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‘Supergirl’: voa alto ao ser verdadeiramente um filme de quadrinhos

Filme lida essencialmente com a construção emocional dos personagens em meio a aventura divertida do início ao fim
Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)

Quem é a Supergirl? Com mais de 60 anos desde a sua origem nos quadrinhos, é curioso como ainda existe muito espaço para criação dentro da sua personalidade. O público geral talvez tenha tido contato com a série de TV do universo da CW, Supergirl (2015-2021), mas a versão feita neste segundo longa do DC Studios, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (26), traz uma abordagem diferente, mais distante da perspectiva esperançosa do primo Superman.

Dirigida por Craig Gillespie, a obra é uma adaptação direta da graphic novel Supergirl – Mulher do Amanhã (Panini, 2022), do roteirista americano Tom King, da quadrinista Bilquis Evely e do colorista Matheus Lopes, ambos brasileiros. A fidelidade com o conteúdo original apresentada no longa não é algo tão comum no gênero, que normalmente se inspira em diversas histórias para criar uma nova. 

Kara (Milly Alcock) está comemorando seu aniversário de 23 anos em um bar em um planeta distante, ao lado somente do fiel cachorrinho Krypto. De repente, a menina Ruthye (Eve Ridley), entra no recinto cheio de alienígenas mal-encarados anunciando que está em busca de vingança contra Krem (Matthias Schoenaerts), o assassino de sua família, e precisa de ajuda. Mas, é quando Krem acaba envenenando Krypto e fugindo com o antídoto, que Kara sai em busca dele na companhia de Ruthye.

Escolher uma história em quadrinhos que retrate uma Kara rebelde e em conflito sobre seu lugar no universo para basear o roteiro do filme é uma escolha muito boa,  que dá forma e identidade à personagem de um modo que ainda não se tinha visto nas telas. Na verdade, a essência da obra é assumir em todos os seus aspectos: fotografia, roteiro, montagem e até na trilha que é uma adaptação de uma HQ. 

Esse ritmo quadrinesco abre espaço para que a aventura seja um pano de fundo para os dilemas das personagens, aprofundados ao longo de toda a história, criando uma narrativa cheia de fôlego. A introdução ao passado de Kara ocorre quando os diálogos do presente exigem esse flashback em uma montagem crucial para o desenrolar da história. 

Cenas que poderiam ser simplesmente explicações clichês de filmes de origem se tornam um dos passeios pelo fim de Krypton mais bonitos já retratados no cinema, com uma fotografia cativante, que reforça a saudade de Kara por um lar. De modo inclusive, a conectar a narrativa do filme ao restante do universo já apresentado de maneira natural.

No outro lado, o trabalho de adaptação também tem o mérito de encapsular uma minissérie de 8 edições em uma história única que, em momento algum, soa seriada. O quadrinho abre margem para que em cada planeta visitado se estabeleça um capítulo mas, no roteiro de Ana Nogueira, um trecho da viagem sempre leva ao próximo, sem ter de concluir arcos narrativos parada a parada.

Nessa jornada contínua, várias cenas muito criativas são incluídas, passando pelo transporte público interplanetário e até por alguns botecos duvidosos, sem a obrigação de serem abordagens realistas, escolhendo apostar na fantasia. Inclusive, brincando com a mitologia da personagem. Como a ideia de Kara ir beber em planetas de sol vermelho, por exemplo, pois neles ela não tem poderes, logo também sente melhor os efeitos do álcool.

Ruthye e Kara esperando um ônibus interestelar na capa de Supergirl: Mulher do Amanhã #2
[Imagem: Reprodução/DC Comics]

Além da HQ, são visíveis influências que combinam na construção da estética do filme e dos personagens. A primeira delas vem de James Gunn, produtor do longa e chefe do DC Studios, que começou no universo de super-heróis com a franquia espacial da Marvel, Guardiões da Galáxia (Guardians of The Galaxy), da qual o visual dos alienígenas e do próprio vilão de Supergirl bebem muito. 

