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O futebol entre um mercado e uma paixão

Como o sistema de gerenciamento de clubes da Alemanha contrasta com os rumos atuais do esporte.

ARQUIBANCADA
21 jun 2021 | Por Lucas T. Dias (luctd16@gmail.com)

No domingo, dia 18 de abril de 2021, vinha à tona a oficialização da Superliga Europeia, um novo campeonato de futebol que vinha para romper os paradigmas do esporte no continente. Anunciada por doze clubes fundadores — Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Manchester United, Liverpool, Manchester City, Chelsea, Tottenham, Arsenal, Juventus, Inter de Milão e Milan —, essa nova competição se propunha a oferecer jogos entre gigantes do continente em uma constância maior do que a Champions League, gerando uma renda muito maior do que os outros campeonatos.

A rentabilidade do campeonato foi inclusive dado por muitos como o verdadeiro pano de fundo da proposta. O Tottenham Hotspur, em uma declaração em seu site oficial, publicou que “em troca do comprometimento deles, os Membros Fundadores receberão uma quantia de 3,5 bilhões de euros unicamente para sustentar seus investimentos em infraestrutura e para compensar os impactos da pandemia do COVID”. Para efeito de comparação, o campeão da Champions League 2019/20, Bayern de Munique, recebeu 82,4 milhões de euros da competição, valor 42 vezes menor do que o anunciado pelo time inglês.

Porém, esse novo sistema ambicioso não foi bem-aceito pelos fãs do esporte, mesmo entre os apoiadores dos próprios clubes participantes. Um campeonato que dava aos membros fundadores uma vaga intocável numa competição sem rebaixamento, além do lucro como óbvio fator em consideração, ia contra o espírito esportivo do futebol que muitos acreditavam.

Protestos contra esse campeonato tomaram as ruas à frente dos estádios, enquanto as redes sociais ferviam com manifestações para o cancelamento da competição. Até lendas do futebol disseram abertamente ser contrários à ideia, como Gary Neville, ídolo do Manchester United, que disse inclusive que apoiaria banimento e multas aos envolvidos.

Tradução: Momento em que os torcedores do Chelsea descobrem que o time saiu da Superliga.

O resultado não poderia ter sido mais desastroso para os idealizadores da liga: após míseros dois dias de vida, a ideia voltou para onde veio. Grande parte dos times pulou fora e o barco, enfim, afundou. Mas no meio de toda essa confusão, algo foi pouco comentado: Bayern de Munique e Borussia Dortmund chegaram a ser convidados para a liga, segundo uma apuração do jornal alemão Der Spiegel, mas recusaram. Ainda mais importante: os fãs não precisaram protestar contra seus próprios clubes, pois nestes a voz de seus apoiadores é soberana. E isso devido à regra alemã de gerenciamento de clube, uma possível alternativa para o futuro do futebol.

Os fãs no poder: a regra de 50+1% na Alemanha

    A compra de clubes por empresários vêm se tornando algo recorrente no futebol moderno, e o dinheiro ganha cada vez mais espaço. Nesse cenário, a liga alemã é uma das poucas restantes que ainda preza pelo futebol como algo popular. Como é explicado no site da Bundesliga, a regra de gerenciamento de clubes — popularmente conhecida como “regra dos 50+1%”  —, significa que “o clube — e, por extensão, seus fãs — detém o direito majoritário de voto”. Segundo a regra, clubes de futebol alemães não terão permissão para jogar na Bundesliga se investidores detiverem mais de 49% das ações.

Nesse sentido, por mais que empresas ainda sejam investidoras em diversos clubes, seus interesses não são lei e seus direitos acionários estão limitados pela regra. Ou seja, mesmo convivendo com a influência corporativa, os clubes submetidos a esse sistema têm por interesse a sua base popular em última instância.

