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Sócrates e Raí: de Ribeirão Preto para o mundo

A HISTÓRIA DOS IRMÃOS QUE MARCARAM O FUTEBOL BRASILEIRO

ARQUIBANCADA
10 maio 2021 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

A família Vieira de Oliveira é predestinada ao futebol. Não só um integrante teve a sorte e a capacidade de tornar-se um craque, mas dois conseguiram atingir tal ápice. Os irmãos Sócrates e Raí tornaram-se ídolos do futebol brasileiro, com incríveis habilidades técnicas e mentais.

Curiosamente, a carreira dos irmãos tem uma série de semelhanças e comparações. O começo ribeirão-pretense, a ida para a capital paulista, as dificuldades na seleção brasileira e, até mesmo, uma aptidão à participação sociopolítica são alguns dos pontos comparáveis entre as trajetórias.

 

O início de tudo

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou Sócrates, é o primogênito de seu Raimundo e dona Guiomar e foi assim nomeado, pois o pai era um ávido leitor de filosofia. Nascido na capital paraense, Belém, em 1954, Sócrates mudou-se com a família para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Até 1965, nasceram mais cinco filhos, sendo que o caçula, chamado Raí Souza Vieira de Oliveira, seguiria os passos do irmão mais velho.

Foi no Botafogo de Ribeirão Preto que os irmãos começaram a demonstrar seu talento. Todavia, Sócrates dividia suas atenções entre o futebol e a faculdade de medicina. Segundo Breiller Pires, comentarista da ESPN Brasil e editor-chefe no The Players Tribune Brasil, os pais eram preocupados com o futuro do filho: “Naquela época, o futebol não dava muito dinheiro, (…) então muitos jogadores também encerravam cedo a carreira e não conseguiam fazer um pé de meia para o resto da vida”. 

Os dirigentes dos clubes grandes sabiam que só iriam conseguir contratar o Doutor, apelido de Sócrates, após o término do curso. Profissionalizando-se em 1973, além das aulas e dos jogos, convivia com seu vício em bebida, declarando que seu salário era para pagar gasolina e cerveja.

É considerado um dos grandes ídolos do clube, com 269 partidas jogadas e 101 gols marcados. Conquistou a Taça Cidade de São Paulo, em 1977, e foi artilheiro do Paulistão no ano seguinte. Com isso, já encantava a opinião pública, que pedia sua convocação para a seleção brasileira – o que só ocorreu após a saída do Fogão, no ano de 1978. 

Sócrates antes de jogo pelo Botafogo-SP [Imagem: Divulgação/Gazeta Press]

Seis anos depois, os Vieira de Oliveira emplacaram o segundo integrante no Botafogo: Raí estreou pelo clube do interior em 1984, após um período de testes. No começo desses treinos, inclusive, ele escondeu o parentesco com Sócrates, para evitar uma grande pressão em seu início de carreira, como dito em entrevista ao globoesporte.com.

Diferentemente de seu irmão, o rendimento em campo trouxe sua convocação para a seleção brasileira, para disputa da Copa América de 1987. Ele foi o segundo jogador na história do Fogão a ser convocado, atrás somente de Zé Mário.

Contudo, uma questão que pode ter atrapalhado seu protagonismo regional e nacionalmente era a dificuldade de encontrar sua posição. Para Felipe Lobo, colaborador do site e podcast Trivela, essa indecisão acompanhou-o posteriormente: “Ninguém sabia exatamente qual a posição que ele renderia mais, ele chegou a ser atacante, chegou a ser ponta até no Botafogo, no começo”.

Apesar da importância histórica na equipe, não teve um contingente de partidas e gols como de seu irmão: foram 38 aparições oficiais e dez gols marcados por Raí no clube até 1987, com uma interrupção pelo empréstimo à Ponte Preta, durante o Campeonato Brasileiro de 1986.

 

Idolatria em rivais paulistas

As coincidências aqui continuam. Dois clubes paulistas interessaram-se pelos irmãos, com diferentes tomadas de decisão. Sócrates estava praticamente acertado com o São Paulo até Vicente Matheus, presidente folclórico do Corinthians, atravessar o negócio e levá-lo ao Alvinegro. O inverso aconteceu com Raí, que teve o interesse corintiano após fazer três gols contra a equipe, mas que seguiu as cores do antigo clube, indo para o Tricolor Paulista. 