Matthias Schoenaerts conta em entrevista ao MovieZine que tinha de ficar de 3h30min à 4h na cadeira de maquiagem para preparar o visual do vilão Krem [Imagem: Reprodução/IMDb]

Mas, o trabalho prévio do diretor Craig Gillespie também acrescenta à construção da personagem principal, pois já havia dirigido outra obra protagonizada por uma mulher carismática e rebelde: Cruella (2021). E a direção de atuação de ambas as protagonistas dá a elas destaque e profundidade memoráveis.

Esses mundos colidem em um elemento de muito afeto pelos dois cineastas: a trilha sonora. Uma mistura de clássicos e músicas não tão conhecidas, mas escolhidas especialmente como se fossem do gosto pessoal da própria Kara. Elas eletrizam as cenas de ação e dão um peso emocional forte em momentos mais reflexivos. A composição original de Claudia Sarne como tema da personagem completa bem os momentos épicos da trama, criando uma música com tom eletrônico, que combina com a ambientação espacial.

Kara passa quase o filme todo com uma camiseta da banda Blondie
[Imagem: Reprodução/TMDB]

Nessa dinâmica entre os personagens, existe um desenvolvimento incrível da personagem de Kara. Sempre com um carisma enorme, ela está perdida nesse universo, mas não é imatura, ela têm seus traumas mas não passou a odiar tudo por causa disso. 

É uma excelente construção de roteiro, assinado por Ana Nogueira, e a atuação de Milly Alcock, que juntos, dão vida a essa jovem que se sente sozinha e sem casa, mas que, na relação com Ruthye, passa por uma evolução muito bem tecida. Com certeza, muitas meninas vão ver um espaço para elas em Supergirl que até então não havia sido preenchido no cinema de heróis, pelo menos não de forma tão bem direcionada.

A elaboração da Ruthye é equilibrada. Ao mesmo tempo que seu luto poderia ser mais aprofundado, é nela que fica evidente o reflexo de si mesma que Kara enxerga e o receio que tem de que os traumas da menina se transformem em uma vingança que só trará mais dor e mágoa. Os desdobramentos dessa relação, quase de irmãs, rendem cenas muito bem feitas, desde as mais divertidas até as mais duras, dividas com muita simpatia também por Eve Ridley.

Supergirl é a estreia da atriz adolescente inglesa no cinema, após participações em séries da Netflix como The Witcher (2019-) e O Problema dos Três Corpos (The Three Body Problem, 2024)
[Imagem: Reprodução/TMDB]

Outra participação de destaque é o anti-herói Lobo (Jason Momoa), interpretado ridiculamente bem pelo ator que era o Aquaman no antigo universo DC, o qual não possui relação com o atual. Com certeza, o motoqueiro assassino de aluguel protagoniza as cenas mais engraçadas do filme.

Apesar de ter sido descartada, a ideia inicial de Tom King para a minissérie em quadrinhos era de Supergirl e Lobo protagonizarem a história juntos
[Imagem: Reprodução/TMDB]

Mas, Krem, o vilão do filme, não é nada memorável. Ele consegue criar as situações-problema que dão continuidade a história, mas sem uma personalidade marcante. É compreensível que não era intenção do filme dar muito destaque a ele, o foco da trama está na dupla principal. Krem, é só um obstáculo. Mas mesmo mantendo essa estrutura e também a abordagem da vilania para que a história não ficasse tão pesada, era possível dar a ele mais originalidade para reforçar o antagonismo.

Mas, afinal, quem é a Supergirl? Em um longa marcado pela linguagem dos quadrinhos, é possível conhecer profundamente a história dessa garota que, junto de Ruthye, vive essa aventura caótica e boa de assistir. Nas risadas e nos traumas, o novo longa do DC Studios é o tempo todo sincero com o que propõe e prova que caso o gênero continue investindo em histórias de grandes personagens vivendo dilemas comuns, ligadas ao universo geral de maneira orgânica, ainda existirão muitas jornadas para experienciar e assistir.

Supergirl já está disponível nos cinemas brasileiros! Veja o trailer:

*Imagem da Capa: [Reprodução/IMDb]

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