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A ressignificação do bordado

O significado do bordado mudou muito ao longo da história, com redefinições de seu papel enquanto arte, trabalho e manifestação pessoal, social e política

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08 maio 2021 | Por Beatriz Lopomo (beatrizlopomo@usp.br)

O bordado consiste em uma técnica que utiliza linhas, agulhas, pedrarias e  paetês para criar imagens e padrões em tecidos. Ao longo dos anos, o bordado assumiu diversos significados e serviu para diferentes propósitos ao atuar também como forma de expressão

Panorama histórico

Conforme a dissertação Tramas Invisíveis: Bordado e a Memória do Feminino no Processo Criativo, de Juliana Padilha de Souza, não existem registros precisos da data em que o primeiro bordado foi produzido. Entretanto, escavações realizadas na Europa revelaram que, já na Idade Média, a costura era relacionada ao cotidiano feminino. 

Com a associação desse fazer à mulher, ocorre uma gradativa desvalorização da prática. “O bordado, em sua relação com o gênero feminino, gerou um grande desinteresse por parte dos historiadores em perpetuar a trajetória e os feitos de mulheres bordadeiras”, escreve Padilha.

A divisão entre os papéis de gênero atribuiu o papel de bordar como parte da “cartilha” da mulher dócil, submissa e dominada pelos afazeres de casa, o que seguia o ideal cristão propagado nas famílias e apoiado pelo Estado naquela época. Essa habilidade tinha como intuito aperfeiçoar os dotes manuais e artísticos da mulher para que, no futuro, ela se tornasse mais valiosa no mercado matrimonial

No Brasil do século 19, aulas de corte e costura voltadas ao público feminino foram inseridas no currículo. Muitas das meninas eram retiradas da escola antes mesmo da alfabetização, uma vez que, em relação às mulheres, o ensino dos afazeres domésticos era priorizado. 

Nesse contexto, o bordado foi utilizado por algumas mulheres para o aprendizado da escrita. “Dificilmente uma mulher tinha a oportunidade de estudar, então, quando se reuniam para bordar, elas faziam as letras e iam passando para o papel, para assim poder fazer o nome”, conta Beth Lírio, fundadora do Museu do Bordado de Belo Horizonte, a Padilha. 

Apesar da reprodução de um ideal patriarcal, o bordado como prática passada de mãe para filha possibilitou uma coletividade feminina, uma vez que as mulheres se reuniam para tecer. A responsabilidade sobre a própria produção também permitia uma tímida autonomia sobre suas obras. 

Bordado e o feminino

Atualmente, o bordado passa por um processo de ressignificação, de forma que movimentos sociais, como o feminista, reinvindicam essa prática e atribuem a ela um novo significado. 

“Os trabalhos manuais, assim como os domésticos, têm um histórico de desvalorização pela sociedade, que se intensificou na década de 1960, quando as mulheres sentiram necessidade de se distanciar dessas atividades para terem reconhecimento no mercado de trabalho. Hoje em dia isso mudou. Não é mais uma imposição aprender isso ou aquilo para ser mulher ‘prendada’”, declara Renata Dania, responsável pelos cursos e relações públicas da empresa Clube do Bordado

Nessa nova era, a habilidade passou de uma obrigação para um prazer, um divertimento e, até mesmo, um modelo de negócio. “Hoje consigo ter uma visão do bordado do lado profissional, como uma técnica que emprega muitas pessoas, especialmente mulheres, garantindo autonomia financeira. Além disso, fico muito feliz em ver o bordado e os trabalhos manuais ganhando força e espaço no mercado e nas mídias”, complementa Dania.

Os valores inicialmente ligados ao bordado foram subvertidos, de forma que a prática passou a ser usada como forma de resistência, com estampas que repudiam a estrutura patriarcal estabelecida e resgatam o espaço de união, construção e discussão coletiva feminina. 

