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Resenha: “Scorpion” – Drake
Escuta Aí
17 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

Lançado na última sexta do mês de junho, o quinto álbum do rapper Drake, “Scorpion”, quebrou recordes nas plataformas de streaming: na Apple Music, foi ouvindo 170 milhões de vezes em 24 horas; no Spotify, 132 milhões. Esse sucesso estrondoso, que já acompanha o canadense há algum tempo, gera um questionamento interessante: o novo álbum é realmente bom ou é apenas o público se alimentando do hype de Drake?

Esse hype pôde se confirmar no próprio Spotify, através de um marketing intenso feito pelo serviço de streaming. Além de estar em destaque em seu próprio álbum, Drake se tornou a capa das playlists feitas pela plataforma, mesmo quando não se encaixava no gênero musical da lista. Isso suscitou um debate muito interessante sobre propagandas, gerando polêmica entre os usuários que pagam mensalidade.

Outra polêmica também permeou a produção do novo lançamento. O cantor Pusha T. atiçou Drake através da  diss track (música com o intuito de insultar um outro artista, comum no rap) The Story of Adidon, motivada pela recente notícia de que Drake teria um filho não assumido com uma ex-atriz pornô. Em uma de suas rimas, ele diz “I wasn’t hiding my kid from the world/I was hiding the world from my kid” (Eu não estava escondendo meu filho do mundo/Eu estava escondendo o mundo do meu filho). Sem dúvidas, o disco foi profundamente afetado, nos levando à seguinte pergunta: teria o canadense feito um álbum tão pessoal e confessional, se Pusha T. não tivesse denunciado suas ações?

Acima de tudo isso, é preciso apreciar o bom trabalho feito pelo rapper. Sua fortuna equivale ao PIB de um país de pequeno porte e sua influência na cena de rap mundial é inegável. No entanto, esse mesmo reconhecimento, conquistado com muito trabalho duro, às vezes, leva a uma zona de conforto. Produzir músicas com batidas e temas parecidos a fim de manter o status é uma das falhas do “Scorpion”, que parece se apoiar em  temáticas já consagradas para garantir a “fórmula do sucesso”.

Uma dessas temáticas são os relacionamentos em tempos de redes sociais. Em Emotionless, os versos “Scrolling through life and fishing for praise/Opinions from total strangers take me out of my ways” (Rolando pela vida e pescando por louvor/Opiniões de estranhos completos me tiram dos meus caminhos) revelam a influência dos comentários dos internautas no psicológico do artista. Ainda nessa mesma música, Drake faz uma crítica às pessoas que não vivem os momentos em sua amplitude por estarem preocupadas com a repercussão nas mídias, “I know a girl who’s one goal was to visit Rome/ Then she finally got to Rome and all she did was post pictures for people at home/ ‘Cause all that mattered was impressin’ everybody she’s known” (Eu conheço uma garota que a meta era visitar Roma/ Aí ela finalmente foi para Roma e tudo que ela fez foi postar fotos para as pessoas em casa/ Porque tudo que importava era impressionar as pessoas que ela conhecia). O vocal de Mariah Carey é um bônus da música que contribui para que esta seja uma das melhores músicas do CD.

O canadense também fala muito de sua trajetória de vida, dividindo-se em dois eixos: o orgulho e o cansaço somado aos desafios. Esse primeiro é evidenciado em Elevate, “I stay busy working on me, homie/ I stay busy with my business, homie” (Eu fico ocupado trabalhando em mim mesmo, mano/ Eu fico ocupado com meu negócio, mano). Também se percebe essa narrativa em Can’t Take a Joke, quando o rapper diz “You know when it comes to pride, I can’t put that shit aside/ I’ve been kicked when I was down, none of that shit matter now” (Você sabe que quando o assunto é orgulho, eu não consigo colocar essa merda de lado/ Eu fui chutado quando eu estava em baixo, nada dessa merda importa agora).

Por outro lado, o cansaço e os desafios da fama apresentam-se nos versos de Is There More?, “Am I missin’ something that’s more importante to find?/ Like healin’ my soul, like family time?/ Is there more to life than just when I’m feelin’ alive?” (Eu estou perdendo algo que é mais importante para encontrar?/  Como curar a minha alma, como tempo em família/ Existe mais da vida do que apenas quando eu estou me sentindo vivo?). Em God’s Plan, Drake rima sobre as coisas ruins que estão desejando para ele, porém isso não o abala, pois ele continua seguindo os planos de Deus. O single, lançado antes do álbum, é um dos destaques, pois inova a abordagem do rap acerca dos haters.

Imagem: Divulgação

“Scorpion” traz de volta uma tendência do rap: o disco duplo. O primeiro foi feito em 1988 e desde então, rappers consagrados contam com essa ferramenta para poderem se expressar de maneiras diferentes em uma só produção. Segundo o consagrado portal DJ Booth, “essa é a chance de Drake de fazer o que muitas lendas fizeram antes dele. Entrar em suas categorias é colocar outro troféu em seu manto”.

Assim, no lado B de “Scorpion”, o R&B toma seu espaço, revelando um novo eu artístico do cantor, diferenciando-se do A, tomado pelo rap. Também nessa segunda parte do álbum, temos a música mais marcante, March 14. Após a polêmica de Pusha T., a última faixa assume um tom intimista, que beira o confessional. “She not my lover like Billy Jean but the kid is mine” (Ela não é minha amante como Billy Jean mas a criança é minha).

Nela, o rapper fala sobre sua própria infância, “I wanted it to be different ‘cause I’ve been through it” (Eu queria que isso fosse diferente porque eu passei por isso). Ele também lamenta acerca de suas próprias atitudes, por ter se tornado aquilo que tanto criticou: “I used to challenge my parents on every album/ Now I’m embarrassed to tell them I ended up as a co-parent” (Eu costumava desafiar meus pais em todo álbum/ Agora estou envergonha de dizer que acabei como um co-pai).

Em Summer Games, a batida causa um impacto por ser diferente de todas as outras do álbum e por relembrar Hotline Bling, até mesmo na letra, que assim como Emotionless, fala sobre redes sociais e relacionamentos. Porém, diferentemente do sucesso de 2016, o ritmo da segunda canção do lado B não mantém o mesmo flow e acaba se assemelhando a uma remixagem mal feita.  

Jaded, por sua vez, é uma das músicas mais lentas, que retratam a vida amorosa problemática do rapper. Sua batida remete o ouvinte experiente a Come and see me, ambas revelando um lado mais triste e emotivo do canadense. As rimas, aqui, não são o foco e a música se desenvolve quase como um diálogo, ainda mais pelo ritmo lento.

Em Don’t matter to me, a voz de Michael Jackson aparece, o que enfatiza ainda mais a relevância de Drake para a cultura musical da contemporaneidade: a possibilidade de revelar uma faixa com a participação do Rei do Pop, falecido há nove anos. Ainda sobre as participações, Jay-Z – outro nome de peso na cena do rap internacional – marca sua presença em Talk Up, enquanto Static Major e Ty Dolla $ign participam de After Dark.

Pode-se concluir, portanto, que Drake faz um bom trabalho em “Scorpion”, mas que peca ao repetir as temáticas e beats que funcionaram em épocas passadas. As 25 músicas, apesar de contribuírem para um maior repertório, saturam em um certo ponto, evidenciando que um álbum mais enxuto definitivamente seria mais cativante.

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

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