Por Bernardo Medeiros (bernardo10medeiros@usp.br), Eduardo Granado (eduardo.prompto.granado@usp.br) e Sofia Colasanto (sofiacolasanto2@usp.br)
Conhecido mundialmente como Muhammad Ali, o pugilista norte-americano foi muito mais do que uma fera nos ringues. Advogado dos direitos humanos e do fim da segregação racial e religiosa, Ali foi um ícone pop, cultural e, especialmente, político. Mas, antes de ser Ali, o boxeador era Cassius Clay, um lutador amador de Louisville, com uma carreira que ainda despontava no esporte profissional. Hoje em dia, ele se tornou um símbolo das lutas antirracistas e do “black beauty”, além de ser reconhecido como um dos melhores boxeadores que o mundo já presenciou.
Segregação, resistência e boxe
Em 1960, faziam cem anos do fim da Guerra de Secessão americana. Tempo suficiente para antigos comandantes serem esquecidos, assim como a diferença que levou ao início do conflito: o trabalho escravo. Ainda assim, os Estados Unidos eram um país marcado pelo racismo e pela separação estrutural entre negros e brancos. Não apenas nos antigos “estados confederados”, mas em todo o país, como destacou Sean Purdy, professor de História dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo (USP), para o Arquibancada.
Lugares específicos para pessoas negras, como assentos de ônibus, banheiros públicos e mesmo guetos, eram práticas comuns em uma democracia mais que centenária. Mas o buraco, quando se tratava do racismo presente na sociedade americana, era bem mais abaixo. Grupos como a Ku Klux Klan (KKK) caçavam e matavam pessoas negras, com permissividade do governo.

Malcom X foi um dos principais ativistas negros dos Estados Unidos, e amigo próximo de Cassius Clay [Imagem: reprodução/WIkimedia Commons]
No contexto da ascensão de diversos movimentos sociais nos Estados Unidos na década de 60, como os movimentos hippie e feminista, surge o movimento negro. Ele reuniu líderes carismáticos desde Marthin Luther King Jr. e Malcom X e cresceu e se fortaleceu como uma resposta ao tamanho e intensidade da repressão os negros.
Nesse sentido que outros movimentos sociais atrelados ao movimento negro se fortalecem, como o Black Panthers, que possuía abordagens mais diretas, e o grupo religioso “Nação do Islã”, que, como eclarece Sean, é uma ala do islamismo pouco aceita na comunidade islâmica internacional, e que sugiu nos Estados Unidos como uma: “Mensagem para se ter orgulho em ser negro e também como um nacionalismo negro. Foratalecendo empresas, lojas e comércio só para negros, e de negros.”
E os esportes sempre foram um espaço de disputa contra o racismo. Esportistas como Jesse Owens, que desafiou a ideologia eugenista no seu ninho, a Alemanha Nazista. Ou o pugilista Rubin “Hurricane” Carter,menos conhecido do que Ali, mas que também gerou grande comoção entre a comunidade negra. Eles usavam essa plataforma para mostrar como negros não eram piores do que brancos, fisicamente, intelectualmente ou moralmente.
Cassius Clay
Nascido no dia 17 de janeiro de 1942, Cassius Clay era o mais velho de dois irmãos e herdou o nome do pai, que, por sua vez, foi nomeado em homenagem a um líder abolicionista americano. O futuro pugilista iniciou a sua carreira aos 12 anos, em um incidente hoje popularmente conhecido, o “roubo da bicicleta vermelha”.
O episódio consistiu no roubo de uma nova bicicleta que Clay tinha ganhado recentemente. Relatando o episódio para um policial próximo, ele disse que gostaria de dar uns “murros” em quem quer que tivesse roubado a sua bicicleta “Schwinn”. E o policial, então, aconselhou o jovem a aprender boxe. Mais tarde, identificou-se que o policial era Joe Martin, o primeiro treinador que introduziu Clay ao esporte.

