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‘Carlota Joaquina, Princesa do Brasil’: uma maneira inusitada de representar a História

30 anos após sua estreia, o filme provocativo da monarca portuguesa volta às grandes telas
Por Sofia Colasanto (sofiacolasanto2@usp.br)

Nesta quinta-feira (14) o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995) retorna aos cinemas três décadas depois de seu lançamento, agora em versão remasterizada em 4k e áudio 5.1. A primeira obra de Carla Camurati como diretora narra de maneira excêntrica a história da esposa de Dom João VI, desde seu casamento com o monarca com apenas 10 anos de idade até a passagem da Corte Portuguesa pelo Brasil. O filme foi um marco da recuperação do cinema nacional na segunda metade da década de 90 e suas escolhas estilísticas e narrativas geram debates desde sua estreia.

Na obra, a vida de Carlota Joaquina é contada em língua inglesa por um escocês à sua sobrinha, de modo que a distância do narrador com a realidade dos fatos marcam o tom do filme, propondo uma visão irônica da história portuguesa e brasileira. De início, Carlota Joaquina (Ludmila Dayer) é apresentada como a infanta espanhola nos preparativos para seu casamento, e o público é arrebatado pelo baile de despedida da monarca, dotado de virtuosos vestidos vermelhos, perucas exuberantes e uma grandiosa apresentação de flamenco. Assim, a agitada e autêntica princesa passa a viver com a pataca e rude monarquia portuguesa ao se casar com Dom João VI (Marco Nanini).

O filme tem como pano de fundo acontecimentos históricos, o que poderia dificultar a originalidade da obra, pois a narrativa já é conhecida pelo público. Porém, a obra se destaca justamente pelo modo em que tudo é exposto. Os tempos em que o casal viveu em Portugal são contados com destaque na alteridade entre os dois — Carlota Joaquina (Marieta Severo) é uma mulher corpulenta, geniosa, vivaz e obcecada por sexo, enquanto seu marido é incapaz, mal-educado, sujo, e passa grande parte de suas cenas comendo apenas coxas de frango e dizendo pequenas frases tolas com voz anasalada.

Enquanto Carlota se destaca pelo uso de roupas vermelhas e roxas, que combinam com sua imponente personalidade, Dom João VI e a Corte Portuguesa utilizam tons de verde e azul, que demarcam a monotonia e lentidão da família [Imagem: Reprodução/Imdb]

Grande parte do longa se passa quando a Corte Portuguesa vem ao Brasil para se refugiar da invasão de Napoleão Bonaparte ao seu país. As embarcações são recebidas no Rio de Janeiro por negros e indígenas curiosos, e a cidade é tomada por um agito e misticidade acerca das figuras reais. A obra explora os impactos sociais da vinda da corte para o país, mas prefere focar sua narrativa nas aventuras libidinosas de Carlota, que ignorava distinções sociais em busca de homens que lhe dessem prazer. Apesar disso, a monarca sempre odiou a colônia e, ao retornar para Portugal na cena final, exclama: “Dessa terra não quero nem o pó!”.

Mesmo com grande elenco e figurinos pomposos, o filme teve dificuldades financeiras em sua produção. Em 1990, o governo de Fernando Collor extinguiu a Empresa Brasileira de Filmes S.A (Embrafilme), produtora e distribuidora estatal que era a principal financiadora das produções brasileiras. Assim, apenas três lançamentos nacionais aconteceram em 1992, muito diferente dos 80 lançamentos anuais médios na década anterior. Porém, quando a Lei do Audiovisual é promulgada em 1993 e se soma à Lei Federal de Incentivo à Cultura, a engrenagem da sétima arte brasileira volta a rodar, inaugurando o Cinema de Retomada, momento de que Carlota Joaquina, Princesa do Brasil é um grande expoente. 

É inegável que a produção apresenta de maneira singular a história do Brasil, já que em muito se difere de como o período é retratado, tanto por anacronismos estéticos quanto pela abordagem cômica das figuras emblemáticas e a representação de anedotas que parecem pouco verdadeiras. Em entrevista para a Folha de S. Paulo no ano de estreia da obra, Carla Camurati afirmou: “Eu quis ser divertida, não quis ser séria. E não peguei pesado mesmo.” E, realmente, o propósito da diretora é perceptível durante todo o longa, o que incomoda aqueles apegados aos fatos.

A escolha de como e por que narrar a realidade daquela maneira são passíveis de crítica, ainda mais passados os 30 anos da estreia. Por mais que a intenção do filme caminhe para o lugar do inusitado e humorístico, há certas retratações que escapam do limite artístico. Um exemplo é o apagamento total da violenta escravidão brasileira organizada e apoiada pela Corte Portuguesa, que é retratada por meros escravizados que usam perucas ruivas, calça chita, pinturas corporais e sandália havaianas.

Na chegada da família real em Salvador, eles são recebidos por pessoas negras com pinturas corporais e que pouco falam português, o que difere da realidade, afinal, a cidade era a capital do país e possuía uma sociedade organizada [Imagem: Reprodução/Imdb]

De modo geral, ao tentar inverter a austeridade com que se conta a trajetória brasileira, Carlota Joaquina, Princesa do Brasil não provoca uma crítica bem refletida. Ao tentar novas representações, o longa também apresenta o Brasil como exótico e periférico, em que muitas vezes não se compreende até que ponto a intenção é causar reflexão ou ridicularizar. Assim, ao inverter tudo que já era conhecido sobre o período, ele cai em representações igualmente simplistas e superficiais das figuras históricas. 

Carlota Joaquina, Princesa do Brasil deve ser assistido como um documento histórico, um marco de um período do cinema, mas não mais que isso. Um dos prazeres de consumir a obra está em perceber o avanço do audiovisual e do debate histórico, o que possibilitou a realização de um filme como Ainda Estou Aqui (2024). O filme choca com sua estética transgressora, mas se perde em sua liberdade artística.

A versão remasterizada de Carlota Joaquina, Princesa do Brasil já está nos cinemas. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/Imdb

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