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Em situação de dominação e instabilidade: conheça as gangues que comandam o Haiti

Sem um governo estável, cerca de 200 gangues são responsáveis por dominar o país e torturar a população
Por Isabela Slussarek (isabelaslussarek@usp.br)

A história do Haiti é marcada por dominação, guerras, desastres e instabilidades políticas e econômicas. O país é considerado o mais pobre da América Latina e um dos mais pobres do mundo, marcado por graves problemas estruturais, como a falta de saneamento básico, altos índices de fome e analfabetismo. Essas taxas refletem a dificuldade de estabelecer um governo persistente e que consiga promover melhorias no país.

O Haiti sofre com instabilidades políticas desde a queda do ditador Jean-Claude Duvalier, que assumiu a presidência em 1971 e foi deposto em 1986. Duvalier foi expulso do cargo pela população e o exército passou a governar o país. O histórico dos sucessores na presidência é marcado por mandatos não concluídos, por desistência ou por expulsão. Falta de sucessores, crises econômicas, assassinatos e renúncias também marcam a história do país.  

O assassinato do último presidente, Jovenel Moïse, eleito em 2016 e morto em 2021, foi crucial para o crescimento das gangues pelo país. Após a morte de Moïse, o primeiro-ministro do Haiti, Ariel Henry, assumiu o poder em julho de 2021, mas foi obrigado a renunciar o cargo em março de 2024. A falta de um governo estável provocou a propagação das gangues e da falta de segurança pelo país, já que após completa dominação, o governo não consegue estabilizar a situação do país.

Uma história de anos

As gangues do Haiti se iniciaram entre o fim de 1950 e o início de 1960, quando o ditador François Duvalier, também conhecido como Papa Doc, desfez as forças de segurança do país, para criar uma equipe de confiança. O objetivo era de acabar com a oposição, e esse grupo passou a atuar como polícia secreta do governo. Conhecidos como Tonton Macoute, os líderes torturavam e assassinavam milhares de pessoas. O fim da milícia ocorreu com o fim da presidência de Duvalier e de seu filho e sucessor, seu filho Jean-Claude Duvalier. 

fotografia antiga em preto e branco de um soldado haitiano
Entre 1957 e 1986, estima-se que os Tonton Macoute tenham assassinado mais de 50 mil pessoas [Imagem: Reprodução/www.latinamericanstudies.org]

As ex-milícias e os ex-militares da Tonton Macoute continuaram se unindo para formar gangues que trabalhavam para empresários e políticos, em busca de financiamento. Essas gangues se iniciaram com o objetivo de formar exércitos privados para atingir o governo, mas também passaram a praticar atividades de violência. O comércio ilegal de armas de fogo e o contato com ex-militares permitiu o armamento desses grupos, que cresceram o suficiente para declarar autonomia.   

Segundo João Fernando Finazzi, professor de Economia e de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), para entender o fenômeno desses grupos é necessário relembrar a história do Haiti, pois existe uma constante na história política haitiana. Para ele, não é possível precisar a formação da primeira gangue, já que é uma continuidade da atuação desses grupos através das elites. 

“A atuação desses grupos armados não estatais está muito presente e é um processo histórico. Eles nunca deixaram completamente de existir.”

João Fernando Finazzi

João explica que, em 1995, o então presidente, Jean-Bertrand Aristide, desmobilizou o exército haitiano. Como consequência, ex-militares passaram a acusar o governo como ilegítimo e se organizaram em grupos criminosos. “Esses grupos tentam um golpe contra Aristide, que volta ao poder logo depois. Aristide toma iniciativa de se articular com esses grupos, para tentar se manter no poder”, explica o professor. É nesse momento que se inicia o uso da nomenclatura “gangues”. 

Para João, é visível a correlação entre a instabilidade política do país e o aumento da atuação desses grupos. “A polícia não tem força, as instituições não funcionam de forma adequada e o Judiciário não conseguiu resolver nem o assassinato de um presidente”, afirma. Segundo ele, essa crise constitucional favorece a autonomia e o crescimento desses grupos no país. 

Diversidade das gangues

A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que existem cerca de 200 gangues e grupos organizados que lideram o Haiti. Esses grupos aterrorizam a população por meio do tráfico, sequestro, violência física e sexual e assassinatos. Em Porto Príncipe, a capital do país, 23 gangues comandam 80% do território – e buscam aumentar esse controle cada vez mais.

Essas facções apresentam uma opinião política explícita e usam do medo e da violência para expressar essa insatisfação e alcançar os objetivos políticos de seus interesses. A renúncia do cargo do então primeiro-ministro, em 2024, foi motivada pela ação dessas gangues, que afirmavam que a população enfrentaria uma guerra civil caso não houvesse a renúncia. Na carta, Henry alegou: “Servimos a nação em tempos difíceis. Agradeço a todos que tiveram coragem de enfrentar esses desafios comigo”. 