Clay e o seu primeiro treinador, Joe Martin, que o levou a ganhar mais de seis títulos regionais, quatro títulos nacionais e a medalha de ouro, em 1960 [Imagem: reprodução/WIkimedia Commons]
Seis semanas depois do episódio, Clay ganhou a sua primeira luta. Com o tempo, o menino se acostumou a ganhar, e Joe ficou cada vez mais impressionado com a velocidade e a neutralidade das reações do atleta no ringue.
Ao longo da sua carreira amadora, o pugilista teve 100 vitórias até completar 18 anos, de um total de 108 partidas. Ele conquistou seis luvas de ouro estaduais de Kentucky,, dois títulos das competições da União Nacional de Atletas Amadores, duas Luvas de Ouro nacionais e, finalmente, um medalha olímpica de ouro na divisão de peso-leve das Olimpíadas de Verão de 1960, em Roma.
Ao mesmo tempo que crescia a fascinação com o esporte, Cassius logo entendeu a posição que ocupava na sociedade americana. Em sua autobiografia, A Alma de uma Borboleta, ele descreve como a mutilação brutal de Emmet Till, um garoto negro de catorze anos, o marcou para sempre. “Eu sabia que meu coração iria endurecer em um mundo com tanta dor, confusão e injustiças.” E completa: “De alguma maneira, eu teria que amar mesmo aqueles que não conseguissem me amar de volta”.
“De algum modo, eu sabia que para sobreviver eu não poderia me tornar amargo”
Muhammad Ali, em sua autobiografia
Da estreia ao topo
Em 29 de outubro de 1960, Cassius Clay voltou à sua cidade natal, Louisville, em Kentucky, para sua primeira luta de boxe profissional, competindo pela categoria dos pesos pesados. O rival foi Tunney Hunsaker, um chefe de polícia de 30 anos de Fayetteville, na Virgínia Ocidental.
Hunsaker chegava para a luta depois de perder seis lutas, porém com um histórico positivo de 17-9-1 até então. Já Clay, estreou nos ringues profissionalmente com 18 anos, pouco mais de um mês após conquistar a medalha de ouro nas Olímpiadas.
Os dois lutadores se mantiveram em pé até o final do combate. Hunsaker era mais experiente, porém mais lento e menor que Clay, que girava em torno do oponente no ringue. Na reportagem do The Courier-Journal, no dia seguinte à luta, descreve: “Clay, que dançava e se movia rapidamente, ensanguentou o nariz de Hunsaker no terceiro round com uma enxurrada de golpes, e foi no quarto que ele abriu o corte sobre o olho”.
No final da luta, decisão unânime pelos juízes: vitória de Cassius Clay, com placares de 30-24, 30-23 e 30-19. “Ele é incrivelmente bom para um jovem de 18 anos e tão rápido quanto um peso médio”, declarou Tunney Hunsaker ao The Courier-Journal após o confronto. Já o vencedor disse: “Estou pronto para lutar 10 rounds a qualquer momento” e que não teria se cansado da luta. Logo em seguida ao combate, o jovem Clay assinou um contrato de 18 mil dólares com um grupo de empresários de Louisville, que agenciaram sua carreira até 1966.
Após a estreia, o jovem lutador adquiriu uma enorme sequência de vitórias: 19 vitórias seguidas de 1960 até 1963. Dentre as 18 lutas que sucederam a estreia, 15 nocautes, triunfos marcantes contra ex-campeões dos pesos-pesados, incluindo seu ex-treinador Archie Moore, sua primeira aparição em Londres e o início de suas famosas provocações e previsões antes das lutas.
Foi nesse período que surgiu sua marcante personalidade, uma mistura de confiança e arrogância, utilizando-se do chamado trash talk (conversa fiada) para desestabilizar seus adversários, como por exemplo, suas previsões antes da lutas, que iniciou contra Lamar Clark em 1961, onde acertou exatamente quando derrubaria o adversário, no segundo round. No dia 25 de fevereiro de 1964, Cassius Clay disputou sua primeira luta pelo cinturão dos pesos-pesados, contra Sonny Liston. O atual campeão conquistou o cinturão após vencer Floyd Patterson em 1962 e chegava como favorito contra o desafiante de apenas 22 anos. Porém, a luta foi dominada pelo jovem Cassius Clay.
Com sua velocidade e movimentação, Clay girou em torno do atual campeão durante seis rounds, o atingindo constantemente. Antes do sétimo round, Liston acusou uma lesão no ombro e não voltou para a luta. Cassius Clay se tornou campeão dos pesos-pesados pela primeira vez, título que manteve até 1967.
“Vocês têm que me engolir. Eu sou o rei do mundo”
Cassius Clay, no ringue após vencer seu primeiro cinturão

Os dois boxeadores voltaram a se enfrentar um ano depois, porém, o já Muhammad Ali, nocauteou Liston em apenas dois minutos de luta e gerou uma das fotos mais marcantes do esporte [Imagem: Reprodução/X/@itsme_urstruly]
O impávido
Mas não foi apenas no esporte que sua ousadia teve impacto. Foi politicamente que a personalidade de Clay floreou, e onde se tornou um ícone da cultura pop, mas principalmente na luta anti-racista e religiosa.
No dia seguinte da luta, o atleta anunciou publicamente sua conversão ao Islã e, em 06 de março de 1967, sua mudança de nome para Muhammad Ali. Três anos antes, Ali já se aproximava do grupo religioso Nação do Islã, do qual Malcolm X era integrante e que promovia o discurso de negros serem autossuficientes. Além dos motivos religiosos, o pugilista declarou em entrevista à NBC que a alteração de seu nome ocorreu porque: “Clay era o nome de um homem branco. Era um nome de escravo. Eu não sou mais Clay. Não sou mais escravo. Então, agora sou Muhammad Ali.” Sean reconhece que para Ali, a luta dele contra o racismo também foi parcialmente religiosa.
Seus adversários e a imprensa resistiam em chamá-lo por seu novo nome. Em 1967, seu oponente Ernie Terrell o chamou por Cassius Clay momentos antes do embate entre os dois. O resultado foi a vitória de Ali, que clamava no ringue “Qual é o meu nome?” durante toda a luta.
Nesse mesmo ano, Muhammad Ali fez uma escolha que mudaria sua carreira e imagem para sempre. Naquele momento, os Estados Unidos participavam da Guerra do Vietnã e tinham implementado o alistamento obrigatório de sua população para lutarem no conflito. Muhammad já havia sido convocado, mas seus advogados buscaram adiar o máximo a entrada do lutador no Exército, que em 1966, havia dito que não sentia nenhuma rivalidade contra os vietcongues.
Porém, em 28 de abril de 1967, em uma coletiva de imprensa antes de se apresentar ao Conselho de Recrutamento, Ali anunciou a sua recusa em ir para a guerra. Entre suas justificativas, o atleta afirmou que os verdadeiros inimigos de seu povo viviam nos Estados Unidos e que sua religião não o permitia lutar em uma guerra ao lado de não-islâmicos. Na cerimônia de recrutamento, Muhammad se recusou a dar um passo à frente quando seu nome foi chamado.

