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A abordagem de seitas em filmes
CINÉFILOS
02 out 2020 | Por Marina Bittencourt (maribcg@usp.br)

Seitas e cultos sempre estiveram presentes na cultura popular americana, aparecendo pela primeira vez nas telonas em 1939 com o filme Gunga Din. Desde então, foi  tópico de diversos filmes, documentários e até mesmo séries, como American Horror Story: Cult. Essa realidade, além de presente nas telas e livros, ocupou um local de destaque nos jornais e vida norte-americana desde os anos 60 com a infame seita de Charles Manson, a Família Manson.

A mentalidade dos seguidores de cultos não é nada inédito na história. Ela já foi estudada por diversos profissionais. A primeira tentativa de explicação foi de Sigmund Freud. Para o criador da psicanálise, pessoas se identificavam com líderes não pelas suas qualidades em si, mas como se eles fossem alguém do seu passado, como, por exemplo, um pai. Esse ato de transferir as características de alguém do passado com esse tal líder Freud chamou de transferência. É possível ver indicações disso na Família Manson, na qual os seguidores, em maior parte jovens e mulheres, revelaram que estavam apaixonadas ou sentiam algum tipo de amor pelo seu líder, Charles Manson.

No cinema, essa realidade foi explorada de diversas formas, desde Gunga Din, até O Bebê de Rosemary (1968) e  filmes mais recentes como Era Uma Vez em… