Jornalismo Júnior

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Ensaio | Entenda os impactos da ascensão do consumo de animações na pós infância 

Os motivos por trás do aumento no número de adultos que assistem conteúdos constantemente pensados para crianças
A imagem aprsenta o Ursinho Pooh, com um sorrriso tímido, e o Coelho, com expressão aflita, ambos olhando parea cima da animação da Disney de 2011

Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br) 

Na atualidade, o consumo de animações infantis apresentou um aumento significativo, os adultos começaram a protagonizar esse nicho, geralmente composto por crianças, de uma maneira sutil e inesperada. Os desenhos que antes eram de exclusividade infantil, passaram a abranger novos públicos a partir de seus roteiros ainda mais consistentes e profundos.

Com a chegada de mais obrigações e responsabilidades, boa parte dos adultos deixa de lado os prazeres do entretenimento e do mundo fantástico das animações para focar nos deveres do cotidiano. Porém, cada vez mais, a história dessas produções animadas tem interessado tanto pessoas que estão em sua fase mais madura, quanto a mídia. Os próprios escritores de desenhos também apresentam um papel fundamental nessa transformação.

Origem

Os primeiros desenhos animados surgiram na década de 1910, mudos e sem cores, com piadas e roteiros direcionados ao público adulto. Personagens como Betty Boop são exemplos do enfoque dos desenhos da época, ela usava roupas que saiam da moral conservadora que era pregada e mesmo assim, o desenho era reproduzido pois atraía o sucesso do público.

Foi nesse momento que a Walt Disney Studios criou uma fórmula que se mantém até hoje em suas produções. Com poucas alterações, permanece com a linha narrativa baseada na ideia do bem contra o mal, na qual a vitória dos personagens apresentados como heróis continua. Os finais felizes são mantidos com lições de moral que atraem as famílias a consumirem esse tipo de desenho.

O storytelling é o conceito que estrutura a história e capta as emoções que ultrapassam o limite de idades. As expressões mais realistas e a narrativa envolvente fazem parte da construção do vínculo dos desenhos com as pessoas, e hoje em dia, isso se estende na pós infância.

Betty Boop, uma personagem de cabelos curtos e encaracolados, longas pernas e corpo curvilíneo é apresentada em movimento em cima de um palco com um artefato não identificado em suas mãos. Possui maquiagem forte e roupas curtas.
Betty Boop sofreu censura nos anos 30, quando os padrões de produção ficaram mais rígidos, mesmo assim, ela virou um símbolo na arte e na cultura pop. [Imagem: Reprodução/IMDB]

A publicidade a favor da captação do público

Na era televisiva, atingir o público alvo virou uma tarefa mais simples, pois os comerciais assumiram a responsabilidade de divulgar a estreia das novas produções e de promover os produtos dos desenhos mais famosos do Brasil. Os comerciais da Mattel,  empresa criadora da Barbie, se apresentam como como exemplo disso já que mostram seus brinquedos e informam os pais sobre as tendências do momento.

Originalmente, o papel dessas propagandas era instigar as crianças a desejarem o brinquedo. Hoje, elas atingem o público adulto a partir do estímulo da nostalgia e da memória afetiva, isso influencia no consumismo acelerado. A distribuição desses comerciais nas plataformas de streaming provoca ainda mais o aumento desse fator ao captar o público, que possui poder de compra, para esse universo de maneira sutil.

A psicologia por trás da atração

Por mais que a técnica de storytelling seja a mesma, as produções atuais são capazes de prender atenção muito mais facilmente. De acordo com o Dr. Paulo Porto de Melo, médico neurocirurgião, as cores chamativas e a velocidade das animações são agentes que tornam os desenhos infantis atrativos para adultos da geração atual. Ele aponta que, esse fenômeno cultural, está relacionado com a Internet, pois os desenhos animados se assemelham com o modelo dos vídeos curtos presentes nas redes sociais. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, o coordenador da área de animação, games e motion design da Escola Superior de Propaganda e Marketing & Escola Panamericana de Artes (ESPM-Panamericana), Rodrigo Castanho, trouxe outro parâmetro para esse fenômeno. Segundo o profissional, o consumo pelos adultos de um conteúdo originalmente assistido por crianças é sustentado pelo design de camadas narrativas e pelo conforto cognitivo.

Ele menciona que, no desenvolvimento de roteiros modernos, algumas obras optam pela construção em duas camadas simultâneas, na qual ações e arcos são feitos ao mesmo tempo, e entregam entretenimento para a criança. A animação reserva mensagens que não ficam explícitas, com ironia e dilemas existenciais para espectadores mais velhos.

As produções também podem funcionar como um refúgio seguro. Para ele, o adulto busca um ambiente onde o otimismo não é visto como ingenuidade, mas como uma escolha estética e narrativa que permite um descanso mental da complexidade do mundo real.

A imagem mosrra as Meninas Superpoderosas deitadas, como se estivessem assistindo televião, em um tapete branco localizado em uma sala de estar.
Cada menina superpoderosa representa uma personalidade diferente por isso o desenho leva uma grande identificação para o público [Imagem: Reprodução/IMDB]

O design de personagens e a direção de arte de uma animação comunicam valores e estilos de vida. Quando um adulto se identifica com a paleta de cores ou com o traço de uma obra, ele muitas vezes incorpora esses elementos em sua própria identidade, seja através da moda, do design de interiores ou da presença digital. Rodrigo diz que isso abre mais possibilidades para os criadores adicionarem todas as camadas de referência que a história permite, contando com o repertório cultural do espectador para associar a sua própria realidade.

O desenho como estilo de vida

Existem desenhos que têm o poder de prender como nenhum outro, aqueles que marcam a vida desde a infância e se tornam uma influência na personalidade do indivíduo. Com quase 3 milhões de seguidores em suas redes, Cleo da Silva, mais conhecida como Minnie Rosa Humana, começou a publicar vídeos na internet em 2018. Desde então, é chamada por diversas emissoras de televisão para contar sua trajetória e como a personagem Minnie se tornou parte de seu dia a dia.

Ela começou a gravar conteúdos para as redes sociais apenas para compartilhar sua decoração. Na cidade de Rio das Pedras, localizada no interior de São Paulo, um de seus vídeos que mostrava sua casa rosa viralizou no Tik Tok. O que era apenas diversão, se tornou seu trabalho e sua principal fonte de renda.

A imagem mostra Cleo da Silva situada em um recinto recheado de imagens da Minnie. Diversas pelúcias a rodeiam, bem como lençóis e tapetes possuem a face da personagfem estampada. Cleo está ajoelhada e sorrtindo para foto vestindo roupas estampadas com a personagem
Cleo mencionou que não depende da validação de ninguém para ser feliz e destacou a importância da personagem nesse processo
[Imagem: Acervo Pessoal/Cleo da Silva]

A ideia dos vídeos começou a partir de um desejo de infância: ter uma casa rosa. Em entrevista à Jornalismo Júnior, a influencer contou que, com o apoio de sua família, conseguiu transformar seu sonho em realidade. A atribuição do nome da personagem Minnie Rosa se deu quando as pessoas começaram a associar o rosa com a personagem Barbie, assim, Cleo uniu o seu amor pelo mundo Disney e sua cor favorita.

A influenciadora citou que o conteúdo que seus seguidores mais gostam de acompanhar é a sua rotina, os novos utensílios personalizados da sua residência e seu cotidiano usando roupas da personagem Minnie. Sua entrada nas redes ajudou na descoberta de uma nova versão de si, na melhora da sua autoestima e em sua maneira de enxergar o próximo.

“Meu sentimento em relação à personagem não irá mudar, a tendência é que a alegria aumente, porque recebo o amparo de minha família e não me importo mais com os comentários negativos”
Cleo da Silva

Cleo enfatizou que o poder que a personagem e o desenho tiveram em sua vida é  o essencial. Acredita que sua influência pode inspirar e ajudar outras pessoas nos momentos difíceis em que necessitam de superação e autovalorização, assim como ocorreu com ela, tanto emocionalmente, quanto na parte estética. 

A criatividade ultrapassa as telas

Hoje, temas como luto, responsabilidade, ansiedade e identidade estão presentes em massa, algo que antes era mais comum em filmes e séries para adultos. Essas abordagens podem ser percebidas em animações como Divertida Mente 2 (Inside Out 2, 2024) e Guerreiras do Kpop (K-Pop Demon Hunters, 2025) que envolvem temas sobre resiliência e autodescoberta. 

Quando uma obra tem direção de arte marcante e trilha sonora de alto nível, deixa de ser vista apenas como um conteúdo produzido para de crianças e passa a ser valorizada como uma verdadeira obra artística e de design. Rodrigo Castanho afirma que houve uma evolução estética com a chegada da Internet e de novas tecnologias que possibilitam a junção de gerações através dos elementos identitários de cada público. 

