível na sala de aula entre meninos e meninas, ao rejuvenescimento de um amor perdido.

Nesse sentido de expansão, algo que contribui de forma precisa a multiplicar a riqueza interpretativa do filme é o aspecto de contraste que ele adota. De um lado, a inocente aula de karatê que marca o começo de algo, em contraposição a pais divorciados que moram na mesma casa e observam a cada dia o esvanecimento desse mesmo algo.

O contraste também presente entre diferentes visões é algo explorado nos trabalhos que Ariadne participa. Ao ser perguntada sobre a influência na construção emocional das crianças, ela diz: “observamos, em nossas pesquisas, que as crianças e adolescentes argumentavam suas concepções por experiências próprias ou vividas por outro. Neste último caso, mencionaram especialmente a influência da família, de amigos e da mídia.”

Pode ficar uma impressão de que essa ingenuidade impede a criação de algo original. No entanto, Dettman afirma que é “importante destacar que a criança não será mero reprodutor da forma de amar que observa; ela constrói sua própria forma de amar, a partir dessas influências.”

Gabe e Rosemary no Central Park. [Imagem: 20th Century Studios]

Gabe é um exemplo claro dessas influências. Ele recebe algumas delas, muitas vezes inconscientemente, e chega até a reproduzi-las em certos momentos, como na passagem em que segura carinhosamente a mão de Rosemary. Mas ao final, ele realmente constrói sua própria forma de amar, na qual absorve um misto de outras formas.

Um dos espectros mais fascinantes nas pesquisas é dito com uma pergunta direcionada sobre a aprendizagem que os adultos podem ter com as crianças com o conceito de amor.

Sobre esse aspecto, que é retratado no filme, ela afirma que: “outro aspecto relevante foi analisado em uma pesquisa exploratória que realizamos com pessoas de 5 a 70 anos. Neste estudo analisamos que os mais novos mencionavam um conceito de amor voltado para ação para o bem a outro (como cuidar e compartilhar), não definindo quem seria o recebedor dessa ação; sendo que os mais velhos proferiram respostas de amor direcionadas a uma pessoa próxima (amor a pessoas da família, amigos e companheiro).”

Ela também comenta que este é um conceito que parte de uma ideia ampla e que é direcionada para o bem, caminhando num sentido de amor específico a uma pessoa próxima. Na verdade, este é o início da reflexão sobre um olhar mais abrangente do ponto de vista infantil.

Estruturando a reflexão proposta, de uma necessidade em explorar esse olhar, ela reitera que “foi uma pesquisa exploratória apenas, mas nos deixa com a pergunta: será que perdemos essa concepção virtuosa do amor como ação para o bem e focamos para apenas quem nos é próximo? Essa questão aponta para a relevância de discutirmos mais com crianças e adolescentes sobre as possibilidades de amor.”

Ainda no sentido de contraste, mas agora ligado ao ambiente, o título do filme não poderia ser mais perfeito nesse sentido. É claramente o choque entre duas Manhattans: uma que abriga a multiplicidade de Nova York, grande cidade que entrelaça diversas narrativas e acontecimentos, e outra que representa o palco do primeiro amor de uma criança, que consegue atravessar e sobrepor a primeira, como se aquele grande organismo vivo estivesse, por um momento, exclusivo às duas crianças como o meio pelo qual o amor floresce.

Um importante fator citado é a narrativa adotada. Gabe é um exímio narrador de sua própria história, pois o telespectador consegue absorver suas inseguranças e alegrias a cada contato com Rosemary. De certa forma, torna-se não só a voz dele, mas a de diversas pessoas que passaram e ainda passam pelo mesmo que ele está sentindo, reforçando novamente o caráter geral do filme.

Há uma trama no longa que elenca justamente o que essa matéria se propõe em certo ponto. Após a cena de briga no telefone (que entra no hall de cenas que podem ser ouvidas), Gabe começa a questionar ainda mais o que sente. Além de ilustrar esse tópico, ela marca na cabeça dele “Por que o amor acaba?”. Essa pergunta, no entanto, é cirurgicamente posta de frente ao pai do jovem nova iorquino, em processo de divórcio.

A genialidade acerca disso é o fato de que a partir da desilusão amorosa de uma criança, há uma troca, um aprendizado. O pai questiona sua própria condição, como ele chegou até aquele ponto no casamento, enquanto Gabe utiliza o que aprendeu para se desculpar. São dois amores diferentes, seja pela intensidade ou pela faixa etária, porém nenhum dos dois se prende a isso.

ABC do Amor está muito além, por mais que seja fascinante, da história de Gabe e Rosemary. Ele preenche uma leitura esperançosa sobre amar e no fim, por que não, tirar nomes de embalagens que pareciam muito distantes na geladeira do amor.

 

Meu Primeiro Amor e a despedida dele

Vada e Thomas J. fugindo de abelhas. [Imagem: Columbia Pictures]

“Eu acho que sinto muito amor por ele, não sei”

“Dá vontade de bater nele … mas o coração fica batendo mais rápido” 

– Manuela de Paula, 9 anos de idade, primeiramente ao ser perguntada o que sente pelo garoto que gosta, em seguida complementando o que acontece quando o vê.

