Por Fernando Silvestre (fernando.silvestre@usp.br), Manuela Trafane (manutraf@usp.br) e Marcella Zwicker (marcellazwicker@usp.br)
No dia 7 de maio deu-se início ao conclave, processo de escolha do novo representante da Igreja Católica. Em dois dias, os 133 cardeais participantes da votação chegaram em um consenso sobre o novo Papa: Robert Prevost.
Sucessor do Papa Francisco, o estadunidense optou pelo nome Leão XIV em homenagem a Leão XIII, pontífice entre 1878 e 1903 que defendeu direitos trabalhistas. Prevost tem 69 anos e é o 267º Papa da Igreja Católica.
Do enterro à fumaça branca

O Conclave começou depois dos ritos fúnebres para honrar o Papa Francisco, primeiro pontífice latino americano que ficou quase 12 anos no cargo. O papado do Argentino foi marcado por uma série de ações progressistas, como a permissão de bênção a casais homossexuais e discursos políticos contra a guerra e a favor da defesa dos direitos dos refugiados. Após seu enterro na Basílica de Santa Maria Maggiore, foram declarados nove dias de luto — de 26 de abril a 4 de maio — chamados novendialis.
José Roberto Abreu de Mattos, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), explicou em entrevista à Jornalismo Júnior que, durante os dias pré-conclave, os cardeais são incentivados a participarem de debates chamados plenárias, “os momentos em que os cardeais se encontram para discutir sobre problemas atuais no mundo”. Ele complementa dizendo que o fato de serem 133 cardeais de todo o planeta significa que não se conhecem muito bem, em especial porque Francisco não concentrou sua nomeação de cardeais na Europa.
A votação iniciou no dia 7 de maio, depois de uma missa matinal na Basílica de São Pedro, quando todos os 133 se reuniram na Capela Sistina. A palavra “conclave” vem do latim “com chave”, significado que se relaciona com o tom secreto do evento. O processo é extremamente privado, sem a permissão de câmeras em quase todo seu desenrolar. Uma das únicas partes filmadas é a entrada dos cardeais ao santuário, vestindo batinas vermelhas. A cor carmim representa o sangue de Cristo e honra sua imagem ao público cristão.

Durante a tarde houve a primeira votação. Foram entregues papéis para voto com a inscrição “Eligo in Summum Pontificem” (em tradução livre para o português, “Eu elejo como pontífice supremo”) a todos os cardeais. Para a eleição de um novo líder, o candidato deve ter dois terços dos votos (89), o que não ocorreu a princípio, por isso saiu pela chaminé da capela uma fumaça preta.
Após menos de dois dias, Robert Prevost foi escolhido no quarto voto. Dessa vez, fumaça branca foi expelida da chaminé. Ela avisava ao mundo que havia um novo papa, ou melhor, anunciava “Habemus Papam”. Robert, agora Leão XIV, se dirigiu à Sala das Lágrimas, na qual se preparou para sua primeira aparição pública no novo cargo.
Previsões e decisão
Prevost não era considerado um dos favoritos para o papel pela maior parte da mídia. Para isso, o professor José Roberto diz: “Tem aquele ditado, quem entra papa sai cardeal”. Cecília de O. Freitas, jornalista que cobriu o conclave no Vaticano, afirmou à Jornalismo Júnior que, em Roma, as expectativas estavam em torno dos cardeais italianos. Segundo ela, a mídia local tinha Matteo Maria Zuppi como aposta. “Robert Prevost foi uma surpresa”, diz.
Já as expectativas do público geral, de acordo com Cecília, eram mistas: os estrangeiros na cidade esperavam papas de suas nacionalidades. “Brasileiros esperavam um Papa brasileiro, mesmo que não fosse muito cotado”, afirma. Apesar disso, a imagem do novo Papa foi bem recebida em Roma e Robert Prevost já ganhou camisetas, imãs de geladeira, chaveiros e canecas com seu rosto.
Um nome, uma proposta