Além disso, o estilo de jogo que os fizeram ser idolatrados depois estava pautado nas alternativas ao tamanho dos dois. A altura – Sócrates e Raí possuíam mais de um metro e noventa – tornava-os um pouco desengonçados, o que fez com que o mais velho desenvolvesse o toque de calcanhar, marca registrada do jogador, e  o caçula se transformasse em um exímio artilheiro.

Tanto Breiller quanto Lobo apontam esses tópicos como essenciais para o desenvolvimento das carreiras. O primeiro destaca que o calcanhar e o estilo meio-campo cerebral de Sócrates “era uma maneira dele acelerar o jogo, com passadas largas, sem perder tempo ali por causa da sua relativa falta de desenvoltura”. Já o segundo, demonstra que Raí foi um dos últimos pontas de lança brasileiros: “Se a gente fosse falar de estilo, se fosse classificar, acho que ele está mais perto de ser um atacante que um armador”.

A chegada de Sócrates ao Timão ocorreu em um momento de enorme pressão da torcida. Esperava-se que a conquista do Paulista de 1977, que trouxe um título ao clube após 23 anos, não fosse um ponto fora da curva. Porém, logo o jogador conseguiu demonstrar seu incrível talento, o que lhe rendeu o início das convocações para a seleção. 

Todo esse talento do Doutor fez com que a equipe corintiana conquistasse três títulos paulistas. No primeiro, em 1979, fez uma incrível dupla com Palhinha. Em 1982 e 1983, conquistou um bicampeonato, justamente em cima do São Paulo. No Corinthians, entre 1978 e 1984, Sócrates fez 297 jogos e marcou 172 gols, a maioria deles com sua comemoração clássica, erguendo o punho direito como os Panteras Negras.

Apesar do incrível talento do jogador, talvez o que tenha tornado Sócrates ainda mais conhecido foi a participação sociopolítica no país, principalmente contra a ditadura militar. Uma das memórias mais marcantes quando criança foi seu pai queimando livros que poderiam ser considerados subversivos ao regime. Esse foi apenas um dos fatores que o tornou politizado.

“Ter feito faculdade, ter vindo de uma família ligeiramente militante e ter chegado em São Paulo num momento muito crucial, em que essas demandas pela redemocratização estavam se iniciando, fez com que ele se tornasse um jogador ativista”, explica Breiller sobre as facetas que o tornaram engajado.

Sem dúvidas, a maior manifestação dessa luta foi a conhecida Democracia Corinthiana, que teve suas atividades entre 1982 e 1985. Junto com Walter Casagrande e Wladimir, mentores em campo, além de Adilson Monteiro Alves, sociólogo e diretor de futebol, esse foi um movimento que buscava a participação de todos os funcionários em qualquer temática. Roupeiro, jogadores, técnico e presidente, todos tinham o mesmo peso nas discussões dentro e fora de campo.

Isso em um momento em que o país vivia um período de repressão intensa. O comentarista da ESPN explicita a importância do posicionamento de Sócrates: “Ele entendia o papel do jogador de futebol como um ator político, que tinha consciência política e precisava manifestá-la”. Ainda completa que é difícil encontrar jogadores engajados hoje: “Você ter um jogador com a visibilidade dele, com esse status de craque, se manifestando politicamente, é realmente uma dimensão única”.

Uma das principais manifestações corintianas foi pela participação nas votações estaduais de 1982 [Imagem: J.B.Scalco/Reprodução]

Passando para a carreira do caçula no clube do Morumbi, sua chegada, em 1987, teve certa desconfiança. A pressão por ser irmão de Sócrates, aliada à dificuldade de achar sua posição e ao modo de jogo que o treinador Cilinho impunha ao São Paulo, fez com que ele fosse tachado de lento e pouco participativo, mesmo com o título do Paulistão de 1989.

Após um Campeonato Paulista pífio em 1990, a diretoria tricolor decidiu contratar aquele que mudaria a história do clube e a de Raí: Telê Santana. Com o novo técnico, o jogador começou a demonstrar o porquê de tamanha expectativa em torno dele. 

