Home Virou História 45 anos da final Bucks vs Celtics e o renascer do confronto
45 anos da final Bucks vs Celtics e o renascer do confronto
ARQUIBANCADA
12 maio 2019 | Por Arquibancada

Por José Higídio e Vinicius Garcia
zehigidio@usp.br e vini.garcia.ferreira@usp.br

Na sexta-feira da semana passada, três de maio, foi exibida no TD Garden – o ginásio do Boston Celtics – uma homenagem ao recém-falecido John Havlicek, um ícone do time da casa. Imagens do atleta e trechos do seu discurso de aposentadoria apareceram no telão. O jogador, eleito um dos 50 melhores da história da NBA em 1996, se tornou um dos grandes ídolos da torcida, jogando a carreira inteira na equipe do estado americano de Massachusetts e sendo campeão por oito vezes.

Tributo a John Havlicek

O tributo ocorreu durante uma partida contra o Milwaukee Bucks, time do estado do Wisconsin, pelos playoffs da NBA. Dentre os feitos de Havlicek, um dos maiores foi ganhar o prêmio de melhor jogador das finais em 1974. Os jogos foram, coincidentemente, contra o Bucks, que desde então não voltou à decisão da liga, mas agora tem chances. Depois do fim da série nessa semana, o Arquibancada relembra esse confronto histórico.


Jornada (dupla) para a final

A temporada regular iniciada em 1973 já dava pistas de quem chegaria até a final e de como ela seria equilibrada. Afinal, tanto Celtics quanto Bucks foram líderes de suas respectivas conferências, e cada um dos times venceu dois dos quatro confrontos entre si na fase inicial.

Além do técnico Tom Heinsohn, multicampeão pela franquia na época de jogador, o Boston Celtics contava com ótimos atletas como Dave Cowens, Paul Silas, JoJo White, Don Nelson e o craque John Havlicek, que havia vencido simplesmente seis edições da NBA pelos Celtics até então.

(da direita para a esquerda) JoJo white, Dave Cowens, Don Nelson e John Havlicek [Imagem: Dick Raphael]

Enquanto isso, o Milwaukee Bucks tinha vários remanescentes do título de 1971, o único da sua história, tais como o treinador Larry Costello, os atletas Oscar Robertson, John McGlocklin, Bob Dandridge, Lucius Allen (que se lesionou antes dos playoffs) e o astro do time: o pivô Kareem Abdul-Jabbar.

Nos playoffs, as estrelas de Milwaukee, graças ao protagonismo do craque Abdul-Jabbar, não tiveram muitas dificuldades para passar pelo Los Angeles Lakers nas semifinais e varrer (eliminar por 4-0) o Chicago Bulls nas finais da Conferência Oeste. Do outro lado da chave, o Buffalo Braves deu mais trabalho para os Celtics, que mesmo assim avançaram e eliminaram o New York Knicks, seu algoz do ano anterior, nas finais da Conferência Leste.

 

Batalha de gigantes

Após a espera de uma temporada toda, enfim, os reis de cada conferência se enfrentariam para descobrir quem seria coroado o melhor de toda a NBA. O confronto, como qualquer outro do mata-mata da NBA, foi disputado no formato de melhor de sete. As finais de 74, como manda uma disputa emocionante, foram até o último jogo possível, mostrando a excelência de ambos os esquadrões.

Os poucos registros dos jogos 1 até 5 não passam de súmulas e alguns depoimentos. O que sabe-se, porém, com muita certeza é que a série foi uma mostra perfeita de basquete defensivo, assim como atestou o craque Havlicek ao dizer “a melhor defesa que eu já vi realizada por dois times ao mesmo tempo”. Muitas das vitórias vieram de ajustes defensivos ou no ataque que buscassem quebrar a defesa adversária.

Além disso, o Bucks foi basicamente movido por uma força quase imparável: Abdul-Jabbar. A verdade era que, em 1974, as estrelas do Bucks, em sua maioria, já estavam caindo de produção devido à idade, o que é provado pela aposentadoria de Robertson após as finais. Somado a isso, a já citada lesão de Allen colocou um peso enorme sobre o ombro de Kareem. Muitas vezes ele teve que cumprir não só o seu papel típico de fazer cestas, como também o de dar passes, mais associado aos armadores, que na série não contribuíram tanto.

Pelo Celtics, a principal produção vinha de quem era esperado: John Havlicek e Dave Cowens, apesar deste ter tido algumas dificuldades jogando contra o pivô do Bucks. Havlicek, por enfrentar jogadores menos qualificados, teve a vida mais fácil, e conseguiu se destacar na série.

O comentarista Ricardo Bulgarelli, em entrevista para o Arquibancada, avaliou as diferenças no estilo de jogo de cada equipe naquela temporada: “Fundamentalmente o Milwaukee Bucks jogava em função do Kareem Abdul-Jabbar. Já o Boston Celtics, como time, tinha uma pontuação muito mais dividida entre os seus jogadores”.