Elijah Muhammad era o líder do grupo Nação do Islã. Ele era próximo de Ali, e alguns o responsabilizam pelo radicalismo político e religioso do atleta [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
As consequências por sua recusa, vista como uma traição à nação, não foram amenas. O lutador foi condenado pelo Estado a cinco anos de prisão e a pagar uma multa de 10 mil dólares. Horas depois do anúncio, a Comissão Atlética de Nova Iorque o proibiu de lutar no estado, decisão que foi tomada por outras organizações esportivas estadunidenses, e seu título de campeão mundial dos pesos-pesados foi tomado. Por outro lado, a sua recusa foi de grande relevância por expor a luta pelos direitos civis e pelo fim da guerra na mídia, de acordo com Sean.
Muhammad Ali recorreu da decisão, e em 1971, a Suprema Corte anulou sua sentença, ao reconhecer seu direito à objeção por motivos religiosos. O pugilista não passou nenhum dia na prisão. Enquanto ficou afastado dos ringues, ele se ocupou de dar palestras em colégios e universidades, aproveitando sua boa oratória e capacidade de comunicar-se com jovens.
“Eu não viajarei 10 mil milhas para assassinar e matar outro povo pobre simplesmente para perpetuar a dominação de senhores de escravos brancos”
Muhammad Ali, quando anunciou sua recusa ao alistamento militar
A luta do século
Depois de três anos sem lutar profissionalmente, Ali retomou sua carreira com lutas contra adversários menores antes de ir em busca do título de campeão mundial de peso-pesado, que naquele momento era defendido por Joe Frazier. Em 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, o embate entre as duas lendas do boxe resultou na primeira derrota profissional de Muhammad Ali. Era inevitável que o pugilista estivesse fora de forma depois da pausa, e Frazier não foi piedoso ao derrubar seu oponente com um gancho de esquerda no último round, o que lhe garantiu a vitória unânime pelo júri.
Muhammad recuperou o cinturão em 1974, em uma disputa de oito rounds contra George Foreman na cidade de Kinshasa, localizada na atual República Democrática do Congo. Ele só perderia o título em 1978 para Leon Spinks, mas o recuperou sete meses depois. Após suas derrotas para Larry Holmes e Trevor Berbick, Ali anunciou a sua aposentadoria em 1981. Das 61 lutas que disputou, ele venceu 37 por nocaute e perdeu apenas cinco.
Em 1984, o seu diagnóstico de doença de Parkinson veio à público. Nos anos seguintes, Muhammad Ali atuou como pacifista e defensor dos direitos humanos, como em suas visitas ao Iraque, durante a Guerra do Golfo, e ao Afeganistão em 2002. Em 1999, Ali recebeu os títulos de Personalidade Esportiva do Século pela BBC e de Esportista do Século, pela Sports Illustrated. Seis anos depois, o ex-pugilista ganhou, das mãos de George W. Bush, a Medalha Presidencial da Liberdade, na Casa Branca.

Ali acendeu a chama olímpica na Olimpíada de Atlanta, em 1996. No mesmo ano, ele foi à Cuba e conheceu Fidel Castro para prestar ajuda humanitária [Imagem: Reprodução/Youtube/Olympics]
Muhammad Ali faleceu no dia 03 de junho de 2016, por um choque séptico decorrente de problemas respiratórios. Por sua trajetória, a luta do século de Ali foi pelos direitos civis, pela igualdade racial e pela paz. De acordo com Sean, “o legado dele é que pessoas famosas podem fazer uma diferença nos movimentos sociais.” O professor comenta que há uma tentativa de caracterizar o esporte como um campo neutro, mas que a atividade é política e que os atletas devem utilizar de sua popularidade para lutarem por causas sociais, como pelo fim do racismo no mundo esportivo.
” Nenhum povo ganhou a liberdade até que alguns tiveram que morrer, alguns perderam a riqueza e outros desistiram de ganhar dinheiro”
Muhammad Ali, em entrevista ao programa The Dick Cavett Shows, em 1971
