“No cinema tudo é possível.” Sim, uma frase feita, um clichê. Mas é dos clichês que a indústria cinematográfica se utiliza muitas vezes. O resultado da fórmula “tudo é possível + clichês” é nada menos que uma série de erros, ainda mais quando se retrata o nosso querido “Brãsiel”.
Macacos por toda parte, índios americanizados, brasileiros falando espanhol, imprecisões geográficas e uma confusão entre os latino americanos são só alguns dos deslizes cometidos. Como lidar com os estereótipos em tempos de Google? Parece que a solução é rir para não chorar.
A concepção de que os macaquinhos vivem entre nós até mesmo nas cidades grandes é levada a sério. No filme Feitiço do Rio (Blame it on Rio, 1984), um desses pequenos mamíferos sobe no ombro de sua dona em plena praia de Ipanema. O pior é que a ideia equivocada não ficou estacionada no ano de 1984. Em 2010, Sylvester Stallone fez uma declaração na Comic-Con que gerou polêmica. Após filmar uma parte de Os Mercenários (The Expendables, 2010) por aqui, ele disse: “Você pode matar, explodir o país e eles dizem ‘obrigado’ e ainda te dão um macaco de presente para você levar para casa!”. Nada mais comum que levar um animalzinho como lembrança!
Ainda no quesito “fauna”, o cinema já cometeu vários outros erros. Se o Brasil é igual coração de mãe, onde sempre cabe mais um, por que não introduzir algumas espécies ao nosso território? É o que fazem com as formigas siafu, que são originárias do continente africano, em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008), e os babuínos, nativos da África e da Ásia, em Bem-Vindo à Selva (The Rundown, 2003): todos estão “bem, obrigada” na amazônia.
Outro elemento estranho que aparece na nossa parte da floresta é uma pirâmide maia, no filme 007 contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979). Não satisfeitos com a mudança de visual da amazônia brasileira, eles ainda redesenham nosso mapa, colocando as cataratas de Foz do Iguaçu no centro do Brasil. Será que ninguém da produção quis consultar o Atlas? Assim, só para checar?
Se nem os animais nem o território são retratados com fidelidade, as pessoas não são exceção. Os índios brasileiros aparecem muitas vezes representados como os índios americanos. No clássico trash Lambada – A Dança Proibida (The Forbidden Dance, 1990), para piorar, os nativos criam essa dança, que nem brasileira é, na tentativa de impedir o desmatamento. Já no penúltimo episódio da saga Crepúsculo, as calçadas do Rio de Janeiro são tomadas por uma gente alegre, que fica sambando e festejando o dia todo.
Acertar o idioma que falamos e o sotaque da nossa gente é outro problema. Enquanto em alguns filmes, como Stigmata (Idem, 1999), nós falamos espanhol, em outros, como O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008), nossa pronúncia é a genuína… lusitana. Até mesmo em Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), no disco que Holly escuta para aprender a falar português, já que iria se mudar para o Brasil, o sotaque do narrador é de Portugal.
E como latino é tudo farinha do mesmo saco, segundo os gringos, brasileiro tira uma sesta depois do almoço, como no filme 007 contra o Foguete da Morte. Depois acordamos e fechamos o dia dançando um cha-cha-cha, dança atípica brasileira.
Errar é humano, apelar aos clichês parece irresistível. No entanto, cautela nunca é demais. Mas tenhamos fé na humanidade e aguardemos os próximos capítulos da história do cinema. (E eu torço para que nenhum filme diga que nossa capital é Buenos Aires!)
por Gabriela Fachin
gabrieladfachin@gmail.com