De acordo com Felipe Lobo, foi Telê quem achou a melhor posição do craque: “Teve uma questão pessoal de evolução dele, de encontrar um lugar melhor em campo, e teve também uma mudança na forma em que o técnico via em como utilizar o Raí”. Ainda acrescenta o papel do treinador para a evolução das finalizações: “Esse é um aspecto que só o Telê descobriu nele, porque o Raí não era um jogador de muitos gols.(…) No começo, somados Botafogo, Ponte Preta e os três primeiros anos de São Paulo, ele tinha 26 gols”.

A partir desse ponto, a dupla trouxe uma série de títulos para o São Paulo. Liderando em campo, o camisa 10 tornou-se capitão. Ganhou o Campeonato Paulista e o Brasileiro de 1991, sendo artilheiro do primeiro. Além desses dois títulos, os mais marcantes dessa passagem foram as conquistas da Libertadores da América, nos anos de 1992 e 1993, e o Mundial de Clubes, em 1992.

Nessas competições internacionais, Raí mostrou o porquê de tamanho status. Em 1992, contra os argentinos do Newell’s Old Boys, no jogo de volta, fez o gol do 1 a 0 que levou a decisão para a disputa de pênaltis, e consagrou a equipe como campeã da América. No ano seguinte, desta vez contra os chilenos da Universidad Católica, fez um dos gols da goleada por 5 a 1 no jogo de ida, que praticamente decretou o bicampeonato são paulino.

Mas foi contra o Barcelona, na final do Mundial, que o caçula fez uma de suas melhores atuações. O time de Guardiola, Laudrup, Stoichkov, comandados por Johan Cruyff, não foi páreo para o esquadrão brasileiro. Com dois gols de Raí, um de barriga e um após cobrança de falta magistral, a partida terminou em 2 a 1 e o São Paulo conquistava o mundo pela primeira vez.

A trajetória do gol que fez o São Paulo campeão mundial [Imagem: Hugo Gallo Mantellato/Reprodução]

“O gol que o Raí fez e uma atuação como a que ele teve chamaram muito a atenção, e ele ganhou visibilidade internacional. Acho que dá pra considerar que ali, talvez o começo de 93, tenham sido o auge”, aponta Lobo, demonstrando a importância desse jogo para a continuidade da carreira do jogador.

 

Aventuras no velho continente

A partir daqui, há grandes diferenças nas carreiras. Na Itália, o primogênito não conseguiu praticar o futebol fino que o fez ser idolatrado. Por sua vez, na França, o mais novo conseguiu apresentar o que o tornou reconhecido, elevando o patamar de sua equipe.

Em 1984, Sócrates deixou o Brasil rumo à Fiorentina, equipe italiana tradicional. Essa ida para a Europa não era almejada, mas um conjunto de fatores o fez tomar essa decisão. O fator político foi o principal: ele prometeu que, caso a Emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para presidente, fosse aprovada, ele se manteria no Corinthians – isso não aconteceu, decepcionando-o e contribuindo para sua ida para a Europa.

Breiller aponta também outros fatores que motivaram essa transferência: “Além da emenda não ter sido aprovada, ele começou a ter um descontentamento com o Corinthians, o casamento não ia bem, a vida pessoal estava meio desajustada. Sócrates então resolve ir pra Itália, recebendo uma proposta financeira também muito boa também”.

Apesar de muita expectativa em sua chegada, sobretudo para igualar forças à Roma, de Falcão, a temporada 1984/85 do Doutor não foi como o esperado. A dificuldade em adaptar-se aos treinamentos mais pesados, as constantes festas, as críticas da imprensa e a ida a contragosto ao clube fizeram com que ele tivesse um desempenho abaixo do previsto. Em Florença, fez 25 jogos e marcou seis gols, amargando um nono lugar na Série A.

Por outro lado, Raí conseguiu manter o alto nível de suas atuações em solo francês. Após vencer a Libertadores de 1993, foi para o Paris Saint-Germain e fez com que o clube tivesse um protagonismo em grau local e, principalmente, europeu. “O time do Raí ajudou a dar esse passo além, que é brigar na Champions e ser um time importante na competição, até conquistar um título europeu”, diz Felipe Lobo, explicitando a importância da ida do jogador à equipe.

