Em meio a um contexto de crise sanitária, ocasionado pela pandemia da Covid-19, a frase “surto de varíola dos macacos” pode assustar e gerar dúvidas. Na quarta-feira (8), foi confirmado o primeiro caso da doença no Brasil, e ao menos 27 países confirmaram a presença do vírus. A varíola, comumente reconhecida como uma doença de alto contágio que causou sucessivas epidemias em diferentes lugares do mundo, ressurgiu? Dessa vez, entre macacos? Essas são algumas indagações recorrentes feitas a respeito desse novo cenário, bastante repercutido ao redor do mundo. A Jornalismo Júnior entrevistou o infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia, Dr. Munir Akar Ayub, para esclarecê-las e analisar a conjuntura.
A varíola voltou?
A varíola que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), matou mais de 300 milhões de pessoas apenas no século XX e protagonizou a Revolta da Vacina no Brasil foi erradicada mundialmente na década de 1980. Essa doença não voltou – ela não é a mesma da chamada varíola dos macacos, causada pelo Monkeypox virus. “A varíola era um vírus próprio do homem, então é o homem que tinha esse vírus e transmitia para outra pessoa. Essa varíola era muito mais grave, podia levar à morte e a grandes lesões no corpo, então se não morria, deixava muitas cicatrizes. Com a vacinação, essa varíola acabou. Essa [nova] variante é uma que existe nos ratos e, eventualmente, pega outros animais, no caso o macaco”, afirma Dr. Munir.

É possível o surgimento de uma epidemia ou pandemia da varíola de macacos?
Na década de 70, quando a varíola humana estava prestes a ser erradicada, foi atestado o primeiro registro de varíola de macacos em seres humanos, na República Democrática do Congo. Atualmente, já foram registrados pela OMS mais de 780 casos em locais onde a patologia não é endêmica. Agora que o surto chegou nos países do Norte Global e deixa de ser algo característico de nações marcadas pelo subdesenvolvimento, o mundo parece se alarmar. Mas o Dr. Munir pontua que há baixo risco do surgimento de uma epidemia da doença em razão do funcionamento das formas de transmissão e contágio. “Uma epidemia não. É uma doença que não é transmitida facilmente, precisa de um contato muito importante [próximo/íntimo] com quem está doente, para que haja infecção. Então, ela não tem uma chance de ser uma grande epidemia”, constata o médico.

Os macacos e a transmissão
Embora o nome popular seja “varíola dos macacos”, o entrevistado ressalta que essa nomenclatura está incorreta, uma vez que a doença tem origem em corpos de roedores. Mas doenças que infectam macacos não são novas para a comunidade científica. A febre amarela, um vírus que preocupa a medicina desde o século XIX, também tem o animal como “reservatório” da doença. Diferentemente de como acontece com a varíola, a febre amarela é transmitida pela picada do Aedes aegypti, mosquito que também é vetor de outras doenças, como a dengue. Mesmo que não sejam os macacos os responsáveis pelo surgimento dessas patologias, é senso comum supor que a morte desses animais sirva como forma de controle, tanto da nova varíola quanto da febre amarela. Porém, o Dr. Munir explica que os animais contaminados são tão vítimas quanto os humanos. No caso da varíola de macacos, eles servem apenas como um intermediador entre o vírus e as pessoas, e ficam tão doentes quanto elas.

Saiba identificar os sintomas e como se prevenir
Ainda que não haja um risco iminente de transmissão em massa da nova varíola, é importante saber os sintomas. O médico explica que, “no começo, ela [varíola] é igual a qualquer doença infecciosa. Tem uma febre, uma dor muscular, às vezes aparecem umas ínguas no pescoço, mas isso aparece em um monte de outras doenças.” O indivíduo, no entanto, deve se alarmar quando vesículas, que o Dr. Munir descreve como “bolhas pequenas”, aparecem pelo corpo. Ele complementa que ainda não existem mortes registradas pela varíola dos macacos, e se por algum motivo o vírus começar a se espalhar, a campanha de vacinação que auxiliou na erradicação da antiga variante de varíola seria a principal forma de combate.

*Imagem de capa: Maria Fernanda Barros/Jornalismo Júnior