De acordo com Rodrigo, na animação a criatividade não tem limites e o público aceita com mais facilidade situações absurdas ou personagens totalmente diferentes. Um exemplo é o desenho O incrível Mundo de Gumball (2011- presente), onde personagens de espécies inusitadas ou, até mesmo, objetos inanimados ganham características humanas, como fala e raciocínio.

O professor salienta que, em um filme com atores reais, isso seria muito mais difícil de funcionar de forma natural e geraria questionamentos e aversão do público, assim como acontece em produções de live-action, principalmente quando esses enredos partem de uma animação e são transformados em longa-metragem.  

A animação consegue transmitir emoções de maneira muito visual. Como os personagens costumam ter traços mais simples, o público consegue se identificar mais facilmente com eles. Esse universo também permite transformar sentimentos em imagens. Rodrigo analisa que isso contribui na explicação de emoções e questões psicológicas de forma mais forte e criativa do que apenas com diálogos e facilita a imersão dos adultos nesse mundo audiovisual.

A imagem apresenta diferentes perosonagens de O Incrível Mundo de Gumball se apbraçando em um dia ensolarado. As personagens são caracterizadas por seres com careacteristicas hgumanóides de um balão, uma banana, um rádio e um gato
Em O incrível mundo de Gumball, a ideia dos criador do desenho era fazer uma cidade onde qualquer coisa pudesse existir [Imagem: Reprodução/IMDB]

Novas produções impactantes

Roteiristas e produtores têm sido elogiados pela crítica e pelos telespectadores pela produção de desenhos animados que atraem jovens e adultos pela qualidade dos roteiros, cenas de ação e design sofisticado. O comportamento analisado pelo professor mostra que os consumidores buscam formas mais coloridas e menos comuns de processar a realidade e utilizam da arte lúdica para um mecanismo legítimo de saúde mental e expansão criativa.

A animação Bluey (2018 – presente) surgiu como um fenômeno inesperado no universo das animações infantis mas, rapidamente, ultrapassou os limites do entretenimento para crianças e começou a ocupar um espaço importante na cultura contemporânea. Criada na Ludo Studio e distribuída internacionalmente pela BBC Studios, a série conquistou públicos de diferentes idades por apresentar uma proposta visual e narrativa que representa uma verdadeira revolução estética no cenário atual da animação. 

Diferente de muitos desenhos modernos marcados pelo excesso de estímulos visuais, cortes rápidos e cores agressivamente saturadas, Bluey aposta em uma estética sensível, acolhedora e emocionalmente inteligente. Seus cenários utilizam paletas suaves, traços simples e movimentos fluidos que remetem a um cotidiano vivo e afetivo. A construção mostra um refinamento artístico capaz de transformar pequenas situações familiares em experiências profundamente humanas. 

Os personagens têm expressões sutis e animações corporais naturais. A abordagem utilizada representa uma mudança importante na linguagem das animações contemporâneas, já que o desenho evita designs tridimensionais e mantém um visual bidimensional estilizado, que resgata a força da ilustração tradicional enquanto dialoga com técnicas digitais modernas e foca na estética, símbolos e silhuetas em vez de texturas realistas.

A animação influencia debates sobre parentalidade, educação emocional e produção audiovisual infantil,  Bluey é explicado pela escritora Paula Pimenta como uma obra capaz de emocionar adultos, estimular crianças e, ao mesmo tempo, apresentar excelência artística. 

A imagem mostrea três cachorros personagens do desenho Bluey.
A trilha sonora do desenho usa estilos variados para combinar com as emoções de cada episódio 
[Imagem: Reprodução/IMDB]

Rodrigo ainda afirma que esse fenômeno revela uma sociedade que está aprendendo a valorizar a inteligência emocional e a ludicidade como ferramentas de sobrevivência. O consumo desses conteúdos indica uma quebra nas barreiras geracionais e uma rejeição à ideia de que a maturidade deve ser sinônimo de rigidez ou de abandono da imaginação.

“Em vez de um retrocesso, vemos uma evolução cultural onde adultos reconhecem que narrativas visuais vibrantes e otimistas possuem tecnologias emocionais valiosas”
Rodrigo Castanho

Imagem de capa: Reprodução/IMDB

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