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42ª Mostra Internacional de SP: Roma
CINÉFILOS
31 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

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Silêncio. Sobre lajotas de cimento, água e sabão. O movimento da vassoura cria ondulações, turvando um reflexo de céu. Passa um avião, lentamente. O som suave das cerdas no chão se mistura ao zumbido insético da nave.

É nesse tom de calma que se desenvolve Roma (2018), de Alfonso Cuarón.  A narrativa é construída através de breves momentos: a câmera passeia languidamente pelas cenas, captando cenários distintos, como uma panorâmica. É um filme para ser assistido respirando profundamente.

Apesar da estaticidade, foco, paciência, a história não é tranquila. Cleo (Yalitza Aparicio) é uma jovem indígena que trabalha como empregada doméstica para uma família burguesa. Habita um quartinho nos fundos da casa dos patrões, e tem uma relação profunda com as quatro crianças de quem cuida. Ela testemunha a deterioração do casamento de Sofia (Marina de Tavira), a matriarca, abandonada pelo marido.

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O filme, nesse sentido, é uma carta de amor de Cuarón às mulheres que o criaram. O diretor mexicano cresceu no bairro de classe média da Cidade do México, Roma, onde se passa a história. Ele dedica a produção à babá, se baseando na própria infância para criar um retrato vívido e emocional da luta doméstica e hierarquia social.

Roma se divide em duas línguas: espanhol, oficial do México, e mixtec, falada entre a população indígena. Já aí se observa a fratura na sociedade mexicana. A linguagem representa uma visão de mundo específica – há, portanto, dois mundos no enredo de Cuarón.

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O contexto da história, passada em 1970, de certa forma se relaciona ao atual. Quase nunca explícito, e quase nunca o ponto principal, o México passava por um intenso conflito entre elite e proletariado. O presidente à época era Luis Echeverría, cujo governo foi caracterizado por autoritarismo, repressão a manifestações de estudantes, desaparecimentos forçados, tortura sistemática, e ​​execuções extralegais.

A mais clara referência a Echeverría, além de alguns cartazes no plano de fundo, foi o ataque a estudantes que se manifestavam nas ruas. A cena pode aludir ao Massacre de Corpus Christi de 1971, ou “El Haconazo”, em que um grupo paramilitar a serviço do Estado matou ao menos 120 pessoas.

Além disso, ao longo do filme, há algumas menções sobre briga por terras, guerrilhas, apropriação de terras pelo governo, presença de empresas estadunidenses no país. Quando Cleo faz uma visita ao hospital, há um terremoto, e é como se a própria terra se rebelasse contra os abusos que sofre. Ao avistar uma lavoura, lembra de suas origens: “Aqui parece minha vila. Mais seco, mas parece”.

Apesar do intuito de Cuarón ser trazer à luz temas políticos e injustiças sociais, permanecem, com maestria, no plano de fundo. O destaque, refletindo sua intenção intimista, é o close-up. São os problemas cotidianos, e as injustiças da vida. É a merda do cachorro, o vinagre na queimadura, é Sofia dizendo a Cleo que “nós, mulheres, estamos sozinhas”. É a solidão da protagonista, apesar do amor que tem pelas crianças. Busca por pertencimento. É a morte. Dor.

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Em uma cena, Cleo se deita na laje com o menino mais novo da casa, e ambos fingem estar mortos. Silêncio. Há o sol, o zumbido do avião, o fôlego. “Gosto de estar morta”, diz Cleo. Roma diz muito sobre desigualdade e luta de classes, e diz bem. Mas é um filme sobre aviões, cachorros, uma mulher, e morrer.

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Roma faz parte da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira o trailer:

por Amanda Péchy
amandapechyduarte@gmail.com

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