No período em que ficou no PSG, Raí conquistou o Campeonato Francês de 93/94 e as Copas da Liga e da França das temporadas de 94/95 e 97/98. Foi também campeão, pela primeira e única vez, de um campeonato da Europa: ao vencer o Rapid Viena, conquistou a Recopa Europeia de 95/96. Além disso, uma das principais campanhas em nível internacional deu-se pela liderança do caçula. Na edição 94/95, chegou às semifinais da Champions League, perdendo para o Milan, um dos grandes clubes da época e que viria a ser campeão.

Um aspecto importante a ser destacado é que a construção desse time, ao lado de Leonardo e George Weah, aconteceu pelo investimento do Canal Plus, principal marca de televisão do país. Por isso, Felipe Lobo destaca como a personalidade de Raí auxiliou em sua imagem: “Ele dava entrevistas muito boas, e se a gente pensar que o time era comandado por uma empresa de TV, ter alguém que aprendeu a língua e se expressava bem em francês, isso era muito importante, digamos, em termos midiáticos”.

Dessa forma, com 215 jogos disputados até 1998, o jogador marcou 72 gols e entrou para  a história parisiense, sendo considerado o maior jogador brasileiro que atuou na França. Até hoje, o clube busca, por meio de contratações milionárias, conseguir o protagonismo e as atuações europeias que aquele grupo alcançou.

 

Seleção brasileira: dificuldades e decepções 

Pela amarelinha os parentes tiveram marcas diferentes em suas carreiras, principalmente em Copas do Mundo. Sócrates teve papel de destaque nas equipes de 1982 e 1986, sendo capitão da seleção considerada a mais técnica da história, mas que não conquistou o campeonato. Raí, no entanto, teve uma atuação discreta no Mundial de 1994, em uma equipe que não agradou a opinião pública, mas que conquistou o caneco. 

O mais velho sempre demonstrou que jogar na seleção era um sonho. Esse foi, inclusive, um dos fatores para ele trocar o interior pela capital paulista, pois sabia que ali teria mais oportunidades de ser convocado. Nas eliminatórias para a Copa de 1982, o esquadrão comandado por Telê Santana (outra coincidência na carreira dos irmãos) já demonstrava a tremenda qualidade de jogo. Sócrates, Zico, Falcão e Toninho Cerezo formavam o meio-campo dos sonhos.

Na estreia na Espanha, Sócrates fez um golaço que empatou o jogo contra a União Soviética, abrindo caminho para a virada. Após uma primeira fase demonstrando a superioridade da equipe, aconteceu a tragédia do Sarriá. O gol do Doutor não foi suficiente para a derrota da equipe contra a Itália, nas quartas de final, por 3 a 2. Esse esquadrão não ser campeão é considerado, por muitos, a maior injustiça das Copas.

E essa foi uma das maiores decepções de Sócrates, justamente por esse sonho em defender a seleção. Breiller aponta que o jogador estava extremamente regrado para a competição: “Ele nunca tinha sido um atleta dedicado, ele se sobressaia pelo seu talento. Mas, para a Copa do Mundo de 82, para alcançar este objetivo, ele se preparou como nunca. Conseguiu deixar de beber por um tempo, ou, pelo menos, evitava virar noites em claro, para chegar na Copa em grande condição física, como ele chegou”.

O gol de Sócrates não foi suficiente para impedir a derrota para a Itália [Imagem: Reprodução/FIFA]

Na Copa de 86, Telê deu mais uma chance para o Magrão, mesmo estando já na descendência da carreira. Por ser no México, havia a esperança de que o desempenho campeão de 1970 se repetisse. O Brasil, revivendo o trio Zico-Sócrates-Falcão, teve resultados bons, apesar de atuações não tão convincentes. No entanto, novamente nas quartas de final, desta vez contra a França, a equipe foi eliminada nos pênaltis, com Sócrates desperdiçando uma das cobranças. 

Essa foi a última partida do jogador com a canarinha, completando uma trajetória brilhante que não teve um título para coroá-la. Foram 63 partidas disputadas, com 25 tentos marcados.

Como dito antes, Raí conseguiu ser convocado ainda como jogador do Botafogo de Ribeirão Preto, no ano de 1987. Porém, sua primeira e única Copa do Mundo foi acontecer somente em 1994, já como principal jogador do PSG.

