Home Centro de Treinamento A grana em campo e o mercado bilionário das transferências do futebol
A grana em campo e o mercado bilionário das transferências do futebol
ARQUIBANCADA
10 jul 2019 | Por Amanda Capuano (amanda.gama@usp.br)

Não é de hoje que o Futebol encanta o mundo. Em 1863, ao criar a The Football Association e dar o pontapé inicial para o futebol moderno, os ingleses não tinham como prever que o esporte se tornaria um dos mais populares do planeta, nem os rios de dinheiro que movimentaria todos os anos em um dos mais rentáveis mercados da atualidade. 

Só em 2019, segundo o Sistema Internacional de Transferências da FIFA (FIFA TMS), 7.903 transações foram realizadas entre os quase 4 mil clubes ativos, movimentando 1 bilhão e 597 milhões de dólares (mais de 6 bilhões de reais em cotação atual) até o dia primeiro de julho deste ano. Em 2018, de acordo com o relatório de transferências globais da FIFA (GTM 2018), foram 16.533 transações e mais de 7 bilhões de dólares (quase 27 bilhões de reais em cotação atual). Grande parte dessa arrecadação veio de acordos de transferência de grandes astros, como a ida de Cristiano Ronaldo para a Juventus em julho, por 117 milhões de euros. 

Mas nem todas as transações que acontecem possuem multas e taxas milionárias como a do português cinco vezes eleito o melhor do mundo. A maior parte delas é decorrente de aquisições realizadas ao final do tempo de contrato dos atletas, além de empréstimos acordados entre os clubes.

Segundo Rodrigo Capelo – que escreve sobre economia e negócios no esporte para o jornal O Globo e Revista Época, além de colaborar com os canais SporTV e rádio CBN – as negociações de jogadores foram responsáveis por 18% do faturamento dos clubes da primeira divisão do futebol brasileiro em 2017, ficando atrás apenas dos 36% advindos de receitas com televisão. Tal modelo de transação é, portanto, uma das principais fontes de renda dos grandes times do país.

 

As famosas janelas de transferências

Assim como qualquer mercado financeiro, o do Futebol também possui regras definidas e um processo próprio. As transações são reguladas pela FIFA por meio do IMTS, departamento responsável por acompanhar as transações internacionais. A maior parte das negociações ocorre nas chamadas “janelas de transferências”. Altamente comentadas no meio esportivo, conforme Capelo, elas nada mais são do que o período em que os clubes são autorizados, pelas regras da FIFA, a registrar novos jogadores. 

São duas janelas durante o ano: uma no intervalo entre temporadas com duração máxima de 12 semanas e uma no meio da temporada não podendo ultrapassar um mês. Esse período varia de acordo com os campeonatos locais e é pré definido pelos órgãos nacionais responsáveis, estando a maioria entre Janeiro e Fevereiro e Julho e Agosto.

No Brasil, a primeira janela de 2019 ocorreu entre 10 de Janeiro e 03 de Abril, e a segunda teve início em primeiro de julho e segue aberta até o último dia do mês (31). Em 2018, de acordo com relatório da TMS, o país liderou no número de clubes envolvidos: foram 251 times, seguido pela Alemanha com 141 e Inglaterra com 124. 

É importante frisar que a janela de transferência determina o tempo em que um mercado está disponível para a venda de jogadores, como uma vitrine em exposição. Desta forma, ao buscar um atleta em uma determinada janela, não é necessário que a equipe que irá recebê-lo esteja também com a sua aberta.

 

De um clube ao outro: as modalidades de transações entre equipes

O processo de transferência varia de acordo com a sua vertente. A maior parte das contratações segue uma dinâmica natural: o contrato de um determinado jogador expira e então ele decide junto ao seu empresário se tem ou não interesse em renová-lo, caso o clube tenha demonstrado essa intenção previamente, ou se segue para outra equipe. 

As negociações, nesse caso, são mais simples, já que não envolvem acordos e taxas de rescisão contratual entre clubes, dependendo exclusivamente das propostas recebidas e da decisão do jogador, correspondendo a 65,4% de todas as realizadas em 2018.

As transferências mais comentadas, e também as mais valiosas, embora menos numerosas, ficam por conta das chamadas transações permanentes. Nesta modalidade, grandes acordos são feitos entre clubes que visam um jogador ainda ligado a outra equipe por contrato. Foi o caso da compra de Neymar do Barcelona pelo Paris Saint Germain por 222 milhões de Euros em 2017.

 Essas transações costumam envolver grandes nomes da bola e altas cifras em dinheiro. Entre multas de rescisão, comissões a empresários e representantes, cláusulas de uso de imagem, entre outros fatores, a negociação pode arrastar-se por meses até que tudo seja acordado entre as partes e o jogador possa atuar pelo novo clube.

Outra forma muito comum são os famosos empréstimos. Ao contrário do que o nome supõe, a negociação também envolve custos, embora reduzidos se comparados às demais. Os empréstimos costumam ser feitos por clubes maiores, que cedem seus jogadores mais novos e pouco utilizados para times menores a preços mais baixos. 

Essa prática é muito utilizada na captação de recursos, pois gera renda para quem empresta sem que tenha que abrir mão em definitivo dos direitos do jogador. Além disso, atletas pouco utilizados ganham a oportunidade de atuar em outras ligas e serem melhor aproveitados do que no clube de origem.