As gangues mais poderosas do Haiti construíram uma federação conhecida como G9 (o Grupo dos 9 em família e aliança), liderada por Jimmy “Barbecue” Cherizier, em 2020, anunciado por um vídeo no YouTube. O grupo foi vinculado ao Parti Haitien Tet Kale (PHTK), o partido do ex-presidente Jovenel Moïse.

Associado aos partidos de oposição, o GPep é outra gangue de domínio na capital, criada por Gabriel-Jean Pierre, com o objetivo de competir com o G9, através da disputa do território de Porto Príncipe. Ambos são responsáveis pelos assassinatos em massa e pela violência sexual que ocorre em áreas de suas autoridades ou que buscam o domínio. Em 2023, Barbecue anunciou que os dois grupos formaram um pacto, chamado de “viv ansanm” (“viver juntos”, em português), para expulsar Ariel Henry do poder. 

João Fernando explica que essas gangues buscam “prestígio, poder e riqueza” para melhorar o estilo de vida de seus integrantes. Também diz que, no país, existem poucas opções válidas para ascender socialmente, o que torna mais atrativo adentrar ao mundo do crime. Alguns grupos buscam se legitimar fazendo referência à história haitiana, como a própria G9. 

O comandante do caos

Jimmy “Barbecue” Cherizier é o principal comandante do Haiti. Segundo ele próprio, o apelido de “Barbecue” (“churrasco”, em português) surgiu porque sua mãe era conhecida por vender frango na rua. No entanto, algumas testemunhas da violência do país alegam que o apelido foi dado porque ele costumava queimar as casas e os cadáveres de suas vítimas.

Barbecue entrou para o mundo do crime enquanto atuava como policial, após se envolver com a morte de nove civis durante uma operação contra máfias, em 2017. No ano seguinte, o ex-policial se aproximou cada vez mais das gangues e tornou-se porta-voz de algumas. Também foi acusado de participar do massacre no bairro de La Saline, em 2018, que resultou na morte de ao menos 71 pessoas.

Foto de Jimmy “Barbecue” Cherizier, um dos principais comandante do Haiti
Barbecue é conhecido por gostar de conceder entrevistas e de aparecer na mídia, apesar de ser considerado um criminoso por muitos [Imagem: Orlando Barria/EPA]

Com a morte do presidente Jovenel Moïse, o G9, que era financiado pelo partido, enfrentou uma ruptura, o que levou Jimmy a intensificar os ataques contra o novo governo. O líder também foi acusado de bloquear carregamentos de gasolina para pressionar o governo de Henry, o que agravou a crise no país.

“Estou lutando contra o sistema. Esse sistema tem muito dinheiro e tem o controle dos meios de comunicação. Agora me pintam como se eu fosse um gangster.

Jimmy “Barbecue” Cherizier

Acusado pelos Estados Unidos e pelo Conselho de Segurança da ONU de graves violações aos direitos humanos, Jimmy sempre negou todas as acusações. Em entrevista à Al Jazeera, afirmou: “Não sou um gangster, nunca serei”. Na análise de João Fernando existe uma tentativa do líder de se autodeclarar como revolucionário. No entanto, em sua opinião, trata-se de um criminoso, já que não existe uma proposta de revolução para o Haiti. 

O impacto das gangues na economia

Em entrevista à Jornalismo Júnior, o antropólogo Pedro Braum, da organização não governamental Viva Rio, alega que a ocupação territorial das gangues impacta diretamente a economia do país, pois a principal fonte de renda desses grupos é a gestão territorial. Através da extorsão, as gangues controlam comerciantes, empresas e indústrias, o que prejudica, principalmente, os mercados de rua que são importantes para a economia do país.

As gangues dominam parte do território e, como única opção, os comerciantes são obrigados a pagar taxas para trabalharem nessas áreas, o que reduz as atividades comerciais. Pedro explica que “o setor comercial no Haiti é fundamental”, pois as indústrias não buscam empreender no país, que é intensamente prejudicado pelas taxações.

“Seja um grande comerciante, seja um pequeno, as pessoas não vão investir por conta do risco que existe hoje em dia, causado pela violência.”

Pedro Braum

O antropólogo também afirma que as relações econômicas do Haiti com os outros países também são prejudicadas. Ainda segundo ele, a violência contribui com o aumento das imigrações e, como consequência, na perda de mão de obra e de gerações que poderiam contribuir com a reconstrução do Haiti. 

Para Pedro, “o fato de não haver crescimento econômico e oportunidades favorece a instabilidade e a violência, que reduz ainda mais o desenvolvimento econômico.” Segundo ele, para buscar uma melhora econômica, é necessária uma reestruturação da política interna – relacionando partidos políticos, sociedade civil e as diferentes esferas do governo – garantindo estabilidade para que o Haiti supere a instabilidade política. 

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