Nas eliminatórias para os Estados Unidos, a seleção passou por uma dificuldade muito grande em classificar-se, também pela pressão dos 24 anos sem conquistas do Mundial e a pífia campanha em 1990. Só que Raí era o grande líder dessa equipe, sendo o camisa 10 e capitão. O time conseguiu classificar-se na “bacia das almas”, contra o Uruguai, com a entrada de Romário no lugar de Muller, sendo essencial para a vaga. 

Porém, essa mudança na equipe trouxe dificuldades para Raí imprimir seu futebol. Com Romário, Lobo lembra que Raí não conseguia apresentar-se na área, sua principal característica: “O Parreira exigia que o Raí e o Zinho fizessem funções muito diferentes das que eles faziam nas eliminatórias. Na Copa, ele precisava que o Raí fechasse o lado direito do meio-campo, e o Zinho fechasse o lado esquerdo, para equilibrar o time e deixar Bebeto e Romário bastante livres”.

Apesar de fazer gol e ser considerado o melhor jogador da primeira partida, contra a Rússia, o camisa 10 não teve o mesmo desempenho das eliminatórias. Por conta disso, foi sacado do time titular e viu do banco a equipe conquistar o tetra nos pênaltis, após empate sem gols contra a Itália, vingando a derrota de seu irmão.

Raí em ação pela Copa do Mundo: de capitão à reserva [Imagem: Reprodução/TNTSports]

Depois dessa competição, Raí só voltou a ser convocado em 1998, em um amistoso meses antes da Copa do Mundo. No Maracanã, contra a Argentina, ele não conseguiu ir bem e foi extremamente vaiado, finalizando sua participação na equipe nacional. Apesar disso, o jogador tem bons números pela seleção: foram 51 jogos e 17 gols feitos.

 

Retornos distintos ao Brasil

Após uma temporada muito abaixo da qualidade do Doutor, ele retornou ao país para tentar recuperar seu futebol. Além disso, buscava voltar a ser uma personagem política em meio à redemocratização brasileira.

Futebolisticamente, a retomada não foi das melhores. Sócrates retornou ao Brasil no segundo semestre de 1985 para defender as cores do Flamengo. Ali, de novo formaria dupla com Zico. Porém, logo que chegou ao Rubro-Negro, lesionou-se e não conseguiu recuperar sua boa forma. Em pouco mais de um ano de clube, ele só realizou 25 jogos e marcou cinco gols, apesar da conquista do Campeonato Carioca de 1986. Decidiu afastar-se do futebol ao discutir com o técnico Sebastião Lazaroni.

A reedição da Dupla Sócrates-Zico não engrenou [Imagem: Reprodução/Revista Placar]

Depois de um ano realizando residência médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, ele foi convidado a voltar a jogar, dessa vez pelo time de coração, o Santos. Durante um ano, conseguiu desenvolver um bom futebol comparado às últimas temporadas, realizando 47 partidas e marcando 14 tentos. Ele finalmente se aposentou no Botafogo de Ribeirão Preto, após sete jogos, no ano de 1989.

Segundo Breiller, a dificuldade em manter a boa forma era pautada pelo uso de bebidas: “A vida útil dele como um atleta mesmo, de alto nível, fisicamente nos seus 100 por cento, foi curta justamente porque ele realmente sempre teve problemas com alcoolismo”. Essa questão, infelizmente, iria acompanhá-lo até o fim de sua vida.

Nove anos depois da aposentadoria do irmão, Raí retornou ao São Paulo, justamente em uma final de Paulistão contra o Corinthians. Essa contratação gerou dúvidas se ele poderia ou não disputar esse jogo. Felipe Lobo apresenta que a contratação já estava firmada, só não se sabia quando jogaria: “O Raí estava acertado com o São Paulo, já tinha até anunciado antes, então o time inscreveu o jogador. (…) Só quando ele chegou mesmo, na final, que ele jogou”.

Então, vestindo a camisa 23, o craque ajudou o Tricolor a reverter o placar do jogo de ida e, marcando um gol de cabeça, liderou a equipe a vencer por 3 a 1, conquistando o título do Campeonato Paulista.