Proporção de transferências por tipo e taxas por 100 jogadores [Imagem: GTM 2018/ FIFA TMS]

 

Mercados tradicionais: os 5 maiores da Europa

Não é segredo que o futebol europeu é exemplo de sucesso e desejo no ramo esportivo. Com os maiores e mais ricos clubes do mundo, atuar no velho continente é o sonho da maior parte dos jogadores. É também o mercado mais consolidado nas negociações futebolísticas. Os times da Europa são os que mais gastam com transferências, e consequentemente concentram os maiores craques da bola.

Na janela do inverno Europeu deste ano, a Inglaterra apareceu mais uma vez como o maior mercado global em transações. Os britânicos foram os que mais gastaram, e também os mais ativos em volume de transferências. 

Segundo o relatório Big 5 Winter 2019 da FIFA, os ingleses investiram 178,2 milhões de dólares em jogadores para a Premier League. Foram 155 atletas chegando para a competição e 198 deixando-a só no mês de janeiro. Os criadores do futebol moderno não hesitam em colocar a mão no bolso e seus clubes mais tradicionais como Liverpool, Manchester City e Chelsea têm elencos de peso não só em campo, mas também na conta bancária.

A Itália aparece em seguida com 144,6 milhões de dólares. O número é um salto em relação ao mesmo período do ano passado , quando gastou cerca de 30 milhões e ocupou a última posição dentre os cinco grandes da Europa. Completando o top 5 tem-se ainda a Alemanha, cujo diferencial é o foco em jovens jogadores, com 97% de seus investimentos em jogadores menores de 21 anos, a tradicional Espanha, que teve uma queda em relação ao ano de 2017, e a França, que dobrou os investimentos em relação ao ano passado.

O cenário que possibilita o domínio desses mercados combina tradição e estabilidade econômica. Historicamente, a Europa concentra grande parte do capital mundial, fato que contribuiu para a disponibilidade de investimento pelos países europeus. Além disso, o Futebol do continente, por uma questão cultural e de influência geopolítica, possui a melhor visibilidade dentre os blocos, atraindo talentos de todo o mundo. É um efeito em cascata: a tradição europeia chama talentos, que por sua vez atraem dinheiro, o que possibilita a aquisição de novos talentos, e assim sucessivamente.

Comparativo entre o número de transferências para dentro e fora dos mercados europeus e entre o montante gasto e arrecadado nas transações na janela de transferência do inverno (Janeiro 2019) [Imagem: Big 5 Winter 2019/ FIFA TMS]

 

Mercados em ascensão: atrativos e desvantagens

Mas nem só de Europa vive o futebol, e a participação de mercados alternativos nas janelas de transferências brasileiras dos últimos anos mostra que o ramo da bola está em expansão também em outras regiões. Países como China, Egito e Arábia Saudita investiram pesado no esporte, tornando-se alternativas rentáveis para os atletas.

Entre 2015 e 2016, a China aterrorizou grandes clubes com ofertas milionárias. Tirou Oscar, meia Brasileiro, do Chelsea por 60 milhões de euros; Paulinho, ex-Corinthians, do Tottenham, entre outros nomes de peso que cederam aos milhões oferecidos pelos chineses. Em 2017, entretanto, o país perdeu força depois que a CFA (Associação de Futebol da China) passou a taxar as transações de jogadores internacionais em 100%, desestimulando as contratações pelos clubes do país asiático.

Outros mercados, entretanto, ocuparam o lugar chinês. No ano passado, a Arábia Saudita surgiu forte. No Brasil, a contratação de Fábio Carille, na época no comando do Corinthians, pelo Al Wehda foi destaque por promover a ideia de que os árabes estariam dispostos a pagar caminhões de dinheiro para desenvolver o seu futebol. A expressão “nova china” foi muito utilizada para referir-se à fome de contratações milionárias do país do oriente médio.

Para Rodrigo Capelo, a situação dos mercados em ascensão é explicada pelo grande montante de investimento que estes recebem em um curto espaço de tempo: “Isso é recorrente. Hoje é o Egito que leva jogadores brasileiros, ontem foi a China, também já foi o Japão. Esses mercados passam por momentos de injeção de dinheiro, por exemplo quando clubes são comprados por milionários ou quando há investimento estatal, e seus dirigentes vêm ao Brasil buscar os nossos melhores jogadores” afirmou.

Um aspecto muito discutido sobre essas novas alternativas de destino são suas eventuais desvantagens, já que o retorno financeiro prometido é sempre alto. O que parece pesar mais na decisão dos jogadores é a falta de visibilidade das ligas locais, que poderia atrapalhar na evolução da carreira dos jovens.

Perguntado se esse fator poderia afastar os atletas, Capelo destaca a importância das prioridades: “Depende da ambição pessoal e do nível técnico do jogador. Neymar certamente evitará ao máximo jogar no futebol chinês enquanto estiver em seu auge físico, porque isso acarretaria menos visibilidade, adversários mais fracos etc. Para um jogador ‘bom’, que se destaca no futebol brasileiro, mas não tem mercado na Europa, nem na seleção, isso pesa menos.”, diz o jornalista.

Uma coisa é fato: na Europa, no Brasil ou nos demais continentes, o mercado da bola é, sem dúvidas, um grande movimentador de dinheiro, e sua principal mercadoria é o talento de jovens atletas que brilham nos gramados. Entre jogadores, clubes, empresários e patrocinadores, o futebol sustenta-se do capital humano e ostenta quantias nunca antes vistas por aqueles que lotam as arquibancadas dos estádios, e que acima de tudo, vibram com o show movido por contratos milionários e pés habilidosos.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*