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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Sem Ressentimentos’
CINÉFILOS
13 nov 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Como ficam os imigrantes negados tanto pela sua nova terra quanto pela sua cultura de origem?

Sem Ressentimentos (No Hard Feelings, 2020) se passa na Alemanha, um dos países com maior contingente de refugiados no mundo. Parvis Zadeh (Benjamin Radjaipour), jovem gay germanoiraniano de família iraniana, rouba uma garrafa de bebida no dia do seu aniversário e é descoberto. Como consequência, ele é enviado a um centro de refugiados para realizar trabalho comunitário. 

É nesse local que começa sua relação com o casal de irmãos iranianos Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali). Parvis apaixona-se por Amon e, junto de Banafshe, os três vivem momentos inesquecíveis e transformadores de suas vidas.

Com cinematografia e trilha sonora esplêndidas, incluindo música da artista canadense Grimes, a obra é um coming of age com um romance delicado e sensual e um drama latente e poderoso, mas se define principalmente como uma representação sensibilizada da vivência da juventude imigrante queer europeia. 

O coletivo cinematográfico Jünglinge Film, responsável pela obra, se define como uma criação do “contexto cultural híbrido de uma Alemanha pós-migração”. E acredita que: “o jovem cenário de filmes europeus precisa contar histórias queer, diversas e, acima de tudo, específicas sobre crescer e viver em conjunto nessas sociedades”. 

 

Da esquerda para a direita: Parvis (Benjamin Radjaipour), Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali) em pé, olhando para a câmera. [Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

Da esquerda para a direita: Parvis (Benjamin Radjaipour), Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali). [Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

Com roteiro de Paulina Lorenz e Faraz Shariat, Sem Ressentimentos é, à sua medida, biográfico. Em entrevista no Festival Internacional de Cinema da Nova Zelândia (NZIFF), Shariat expõe a importância pessoal da temática do filme. Diretor da obra, ele é filho de pais iranianos e foi sentenciado a pagar horas comunitárias em um abrigo de refugiados no ano de 2015. À época, a Alemanha registrou números recordes de chegada de novos estrangeiros, um aumento de 49% em relação ao ano de 2014. Nascido em território alemão, essa relação com indivíduos imigrantes impactou Shariat de forma significativa.  

O filme foi produzido majoritariamente por novatos no processo de criação e Shariat afirma que muito da obra é colaborativa de todos os seus segmentos, sendo até os próprios atores mais dramaturgos do que simples seguidores de roteiro. Com o filme, o diretor de apenas 26 anos conquistou o prêmio Teddy de Melhor Longa-metragem no Festival de Berlim (Berlinale), o prêmio mais prestigiado do mundo para filmes com temática LGBTQ+. O filme, que visa ao empoderamento tanto do refugiado estrangeiro quanto da juventude gay, tem personagens profundos e fáceis de amar. 

Parvis é um hedonista caótico que deseja aproveitar o melhor de sua vida. Enquanto isso, seus pais sentem falta de seu país de origem e se preocupam com seu estilo de vida. Banafshe é forte e leal buscando uma vida melhor para ela e seu inseguro e amável irmão fanático por plantas. A vida de todos eles está para passar por grandes transformações que envolvem transpor fronteiras físicas e emocionais.

 

Em cena de Sem Ressentimentos, Parvis fantasiado de Sailor Moon, de peruca e olhando o celular. [Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

Parvis fantasiado de Sailor Moon. [Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

Nenhuma das personagens realmente se sente pertencente à Alemanha, porém Parvis também questiona se há no Irã qualquer espaço para um homem gay. Por um lado, conviver com brancos pretensiosos que o definem como “cara étnico” e dizem “alguém como você” e, de outro, não ter espaço para expressão de sua sexualidade. A comunidade imigrante em geral, mas em especial iraniana, é expressa em suas festas, seus conjuntos e seus costumes no filme com uma forte sensação de família e originalidade, enquanto a relação das personagens com brancos é, em sua maioria, de condescendência e menosprezo.

Com a exceção de frames que apresentam movimentações duvidosas de câmera e a sutileza confusa com que a história se desenvolve em alguns momentos, a obra é merecedora de atenção e certamente deve ser contemplada. Há, em seus quase 100 minutos de duração, uma expressão singular do paradoxal existir a que essas pessoas são submetidas ao serem repelidas de uma influência a outra.    

 

Em cena de Sem Ressentimentos, Parvis e Amon em momento íntimo, se beijando. [Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

[Imagem: Reprodução/Jünglinge Film]

Sem Ressentimentos é um filme sobre juventude, identidade, transformações e pertencimento. É uma obra que, dentro e fora das telas, mostra a força da nova geração em escrever seus próprios roteiros, dirigir seus próprios filmes e contar suas histórias. Shariat é representante de um novo momentum para o cinema mundial, em que o estereótipo de diretor homem caucasiano heterosexual e autoritário passa a ter um fim anunciado devido à ascensão da produção coletivizada, da obra sociológica. Mas também uma nova realidade em que corpos LGBTQ+, imigrantes e tanto LGBTQ+ quanto imigrantes não são construções excêntricas e incompreensíveis, mas naturais, admiráveis e pertencentes ao protagonismo.

Confira o trailer:

 

 

*Imagem de capa: Divulgação/Jünglinge Film

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