O jogo 1 foi pouco espetacular: na arena dos Bucks, os Celtics conseguiram forçar erros, principalmente dos armadores adversários, estratégia que seria utilizada em toda a série, e ganharam com folga, pelo placar de 98 a 83. Apesar da derrota, Kareem marcou 35 pontos.

O jogo 2 provavelmente foi o mais intenso dos cinco primeiros, já que foi para a prorrogação. Nesse duelo, o pivô dos Bucks anotou 36 pontos e forçou Cowens a uma péssima partida, com 10 arremessos errados, sendo o último deles bloqueado justamente por Abdul-Jabbar, o que manteve o empate e forçou a prorrogação. No fim desta, os Bucks acabaram vencendo pela margem confortável no placar de 105-96.

Kareem dominava Cowens com sua habilidade [Imagem: Heinz Kluetmeier]

Os jogos 3, 4 e 5 foram menos empolgantes, sendo mais definidos por decisões técnicas do que por finais comoventes. Na vitória dos Celtics no jogo 3, o destaque foi Dave Cowens, que decidiu tentar arremessos mais longos para bater a defesa de Kareem, o que resultou em 30 pontos do jogador. No jogo 4, a decisão do técnico do Bucks de substituir o armador McGlocklin por Mickey Davis, um ala de 2,01 metros de altura, provou-se frutífera. A diferença de altura do substituto para o marcador JoJo White acabou tendendo a partida a favor do time de Milwaukee, que levou a vitória. O jogo 5 foi decidido pela velocidade do time de Boston e o brilhantismo de John Havlicek, que levaram os Celtics à vitória.

Enfim, chega o dia do jogo 6. Talvez um dos mais famosos da história, esse embate foi a duas prorrogações, sendo marcado por grandes performances e momentos de tirar o fôlego, em mais de um sentido. Com os Celtics liderando a série pelo placar de 3-2, os Bucks sabiam que uma vitória era necessária para forçar um jogo 7, o que parecia ser o caso graças à performance histórica de Kareem. Cowens, em perigo de expulsão logo cedo, assistiu do banco o time do Wisconsin conseguir uma vantagem de 12 pontos. Eventualmente, com muita luta e uma grande atuação de Havlicek, os Celtics conseguiram empatar 86 a 86 com um arremesso da estrela do time.

Na primeira prorrogação, o disputado jogo chegou ao placar de 90-88 para o Bucks, até que Don Chaney conseguiu roubar a bola e passar para Havlicek, que, após errar o primeiro arremesso, pegou o rebote e garantiu o empate para forçar nova prorrogação.

Já na segunda prorrogação, a estrela dos Celtics marcou 7 dos 11 pontos de seu time, e foi um arremesso dele que deixou o placar a  favor de sua equipe. Os Bucks, estranhamente, desenharam sua jogada final para McGlocklin, porém a execução foi falha e o jogador não conseguiu se livrar da marcação, o que fez a bola parar nas mãos do astro Abdul-jabbar. Com a bola nas mãos, ele ainda tentou achar o passe, porém, pela falta de tempo, teve que decidir sozinho, e acertou um arremesso de gancho, dando a vitória ao time do Wisconsin por 102-101.

Sobre o histórico embate, Bulgarelli comenta: “Aí o jogo 6, tudo pronto pro Boston ser campeão em casa, com 15 mil pessoas. Basta uma vitória para o título, para voltar a ser campeão depois daquela supremacia dos anos 60, cinco anos sem ganhar um título, e o Boston perde em casa, 102-101, um jogo disputadíssimo”

Momentos decisivos do histórico jogo 6

A dupla prorrogação, porém, se provou muito exaustiva para os jogadores, o que se mostrou na última partida. Os Celtics foram ousados e resolveram apelar para dobrar ou triplicar a marcação em Kareem, o que, somado ao cansaço, fez com que ele tivesse um desempenho abaixo da média. Somado a isso, os jogadores ao entorno do pivô decepcionaram ao receber a bola sem marcador, sendo incapazes de definir o jogo por Abdul-Jabbar. Do outro lado, o time de Boston encaixou um ataque contundente, com ajuda de Dave Cowens, que, por gastar menos energia marcando o astro do outro time, pôde garantir uma grande performance que levou os Celtics a uma vitória folgada.

Estratégia de marcação que limitou Kareem no último jogo [Imagem: Sports Illustrated]

Assim, o time sagrou-se campeão pela 12° vez, e Havlicek conquistou a honraria de MVP (sigla para jogador mais valioso, em inglês) das finais. O depoimento de Paul Silas, companheiro de time do ala de Boston, prova que o MVP mereceu esse prêmio mais que qualquer estatística. Ele disse que, quando tudo estava bem, todos do time entravam com esse sentimento, o que fazia com que às vezes até parecesse que eles ignoravam Havlicek.

Porém, assim que as coisas começavam a ir mal, eles o procuravam em quadra imediatamente, talvez até fizessem isso demais. Às vezes, Silas estava livre para um arremesso, mas passava a bola para Havlicek, mesmo que marcado por dois jogadores e mais longe da cesta. Faziam isso instintivamente porque ele usualmente era o cara que transformava momentos ruins em momentos bons para todos.

