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“O Tempo É Agora”: apesar de tudo, junto ainda é melhor que sozinho
Escuta Aí
14 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

A capa já nos mostra que tudo aqui é mais cinza e, portanto, mais real. Foto: Instagram @oanavitoria

Anavitória cresceu. A dupla do interior do Tocantins, Araguaína para ser mais exata, encontrou o lado B do amor em O Tempo É Agora (2018), álbum sucessor à estreia na indústria fonográfica brasileira. Três anos depois de se mudarem para a maior (e mais implacável) cidade do país, Ana e Vitória deixam para trás o otimismo e a ingenuidade das primeiras músicas escritas ainda na Região Norte e percebem, finalmente, que o amor dói.

As 11 faixas presentes no álbum têm uma maior profundidade temática e sonora, com influências não só de MPB e Pop, mas também de blues. O olhar deslumbrado com a vida dá lugar ao realismo, e às vezes até resignação, de que muitos outros fatores influenciam um relacionamento e existem casos em que o amor não é o bastante.

Essa percepção já aparece na capa, onde são vistas Ana e Vitória com olhares sérios, inquisitivos, em preto e branco e separadas. Quase que o total oposto do álbum anterior, no qual elas aparecem abraçadas, como em um Ying-Yang que se completam, em cores e com olhares serenos. A imagem já nos mostra que tudo aqui é mais cinza e, portanto, mais real.

Ai, Amor abre o disco com abandono e com a quebra de promessas: “Tu jurou minha mão não soltar/ E se foi junto dela”. A letra, então, continua para uma esperança que já nasceu morta, porque o eu lírico (seja Ana ou Vitória) sabe que seu interlocutor não vai voltar, mesmo com todas as suas súplicas. Todo esse caos, colocado em canção de uma maneira calma na voz e melancólica no som, converge no verso mais poderoso da letra: “Ai, amor/ Será que tu divide a dor/ Do teu peito cansado/ Com alguém que não vai te sarar?”.

Outra percepção importante que veio com a maturidade foi a de que o amor é composto de escolhas, não de magia, não de destino. E, de novo, às vezes nem todo o esforço é o bastante. Em Porque Eu Te Amo, isso fica bastante claro: “Eu poderia não viver as tuas primeiras rugas/ Nem estar aqui para adivinhar a tua memória em fuga/ Mas eu não quero/ Eu poderia não lidar/ Eu poderia nem ligar/ Mas eu não quero”. E, se o ouvinte não entendeu, Anavitória fica mais enfática: “Não é acaso, é só amor/ Não existe engano”. Mais um elemento da “maioridade musical” são os substantivos sem verbo no final da canção, algo feito por poucos músicos que conseguem dar um sentido a palavras soltas só com um contexto. Porém, toda essa construção cai de repente com “Tanta coisa em que aqui cabe um sim, mas não”.

A desesperança e a aceitação se acentuam em Cecília, música que talvez mostre a recém-assumida bissexualidade de Ana no longa quase biográfico Ana e Vitória, lançado dia 2 de agosto. A letra expressa o cansaço de alguém que lutou muito por um amor que não deu: “Parece que o tempo todo/ A gente nem percebeu/ Que aqui não dava pé não”. A exaustão de nadar, nadar e morrer na praia, ou seja, se conhecer tanto para se perder – não se sabe como –  no meio de um caminho que ninguém viu, cansa até quem ouve: “Eu te busquei, mas/ Não vi teu rosto não”. Esses versos expressam tantos desencontros e tanto esforço perdido que, quem ouve, se alivia quando percebe que, sim, o relacionamento acabou oficialmente. E finalmente.

Mas por que acaba? Acaba por muitos motivos. Um dos mais bonitos, e, por isso, tristes, é escancarado em Dói Sem Tanto, quando as meninas cantam que são as culpadas pelo fim do relacionamento, diferente de outros términos retratados anteriormente, pelo simples e, ao mesmo tempo, muito complexo e ilógico motivo de que queriam ser livres: “Por que tuas amarras me machucam?”. E continuam com a certeza de que não é menos amor por estar solto: “Não duvide do amor que tenho/ É imenso e diz tanto de mim/ Tuas asas são teu movimento/ Quero as minhas no vento assim”.

Tudo isso culmina no auge do álbum na música que dá nome a ele. Em O Tempo É Agora, as duas meninas, que quando se juntam unem-se em uma, cantam o próprio descobrimento. Com todos esses amores “ganhados” e perdidos, é complicado se enxergar com um ser único e com todas as suas próprias excentricidades. E é aqui que ela(s) toma o tempo para se descobrir: “Já faz um tempo que eu não sabia o que era ser de mim/ (…)/ Todo esse tempo eu nem me conhecia/ Me fiz um outro e nem por que sabia/ Eu me perdi pra me encontrar/ Agora sou e sinto estar”.

Entretanto, apesar de todas essas adversidades, “junto é melhor que sozinho” para Anavitória. Isso se reflete em várias faixas. Na única participação especial do álbum, elas cantam com a banda OutroEu, na música que une seus nomes: Outrória. Nela, o relacionamento da vida real de Ana e Mike Túlio ganha destaque, mostrando que ainda resta, sim, uma centelha de esperança. Esperança esta que deixou de ser ingênua e se transformou em cautela.

A maturidade chegou também no peso da fama. Com o apadrinhamento de Tiago Iorc, o duo rapidamente gravou o primeiro CD, atingiu as rádios, fez shows por todo o país (e até fora) e descobriu o que é viver na estrada. E é sobre isso que Canção de Hotel trata. É solitário estar em um quarto de hotel. Estar em uma cidade desconhecida. Mesmo estando em duas. Aqui, a cidade de São Paulo entra como protagonista na obra. E não só ela. Rio. BH. Recife. Brasília. Manaus. E todas as capitais e cidades grandes que não são Araguaína e que não têm o sentimento de lar que só a nossa casa tem. É nessa solidão que elas se lembram da pessoa amada: “A luz que banha toda a cidade/ Pequena se faz num riso teu/ Nenhuma graça tem outro sotaque/ Nenhum monumento, Coliseu”. Outro aspecto que a dupla coloca na música é o tédio de estar trancada em um quarto, no mínimo, hostil e asséptico enquanto a vida acontece lá fora: “Eu olho as vitrines/ Os alarmes/ Reviro o cabide/ E a TV”. Além disso, ainda é possível perceber a mesma referência a Mike Túlio, mesmo que bem mais sutil: “No rádio tudo soa tão estranho/ Te escuto na voz de algum qualquer/ Saudade parece não ter tamanho/ O mundo sem ti, nem vi, nem é”.

E, para finalizar, tanto o álbum quanto esta resenha, temos Se Tudo Acaba. Para equalizar o tom esperançoso e melancólico que permeia todas as faixas, Anavitória cantam o amor e a efemeridade dele. Com isso, elas chegam na conclusão de “por que esperar e não arriscar se tudo, no fim, acaba?”: “Quanto é tempo/ Se tudo acaba, amor?/ Preciso de você aqui/ O que é o tempo/ Se tudo acaba?”. A lição que fica de O Tempo É Agora é que o amor é tão real quanto qualquer situação da vida que requer esforço e que dá errado apesar das tentativas, da boa vontade e do próprio sentimento.

Por Maria Carolina Soares
mcarolinasoares@uol.com.br

 

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