Por outro lado, como consequência desse sistema, os clubes alemães estão mais sujeitos a chacoalhadas financeiras e são menos capazes de realizar grandes transferências ou arcar com salários enormes. Na história da Bundesliga, por exemplo, somente uma compra de jogador igual ou maior do que 50 milhões de euros foi feita, menos do que na Inglaterra (35), Espanha (21), Itália (8) e França (5).

No fim, entretanto, o apoio ao 50+1% continua alto entre os fãs da Alemanha. Christian Dußler, membro-sócio do Vfb Stuttgart há 10 anos, comenta um pouco essa questão diretamente do país: “para mim não é tão importante que o vencedor da Champions League venha da Alemanha, mas sim que os fãs consigam arcar com os preços dos ingressos e que eles possam viver melhor o futebol”. Se compararmos a média de ingressos de temporada mais baratos da Premier League e da Bundesliga, os ingleses têm de desembolsar 320% do valor dos alemães — 592 €  e 185 €, respectivamente, adotando 1 £ = 1,17 €.

Torcida do Borussia Dortmund [imagem: pxhere]

    Assim, o valor principal desse esporte no país germânico se destaca como sendo a “tradição”, como Dußler afirma, e que por isso, na sua opinião, a regra do 50+1% deve continuar. “Talvez os clubes alemães não estejam todos entre os mais fortes, mas é importante que os fãs possam experienciar mais, que o futebol se mantenha como algo tradicional e que não seja só para aqueles que podem pagar por isso”, aponta o torcedor.

O futuro do futebol

As movimentações sobre a tentativa de criação da Superliga Europeia levantaram o debate sobre os rumos do futebol, o que torna a Regra dos 50+1% mais pertinente do que nunca. É importante ressaltar que essa medida não exclui a influência de empresas no clube, pelo contrário, é comum que times alemães tenham parceiras multimilionárias que interferem no time.

No caso do Vfb Stuttgart, por exemplo, a Mercedes-Benz detém parte das ações do clube, sendo também a patrocinadora oficial da camisa e tendo seu nome no estádio do time — a Mercedes-Benz Arena.

Mas isso, no caso da Alemanha, é algo complementar ao espírito do esporte cultivado no país. Os fãs, de modo geral, sentem uma forte identificação com o clube e entendem que este corresponderá às suas necessidades mais básicas como apoiador. Preços mais acessíveis e uma atenção maior às tradições do clube são coisas que passam também pela decisão deles.

Como Hans-Joachim Watzke, CEO do Borussia Dortmund, afirmou para o site oficial da Bundesliga, “Se ele [o espectador] sentir que ele não está mais sendo tratado como um fã, mas como um cliente, nós teremos um problema”.

Isso tudo contrasta com o sistema de futebol em outros lugares. Após o anúncio da Superliga, muitos fãs do esporte se revoltaram contra os donos do próprio clube e com o rumo que seus times estão tomando. Torcedores do Manchester United, por exemplo, chegaram a invadir o clássico contra o Liverpool, no dia dois de maio, para protestar contra a família Glazer, que é a que comanda o clube.

Em outro momento, apoiadores do Tottenham Hotspur ergueram faixas contra a ENIC International Limited, empresa multibilionária que controla o time londrino.O mesmo se repetiu no caso do clube rival Arsenal, em que os fãs também protestaram contra as decisões acerca da Superliga e o descaso do dono americano Stanley Kroenke com o clube.

O futebol e, acima de tudo, os espectadores de futebol, terão a oportunidade de discutir sobre qual é o rumo que esse esporte deve tomar. No fim, não é sobre cristaliza-lo como algo perfeito e idealizado, mas sim sobre conciliar interesses econômicos com as origens do jogo, além de perceber que os financiadores dessa indústria são os próprios torcedores. Para tornar a experiência mais emocionante, pessoal e acessível, é preciso que haja um contrapeso popular, de modo que o futebol se equilibre entre um mercado e uma paixão.

 

Arquibancada
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