Ainda sobre o jogador, o comentarista Bulgarelli ressalta: “O John Havlicek sempre foi muito famoso por essas roubadas de bola. Sempre muito atento na marcação. Era um cara muito explosivo no ataque, pontuava com naturalidade, mas ele era muito importante roubando bolas”

Havlicek com Tom Heinsohn em uma de suas conquistas [Imagem: NBC Boston]

Confrontos nos anos 1980

Como qualquer embate que ocorra em uma grande final, Bucks x Celtics se tornou histórico, e é impossível assisti-lo sem lembrar de 74. A memória deste ano foi bastante ressuscitada na década de 80, quando as duas equipes se enfrentaram quatro vezes nos playoffs em um período de cinco anos.

A ocasião em que os Bucks estiveram mais próximos de uma “vingança” pela derrota em 1974 ocorreu na repetição desse confronto durante as semifinais de 1983 da Conferência Leste (para a qual o time havia se transferido em 1980). Apesar de eliminados na fase seguinte, eles venceram aquela série por 4-0, graças aos destaques no elenco de Marques Johnson e Sidney Moncrief, além de Dave Cowens e Don Nelson como técnico – ambos campeões de 74 pelo Celtics.

Entretanto, o Boston Celtics daquela época tinha um elenco fortíssimo, com jogadores como Larry Bird, Kevin McHale, Robert Parish e Dennis Johnson. Nas campanhas de seus títulos de 1984 e 1986, eliminaram o Milwaukee Bucks nas finais de conferência. Em 1987, quando foram vice-campeões, fizeram o mesmo nas semifinais do Leste.

Marques Johnson, com a bola, é marcado por Larry Bird no confronto de 1983 [Imagem: Dick Raphael/NBAE]

Bulgarelli considera que 1974 foi um ano esporádico, do único confronto grande entre as equipes naquela década. “Somente nos anos 1980 surge uma rivalidade, já que o super Boston Celtics do Larry Bird foi o principal algoz do Milwaukee Bucks, evitando que eles retornassem a uma final de NBA”.

Após essa maratona de confrontos, os times demoraram 30 anos para se encontrarem de novo nos playoffs. Em um cenário completamente diferente, com um outro ritmo de esporte e novas características das equipes, Bucks e Celtics recentemente talvez venham reacendendo essa rivalidade dos anos 80.


O reencontro

A disputa só voltou a ocorrer na temporada de 2017-18, com um jogo já muito diferente, mais dinâmico, e com cada vez mais apostas nas bolas de 3. O time dos Bucks, de maneira similar ao time de 74, tinha uma grande estrela que carregava o time, no caso, o grego Giannis Antetokounmpo. Assim como Kareem, ele tinha certo apoio de alguns bons jogadores, como Khris Middleton e Eric Bledsoe, mas a grande responsabilidade de levar o time ainda era dele. O Celtics, porém, sabia disso, e, através de brilhantes estratégias montadas pelo técnico Brad Stevens, pôde explorar os pontos fracos do astro adversário, enquanto, ao mesmo tempo, limitavam a ação dos jogadores de apoio.

Isso levou, derradeiramente, ao mesmo resultado daquela final, uma vitória em sete jogos do time de Massachusetts. Mesmo sem suas principais estrelas, dependendo fortemente do veterano Al Horford e dos jovens Jason Tatum e Jaylen Brown, o time de Boston prosperou devido a sua disciplina tática. Davam espaço para o arremesso longo de Giannis, o qual ele não domina plenamente, e tentavam impedir que ele chegasse à cesta, que é onde ele se torna imparável, limitando assim a atuação do grego.

Esse ano, talvez para reavivar o sentimento presente nos anos 80, o encontro se repetiu. O Bucks, em busca de vingança, vinha agora com um time melhor estruturado, principalmente com a aquisição do pivô Brook Lopez, hábil em bolas de 3, que permitiu mais espaço no garrafão para Antetokounmpo. Já Boston veio com o mesmo time, que por estar saudável, apresentou certos problemas de entrosamento. Isso resultou no triunfo do Bucks por 4 a 1.

Giannis e Kyrie, os líderes de seus respectivos times [Imagem: Michael Dwyer]

Por fim, Bulgarelli disse: “Um duelo muito legal também é o dos técnicos: Mike Budenholzer e o Brad Stevens. A diferença do ano passado para esse é que o ano passado o Milwaukee tinha um técnico interino, que era o Joe Prunty, e esse ano tem o Budenholzer, que foi um assistente por quase 20 anos do Greg Popovich em San Antonio. Ele é um cara bem diferente no estilo de jogo e na hora de montar o time.”.

Certo é que essa disputa de dois titãs do leste, seja em jogo de temporada regular ou nas finais de conferência, sempre vai render um basquete de alto nível, sempre merecendo ser assistido. É importante acompanharmos agora a ascensão do astro dos Bucks e o manejo de elenco dos Celtics, para que esses grandes confrontos possam seguir existindo.

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