Por Gabriela César (gabriela.oliveiracesar@usp.br) e Gabriella dos Santos (gabriella.santos12@usp.br)
O jornalista César Tralli, âncora do Jornal Nacional, ministrou na segunda-feira, 2 de março, a aula inaugural do curso de extensão “Tendências do Jornalismo Contemporâneo” para estudantes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O evento marcou a abertura do seminário, fruto da parceria entre a USP e a TV Globo, por meio da Academia LED | Jornalismo Globo na Universidade, e reuniu alunos no Anfiteatro Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária.
Com o tema “O desafio de falar com o Brasil”, Tralli discutiu os bastidores do telejornalismo, a responsabilidade social da profissão, o enfrentamento à desinformação e a necessidade de preparo técnico e emocional diante de um cenário marcado por transformações tecnológicas.
Em abril de 2025, Tralli esteve presente no evento de lançamento do edital da Academia LED – Luz na Educação. Na ocasião, ele dividiu o palco com os jornalistas Maju Coutinho e Renata Lo Prete, em uma aula aberta que apresentou a iniciativa aos estudantes, além de marcar a divulgação do edital que selecionou estudantes para experiências práticas na redação da Globo.

Na abertura do evento, Clotilde Perez, diretora da ECA, destacou o significado institucional da parceria entre a faculdade e a emissora. “Esta aula inaugural marca uma parceria muito significativa entre a Escola de Comunicações e Artes e a TV Globo” — afirmou, ressaltando que a iniciativa fortalece tanto a graduação quanto a pesquisa. Segundo ela, a presença de Tralli simboliza “o compromisso com a informação de qualidade, com a ética profissional e com o interesse público”, valores centrais para a formação de novos comunicadores.
Liedi Légi Bariani Bernucci, vice-reitora da USP, destacou que a iniciativa reforça o papel estratégico da extensão universitária. “Levar o conhecimento para fora dos muros da universidade é parte essencial da nossa missão pública” — pontuou, ao defender que a universidade deve dialogar com diferentes setores da sociedade. Segundo ela, a parceria com a Globo foi apresentada como oportunidade de fortalecer essa interlocução.
“Trabalhar dá trabalho”
Durante sua fala no evento, Tralli enfatizou que o jornalismo exige dedicação integral e disponibilidade permanente. “Trabalhar dá trabalho, e a vida não tem atalho”, afirmou. Para ele, a prontidão é uma das marcas da profissão.
Ao relatar coberturas recentes, explicou que, muitas vezes, compromissos pessoais precisam ser deixados de lado diante de acontecimentos inesperados. “Você demonstra para o público seu engajamento quando está pronto para ir para a redação ou para a rua assim que algo acontece”, disse.
Para Tralli, o jornalismo é uma atividade de interesse público permanente. Ele defendeu que informar com responsabilidade é uma forma de serviço à sociedade e que a credibilidade depende de compromisso contínuo com a verdade factual. “Confiança não se impõe, se conquista”, pontuou o jornalista.

Tralli defendeu que rigor técnico e sensibilidade não são opostos. “Como não se comover?”, questionou ao lembrar entrevistas feitas em cenários de desastre. Ele citou como exemplo a tragédia ocorrida em Minas Gerais há uma semana, na qual deixou a bancada do Jornal Nacional para uma cobertura in loco do desastre.
Segundo ele, a essência do jornalismo está na apuração, no contato direto com as fontes e na presença em campo. “É na rua que a gente aprende a ouvir, a observar e a entender o Brasil de verdade”, disse aos estudantes. O âncora explicou que continua participando de reuniões de pauta e decisões editoriais, e que ocupar a bancada não significa distanciamento da prática jornalística. “Eu sou, antes de tudo, repórter”, afirmou.
Desinformação e responsabilidade
Ao abordar o impacto da tecnologia, Tralli ponderou que a inteligência artificial não substitui as competências humanas. “Hoje, todo mundo fala de inteligência artificial, mas eu acredito muito na inteligência emocional”, afirmou. Para ele, empatia, equilíbrio e humildade são atributos essenciais para quem deseja atuar na área. “Humildade não é dádiva, é obrigação”, acrescentou, ao incentivar os estudantes a manterem postura ética e abertura permanente ao aprendizado.
Outro ponto central da aula foi o enfrentamento às fake news. Tralli explicou que as redações investem em ferramentas tecnológicas de verificação e em parcerias para checar conteúdos manipulados. “Cada vez mais temos que explicar como fazemos jornalismo” — afirmou, defendendo transparência nos processos de apuração como forma de fortalecer a confiança do público. Encerrando o encontro, o jornalista reafirmou seu otimismo em relação ao futuro da profissão. “Eu vou morrer otimista”, declarou.
“Eu enxergo propósito de vida no jornalismo”
César Tralli
Curso aproxima universidade e mercado
A Academia LED integra o Movimento LED Luz na Educação, iniciativa da Globo voltada à valorização de práticas inovadoras no ensino. No primeiro semestre de 2026, a empresa oferece oito disciplinas eletivas e cursos de extensão em universidades do país.
O líder da Academia LED, Matheus Francisco, destacou o compromisso da empresa com a educação. “Em todas as empresas do Grupo Globo a educação é um pilar fundamental” — afirmou, mencionando a agenda ESG (Ambiental, Social e de Governança ,na sigla em portugu) da companhia. Segundo ele, o objetivo é “promover a troca, colocando as empresas em diálogo com as academias e os centros de pesquisa, para que todos cresçam juntos”.

Na ECA, o seminário terá encontros semanais conduzidos por jornalistas, editores e especialistas da emissora, abordando critérios de noticiabilidade, processos de apuração, cobertura de crises, jornalismo multiplataforma e uso de inteligência artificial. “Vocês ensinam para a gente, e nós compartilhamos o conhecimento que produzimos na Globo com vocês”, disse Francisco.
Entre os convidados da Globo confirmados para ministrar os seminários ao longo do semestre estão as jornalistas Renata Lo Prete, Sabina Simonato e Luiza Brito, além dos jornalistas Renato Franzini, Alan Severiano, Tiago Capelle e Bruno Tavares. Também participa do ciclo o executivo Eliseu Barreira, além da jornalista Andréia Sadi, reforçando a presença de profissionais em atuação nas principais redações do grupo.
“Jornalismo é serviço público”
Fátima Baptista, gerente de projetos especiais da Globo
[Imagem de Capa: Gabriela César/Jornalismo Júnior]