A estrela de Raí ajuda o São Paulo a reconquistar o Campeonato Paulista [Imagem: Reprodução/Estadão Conteúdo]

Porém, em agosto do mesmo ano, ele rompeu os ligamentos do joelho esquerdo, o que dificultou a continuidade da carreira do jogador, que só voltou oito meses depois. Após amargar a reserva em algumas partidas de 1999, conseguiu recuperar um pouco de seu futebol e ajudou o time a conquistar, no ano de 2000, o Campeonato Paulista, em cima do Santos.

Uma das grandes decepções de sua vida e que influenciou na sua aposentadoria foi o vice-campeonato da Copa do Brasil para o Cruzeiro. Era uma competição que ele almejava, tanto pelo São Paulo não possuir o título, quanto para que ele terminasse a carreira em alta. Após um empate em 0 a 0 no Morumbi, o clube paulista começou vencendo a partida mas, no último lance do jogo, tomou a virada e perdeu o campeonato. Esse foi o estopim para encerrar sua carreira.

Lobo opina que pendurar as chuteiras neste momento foi uma decisão tomada para não prejudicar a trajetória de Raí: “Tem muito jogador que fala isso, que o triste do fim da carreira é que, às vezes, se você não para, as pessoas começam a pedir pra você parar. Ainda mais para jogadores que chegaram em um nível alto, eu acho que é uma sensação que ninguém quer ter”. Ele se aposentou aos 35 anos, tendo marcado, nesse retorno, 17 gols em 87 partidas disputadas.

 

O pós-carreira dos irmãos

Sócrates ficou alguns anos longe dos gramados, até que, em 1994, quando era dirigente do Botafogo, treinou o time de forma interina. Com isso, foi o técnico ribeirão-pretense por oito jogos, até que contratassem Cláudio Duarte. Ele ainda atuou nesse papel por mais dois clubes: a LDU do Equador, em 1996, e a Cabofriense, na virada do século. No primeiro, inclusive, ele ficou pouco tempo, alegando a falta de técnica dos atletas.

Ele ainda atuou como articulista da revista Carta Capital e do jornal Agora São Paulo, além de comentarista esportivo do programa Cartão Verde, da TV Cultura. Só que a verdadeira motivação do Doutor sempre foi a medicina. Por isso, no ano de 1992, ele fundou, na cidade onde foi criado, a Medicine Sócrates Center, voltado para a fisioterapia de atletas.

No dia 4 de dezembro de 2011, após confessar seu problema com o álcool e uma série de internações decorrentes de hemorragias internas pelo consumo das bebidas, Sócrates faleceu deixando um enorme legado dentro e fora de campo. No dia seguinte à sua morte, o Corinthians foi campeão brasileiro pela quinta vez e, momentos antes da partida contra o Palmeiras, os jogadores da equipe fizeram o gesto que o Magrão eternizou.

Jogadores do Corinthians fazendo gesto imortalizado por Sócrates em homenagem após sua morte [Imagem: Agência Estado]

Já Raí, após a aposentadoria, passou a fazer parte de instituições sociais, como a Atletas pelo Brasil. A principal delas, criada por ele e que lhe rendeu a condecoração do primeiro nível da Ordem Nacional francesa, é a Fundação Gol de Letra. Junto com o ex-jogador Leonardo, a organização visa à educação de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. 

Entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2021, o caçula voltou a defender as cores do São Paulo, porém dessa vez em outro cargo, como diretor de futebol. Entre altos e baixos nessa posição, a principal missão de sua trajetória, que era a de conquistar um título para o clube, não foi concluída, mantendo a sina de falta de títulos do clube do Morumbi – desde o título da Copa Sul-Americana de 2012.

Raí continua expressando-se politicamente, perpetuando os ensinamentos que Sócrates pregava em campo. A importância de um personagem futebolístico no papel político é extrema, pois, como o Doutor uma vez disse: “Descobri que, jogando futebol, eu posso ser intermediário das aspirações e angústias de milhares de pessoas que se identificam comigo, que me veem como um guerreiro de sua luta”.

Raí e Sócrates em amistoso beneficente da Gol de Letra, no ano de 2003 [Imagem: Djalma Vassão/Gazeta Press]

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