Thomas J. (Macaulay Culkin) entende o garoto que Manuela gosta, ou pelo menos a pancada que ele levará dela. Meu Primeiro Amor (My Girl, 1991) é um exemplo nostálgico de formação do que a tradução brasileira descreve bem no título. Pena que eles não contavam com a continuação, o que torna a ideia de Meu Primeiro Amor 2 (My Girl 2, 1994) um tanto paradoxal. Mas não estamos sozinhos nessa, a tradução de Portugal sabe muito bem disso ao traduzir o longa como Meu Primeiro Beijo. Já inseridas as incontornáveis piadas acerca do filme no Brasil, vamos a trama.

Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky) tem 11 anos de idade e vive com seu pai Harry Sultenfuss (Dan Aykroyd), que é viúvo e agente funerário. Tendo a própria casa como funerária, a jovem possui uma relação prematura com a morte. Por conta desse aspecto, não tão explorado no mundo infantil, Vada não tem muitos amigos. Thomas J., porém, se destaca como seu melhor amigo e irá acompanhá-la em um verão cheio de descobertas. Há no entanto, nessa trama que pode parecer à primeira vista despretensiosa, reflexões bem estruturadas em relação ao amor.

Vada não se atêm a tecer explicações pelo o que sente, cabendo a quem assiste interpretar os sentimentos da jovem. Este é o primeiro diferencial com o filme citado anteriormente, já que Gabe é um personagem narrador que costuma dissecar sua condição. Ela sabe que sente, mas não tem a capacidade de explicar.

Essa característica comum está bem longe de se referir somente às crianças. Em uma análise psicológica, Dettman explora o fato de que “falar de amor não é algo simples. Mencionar um conceito para abarcar todo significado do amor é difícil de ser feito, seja para criança, adolescente, adulto ou idoso. Isso porque conceituar um sentimento é algo abstrato”, marcando novamente uma visão não excludente.  

Mas em termos de percepção, ela observa que “a criança ainda está desenvolvendo capacidades para compreender o que é abstrato (considerando seu próprio processo de desenvolvimento cognitivo). Por isso, para a criança é mais fácil “sentir” do que “explicar o sentimento””.

Ela conclui, ao explicar a complexidade deste sentimento: “ainda, observamos em nossas pesquisas que para crianças e adolescentes o conceito de amor engloba outros aspectos que não apenas o sentimento; amor é ação, é relacionamento, é aceitação do outro… O que indica a complexidade desse conceito.”

Nesse doce clima de descoberta das crianças, há um importante paralelo a ser traçado. De um lado, crianças fazem promessas aos pés do Salgueiro-Chorão, com receios próprios de primeiras experiências. Do outro lado, Harry começa uma nova relação com Shelly Devoto (Jamie Lee Curtis), com receios próprios de quem já passou por muitas. Essa duplicidade contribui para elencar justamente a multiplicidade do amor, que possui características ao mesmo tempo iguais em nome, mas típicas em fases.

Vada se despedindo simbolicamente do primeiro amor. [Imagem: Columbia Pictures]

Há um fator comum às duas obras, mas em Meu Primeiro Amor é um pouco mais destacado: a despedida do primeiro amor. Neste exemplo, a forma usada para moldar esse momento é deveras mais grave. Há uma importância narrativa no acontecimento, já que marca o desenvolvimento da personagem de Vada a partir de uma visão próxima e nítida da morte, não sendo simplesmente apelativa.

Sendo assim, o filme conduz o espectador para a resolução desse arco de uma forma inesperada. Utilizando as aulas de redação, que Vada fazia para ficar mais próxima de seu amor platônico (seu professor), ela disserta sobre seu amor tangível. A força dessa cena está ligada ao valor de lembrança daquelas experiências vividas.

Novamente, há uma representação essencial desses filmes para a realidade, como dito por Dettman: “como as próprias crianças mencionam, o conceito de amor que possuem é formado, entre outros motivos, pela experiência que tiveram ou pelo o que compreendem da experiência vivida por outra pessoa.”

É o significado que as crianças dão a “essas experiências que influenciará sua concepção de amor. Influenciados pela cultura, damos muita ênfase ao “primeiro” (primeiro beijo, primeiro amor, primeira relação sexual, etc.)”.


A perpetuação do amar infantil para a vida 

“O primeiro amor assim como os demais influenciarão os futuros relacionamentos, pelo significado dado a essas experiências”, destaca a doutora.

Essa fala é perfeita quando se encaixa ao que Vada e Gabe querem passar ao fim dos seus respectivos filmes. É certo de que não serão esquecidos o anel do humor, o Salgueiro-Chorão, as aulas de karatê ou até mesmo o picolé tomado no Central Park, pois eles fazem parte de uma história muito maior. A construção emocional de quem sempre lembrará do primeiro amor quando subir uma árvore ou quando dar uma volta de patinete nos lugares que andou com ele.

A importância sentimental desses filmes é justamente fazer com que o telespectador relembre sua própria infinidade de “Salgueiros-Chorões” ou quando começou a entender “todas aquelas músicas ridículas sobre o amor”.

Certamente Thomas J. e Vada, Gabe e Rosemary, entre outras crianças que foram retratadas no cinema compartilhando deste sentimento, não merecem simplesmente um breve destaque. Eles devem ser enquadrados juntamente aos grandes casais da sétima arte, pois eles simbolizam o nascimento daquilo que se vê de Casablanca (1942) à Diário de Uma Paixão (The Notebook, 2004).

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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