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Entenda como a Revolta de Stonewall definiu a jornada pelos direitos LGBTQIAPN+

Repressão policial a bares gays desencadeou levante pela liberdade em Nova York no final da década de 60

Por Ana Vitória Barbosa (anavita.nb@usp.br) e Matheus Andriani (andrianimatheus@usp.br

Em 1969, batidas policiais em bares gays de Nova York eram algo quase que cotidiano. O procedimento executado pelos agentes de segurança da época seguia o mesmo padrão: eles invadiam o local, agrediam funcionários e frequentadores e conduziam-os para a prisão. A cidade, que criminalizava pessoas queers, não permitia que estabelecimentos funcionassem exclusivamente para essa população, o que resultava na repressão da polícia. Mas, no dia 28 de junho daquele mesmo ano, essa realidade mudou. 

Durante uma abordagem comum, em Stonewall Inn, bar na região de Manhattan, os clientes decidiram reagir. Naquele momento, era instaurada uma rebelião que durou dias e foi um dos principais marcos para a emancipação da comunidade LGBTPQIAPN+ nos Estados Unidos e no restante do mundo. 

Stonewall Inn: um ponto de refúgio

Assim como a maioria dos bares gays que passaram a funcionar a partir da década de 30 em Nova York, o Stonewall Inn era operado pela máfia, pois era contrário às leis de ordem vigentes na cidade. Em 1934, após o presidente Franklin D. Roosevelt decretar o fim da Lei Seca, as licenças para venda de bebidas alcoólicas foram regulamentadas, e apenas comércios considerados desordeiros passaram a ser impedidos de operar. O bar, cujo público central eram homens gays e travestis de origem marginalizada, era tratado pelas autoridades como um espaço de desordem e de afronta à moral pública, o que motivava e justificava as invasões policiais.

De acordo com relatos do documentário Stonewall Uprising, produzido pela American Experience, a máfia geralmente conseguia subornar de forma parcial a polícia, de modo que eram avisados com antecedência sobre uma possível batida. Em algumas ocasiões, as luzes eram acesas para sinalizar aos clientes que as demonstrações de afeto no bar deveriam ser interrompidas a fim de evitar prisões durante a abordagem.

O bar, que segue em atividade no mesmo endereço, se tornou patrimônio histórico da luta pelos direitos à comunidade [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Stonewall foi inaugurado em 1967 em Greenwich Village, região de Nova York frequentada pela população LGBTQIAPN+, e funcionava como um clube noturno privado. O local se firmou como um ponto de encontro para a comunidade, onde a população tinha a liberdade de agir e se manifestar sem medo de sofrer represálias. Todas as noites, o bar recebia centenas de pessoas que representavam diferentes grupos, desde drag queens e mulheres lésbicas, e até mesmo curiosos que simpatizavam com a causa.

A revolta

Em 28 de junho de 1969, uma batida policial costumeira se tornou o ponto inicial de uma rebelião. O objetivo era reprisar uma operação que os agentes haviam realizado no bar dias antes, na qual apreenderam bebidas e conduziram clientes à delegacia. Mas, na noite do dia 28, os frequentadores se revoltaram com a presença dos policiais e agiram com agressividade; arremessavam objetos nos oficiais ao mesmo tempo que esbravejavam insultos. 

Conforme o tumulto se formava, os clientes partiram para o lado de fora do bar e a população que morava aos arredores do estabelecimento se juntou aos revoltosos. A operação ainda tentava prosseguir, mas os revoltosos, entre eles adolescentes, mulheres trans, lésbicas, homens gays e drag queens, reagiam de forma cada vez mais intensa. A reação forçou os agentes a retornarem acuados para dentro do Stonewall Inn, enquanto a multidão gritava e exigia que eles fossem embora.

Não se sabe exatamente quem iniciou a revolta, mas para Pol Debb Miki Iryo Silva, mestrando em Filosofia pela USP e pesquisador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), não faltaram motivações. Em entrevista à Jornalismo Júnior, o estudioso explicou que o motim ocorreu após um longo processo de desgaste da comunidade LGBTQIAPN+ de Nova York com as frequentes repressões do Estado. “Sempre houve um alto índice de perseguição a esses corpos, e o bar entrava como símbolo de oposição à violência, no sentido de ‘onde querem morte, nós vamos lutar para existir’. O bar era o lugar de celebrar o fato de estar vivo e celebrar com resistência”, afirma.

Os policiais foram surpreendidos com a reação dos clientes, que não aceitaram a abordagem [Imagem: Reprodução/National Park Service]

Após a primeira noite, os protestos continuaram por cerca de uma semana e reuniram multidões que cresciam com o passar dos dias. A intensidade deles variava: a segunda noite reuniu cerca de duas mil pessoas, enquanto a terceira e a quarta foram mais tranquilas. A força do levante foi retomada na sexta e última noite, quando novos confrontos voltaram a tomar as ruas do bairro nova-iorquino e, em meio aos tumultos, lojas da região foram saqueadas. A revolta resultou em algumas dezenas de prisões, mas sem fatalidades diretas.

“A luta não se faz só por reivindicação de direitos, mas é uma estratégia também corporal, uma estratégia de se impor nos lugares”

Pol Debb Miki Iryo Silva

Um marco histórico

O episódio em Greenwich Village, centro midiático de Nova York, teve ampla repercussão, se tornou símbolo da resistência coletiva contra a repressão policial e inspirou a comunidade LGBTQIAPN+ dos Estados Unidos a se organizar para lutar contra o preconceito.

Entre os nomes mais marcantes da rebelião, estavam as mulheres trans Marsha P. Jhonson e Sylvia Rivera, que foram figuras centrais nos protestos e posteriormente no fortalecimento da causa no país. As ativistas ajudaram a fundar o grupo STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), voltado para apoiar travestis e mulheres trans sem-teto. A presença de ambas em Stonewall destacou a participação de pessoas trans e negras no movimento, o que impulsionou a diversificação da pauta para abranger outros grupos marginalizados.

“Não vou perder um minuto disso — é a revolução!”

Sylvia Rivera, em tradução livre

Para além de Stonewall

No aniversário de um ano da rebelião, a primeira Marcha anual do Dia da Libertação da Rua Christopher ocorreu em Nova York. Mais tarde, o evento se consolidou como Marcha do Orgulho Gay e depois Marcha do Orgulho LGBT, e se transformou em uma tradição em outras cidades dos Estados Unidos. O número de movimentos semelhantes também se expandiu internacionalmente nos anos seguintes.

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