 

 

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“O processo de bordar é muito potente. Além de ter efeitos terapêuticos, bordar é uma atividade que tradicional e comumente é feita em grupo, e isso de alguma forma estimula a fluidez de pensamentos e de ideias. Os assuntos mais diversos surgem nessas rodas de fazeres manuais, e são ouvidos com seriedade e também muita leveza”, explica Dania. 

Bordado político

Com a ressignificação da prática, surgiram grupos que utilizam o bordado como forma de manifestação política.

O grupo Linhas do Horizonte – nome em referência à técnica e à cidade em que o coletivo foi criado, Belo Horizonte – é extremamente ativo e conhecido em manifestações.

Gabriel Lopo, estudante de jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do coletivo, conta que o grupo é suprapartidário e formado principalmente por mulheres com idades variadas. 

“No contexto de 2016, do impeachment contra a Dilma, um grupo de mulheres de esquerda que já se articulavam, se conheciam e participavam de manifestações resolveram criar uma forma de manifestação política para poder se expressar sobre o golpe”, explica Lopo. 

O grupo busca uma forma de comunicação mais leve, uma vez que muitas vezes panfletos e notas de repúdio não são efetivos em conquistar a atenção do público e garantir o consumo do material produzido. Dessa forma, através do bordado, as ideias e as palavras de ordem foram transformadas em imagens de fácil acesso e compreensão. 

 

 

Gabriel conta que já possuía um apreço pela técnica do bordado, mas que decidiu se juntar ao Linhas do Horizonte porque enxergou no grupo uma forma acessível e fluida de fazer política. “Nos encontros presenciais nós ficávamos bordando e conversando, foi uma forma de aprender a fazer bordado e interagir com um grupo que eu já gostava”, complementa.

“O Linhas do Horizonte se apropria dessa cultura e ressignifica, são mulheres bordando não porque foram induzidas a isso, mas porque querem bordar”, pontua o estudante. 

O trabalho do coletivo, que é uma forma de expressão e manifestação, permite uma leitura histórica do que foi a sociedade brasileira nos últimos anos.

O bordado e a arte

A definição do bordado, no passado, como uma atividade feminina resultou na desvalorização dessa prática, e consequentemente, em seu não reconhecimento como uma forma de arte. 

Nas últimas décadas, diversos artistas concretizaram o resgate dessa técnica e elucidaram o bordado como um recurso poético na construção de suas práticas artísticas. 

A artista visual brasileira Rosana Paulino utilizou a técnica do bordado em conjunto com a transferência de retratos de mulheres negras para o tecido, em sua série Bastidores (1997). Os bordados são aplicados violentamente nas bocas, olhos e gargantas das mulheres retratadas, com o intuito de debater e denunciar o machismo e o racismo.

 

 

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Conforme a Enciclopédia Itaú Cultural, o pintor, escultor e desenhista Leonilson utilizava o bordado para retratar suas subjetividades nas obras, de forma que cada peça era uma parte de um diário íntimo do artista. 

https://www.instagram.com/p/B_2aheoA6M6/ 

O uso do bordado nas obras de Rosana Palazyan, artista visual brasileira, evidencia uma oposição entre o conteúdo e a forma da obra. Os trabalhos da artista, que em um primeiro momento transparecem delicadeza, denunciam temas relacionados à violência.

 “Em Sangue e Bordado, a violência sexual é aludida pelas imagens bordadas e pela gotinha de sangue, incômoda, que paira no canto inferior da almofada-objeto”, escreve Ana Paula Simioni no artigo Bordado e transgressão: questões de gênero na arte de Rosana Paulino e Rosana Palazyan.

“O meio pelo qual o artista produz sua obra não deveria ser excludente ou fator de diminuição – inclusive essa invalidação dos trabalhos manuais como arte tem origem histórica, sexista e preconceituosa. Me sinto feliz em constatar que essas técnicas milenares seguem fortes e se espalhando cada vez mais pelo mundo”, complementa Renata Dania. 

Na nova era do bordado, linhas com propósitos diferentes se cruzam e costuram um novo significado e uma nova função para esta prática.

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