Após especulações acerca do nome adotado, o novo líder católico confirmou no dia 10 de maio que a decisão é uma homenagem ao Papa Leão XIII, em uma reunião com os cardeais no Vaticano.
O homenageado ficou marcado na história da Igreja Católica por seu posicionamento em questões trabalhistas durante a Primeira Revolução Industrial. Também é o fundador da Doutrina Social da Igreja (DSI), um conjunto de normas e ensinamentos focados em produzir justiça para combater problemas sociopolíticos.
Leão XIV, durante a primeira entrevista coletiva, tratou sobre as questões atuais relacionadas ao trabalho, como o surgimento da Inteligência Artificial (IA). O pontífice alertou sobre os riscos associados à IA e defendeu o uso consciente da tecnologia para evitar o ódio e o fanatismo. Além disso, o Papa falou sobre o destaque dos jornalistas como mediadores de conflitos e apuradores da verdade. Também pediu pela liberdade de imprensa e a libertação de jornalistas presos.
“O sofrimento desses jornalistas presos interpela a consciência das nações e da comunidade internacional. Só os povos bem informados podem fazer escolhas livres.”
Papa Leão XIV, durante primeira coletiva de imprensa
Com o novo pontificado, apareceram antigas falas e surgiram declarações do novo Papa sobre questões sociais e políticas. Por exemplo, segundo Papa Leão XIV, a ordenação de mulheres, ou seja, dar cargos clericais às mulheres, não resolveria os problemas da instituição. Por outro lado, o pontíficie já disse ser contra a pena de morte e a política anti-imigração de Donald Trump, presidente dos EUA.
Enquanto cardeal, após a repercussão da morte de George Floyd, demonstrou solidariedade ao caso, em uma postagem no X, pondo-se a par na luta contra o racismo. No encontro com diplomatas no dia 16 de maio, Leão XIV afirmou que o casamento entre homem e mulher é um fundamento da família, além de reafirmar a posição da Igreja contra o aborto.
Prevost é um seguidor da Ordem de Santo Agostinho. A organização surgiu na Idade Média compondo uma das ordens mendicantes, que tem como objetivo o cuidado com a pobreza e se opondo às ordens monásticas. Seus membros são chamados de agostinianos ou de agostinhos. Ela tem como missão a educação e outras causas sociais. A ordem mendicante também conta como princípio o enfrentamento de problemas da sociedade como um todo.

Quem foi Leão XIV antes do pontificado?
Robert Prevost nasceu nos Estados Unidos, no dia 14 de setembro de 1955. E cresceu em meio aos livros: seu pai era professor e sua mãe, bibliotecária. Em um país de maioria protestante, ele encontrou a fé católica no berço, devido à sua criação com raízes espanholas, italianas e francesas.
Leão XVI cresceu em um subúrbio ao sul de Chicago, Illinois (EUA) e iniciou seus estudos religiosos no Seminário Menor dos Padres Agostinianos. Cursou Matemática e Filosofia na Universidade Villanova, na Pensilvânia. Fez mestrado e doutorado em teologia pela União Católica de Chicago e conquistou o título de sacerdote em 1982. Em seguida, mudou-se para Roma, onde estudou direito canônico no Pontifício Colégio de Santo Tomás de Aquino.
Durante o processo de seu doutorado, ele foi enviado para uma missão em Piura, Peru (1985-1986). Após isso, voltou à Illinois e foi nomeado para um cargo de diretoria da Província Agostiniana.
Robert retorna ao Peru em 1988 e se mantém em cargos administrativos da comunidade católica por 11 anos, quando aprendeu a falar espanhol. Devido a sua importância no local, conquistou a cidadania do país. Tornou-se bispo no fim de 2014 e arcebispo em janeiro de 2023, nomeado pelo Papa Francisco. Prevost é ordenado cardeal de Santa Mônica no mesmo ano.
No mesmo ano ele enfrentou acusações de omissão frente a casos de abuso sexual na Igreja. Segundo as três mulheres que denunciaram os casos, Robert Prevost teria omitido assédios cometidos quando ainda eram crianças por dois padres no Peru. A região administrativa em que ele ficava afirmou que o então bispo encaminhou o caso ao Vaticano. O caso permanece aberto no Vaticano.
[Imagem de capa: Narcin Mazur/cbcew.org.uk/ Fotos Públicas]





