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Netflix: ‘Perdi meu corpo’, metáfora do destino contada por uma mão decepada
CINÉFILOS
24 set 2020 | Por Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br)

Perdi meu Corpo (J’ai Perdu Mon Corps, 2019) seria só mais um filme sobre destino e questionamentos existenciais se não fosse pela originalidade: uma mão decepada em uma jornada tortuosa em busca de seu corpo. Essa é a premissa inusitada da animação francesa dirigida por Jérémy Clapin, cuja história é baseada no livro Happy Hand (2006) de Guillaume Laurant, roteirista de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2002). Junto a Clapin, ele co-escreveu este longa, um quebra-cabeça que mantém os espectadores curiosos a todo o tempo. 

Essa animação não é simplesmente uma história sobre uma mão cortada. É mais sobre o resto do corpo e toda a vida que ele carrega. Entra aí a figura de Naoufel, um jovem entregador de pizzas que se vê em duas realidades discrepantes: uma incômoda e violenta, marcada por um ambiente não familiar — a princípio inescapável —, e outra, feita de lembranças de um passado vivo, cheio de sons e sensações daquilo que poderia ter sido sua vida, mas não foi. 

 

Os flashbacks da infância de Naoufel vão costurando a história em Perdi Meu Corpo. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Os flashbacks da infância de Naoufel vão costurando a história em Perdi Meu Corpo. [Imagem: Reprodução/Netflix]

O corpo dele é marcado pelas perdas, e a mão é uma delas. Só que nada disso é entregue de cara ao espectador. Enquanto a mão decepada crava suas tentativas de retornar ao corpo de Naoufel, as peças do mosaico vão aos poucos se juntando em uma sequência de flashbacks sensíveis que rememoram sua infância e as experiências sensoriais da mão.

Pequena em relação ao mundo, mas ágil (e por vezes cruel) nas respostas, a mão que foi dilacerada luta por sua sobrevivência. É de sua perspectiva que somos convidados a ver. Em uma cidade hostil — Paris crua, sem Torre Eiffel e sem romances que dão certo logo de primeira — a mão perambula entre metrôs, arranha-céus e a vida privada nos apartamentos para voltar ao seu corpo. 

 

Alguns recortes inusitados do filme mostram uma beleza possível na caótica vida urbana.  [Imagem: Reprodução/Netflix]

Alguns recortes inusitados do filme mostram uma beleza possível na caótica vida urbana.  [Imagem: Reprodução/Netflix]

Isso faz Perdi o Meu Corpo ser uma experiência diferenciada, já que a maioria das aflições e simpatias podem despender da defesa desse personagem munido apenas de cinco dedos extremamente ativos. É na coragem dos saltos e na determinação em se arriscar a todo instante que a mão deixa qualquer um muito instigado: por que essa vontade de voltar ao corpo? Ou como aconteceu essa separação dramática? 

Ao acompanhar a vida de Naoufel, definitivamente menos cativante do que a saga da mão solitária, essas questões vão sendo pinceladas nos poucos, porém densos, diálogos que contrastam a mudez do membro decepado. Em uma dessas conversas despretensiosas desenrola-se um romance com a intrigante bibliotecária Gabrielle — premissa dessa vez não tanto inusitada — que muda os rumos da vida do entregador.

 

 Nessa trama que tem foco nas percepções de Naoufel, a personagem Gabrielle não é profundamente desenvolvida. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Nessa trama que tem foco nas percepções de Naoufel, a personagem Gabrielle não é profundamente desenvolvida. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Os pequenos detalhes das palavras vão mostrando os conflitos existenciais de Naoufel e Gabrielle, permitindo ao espectador montar o quebra-cabeça do filme. Mas muito além das palavras, a obra se destaca pelos sons aos quais dá atenção. O campo dos pequenos barulhos, como a sutileza do esfregar das mãos nos ouvidos, é tão bem explorado quanto sua trilha sonora.

Com essas nuances e narrativas intercaladas, a trajetória conturbada da mão, os flashbacks do passado, e a vida de Naoufel, o longa dispensa classificação em algum gênero. São todos e ao mesmo tempo nenhum. É um filme sobre a vida com uma perspectiva surreal e filosófica proporcionada só mesmo pela liberdade de uma animação.

As expectativas do reencontro da mão foram cumpridas? Existe o acaso? É possível driblá-lo? O ápice desses questionamentos chega na cena final, quando Perdi Meu Corpo deixa sua marca como uma bonita metáfora do destino. Em uma hora e vinte de filme, quem se dedica a assistir à obra ficará surpreso com o quanto uma mão pode dizer. Ou com o quanto de perguntas ela pode evocar.

O longa já está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/Netflix

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
Gabriel
Adorei a crítica, você escreve muito bem! Continue assim, Sarah!
09 out 2020
 
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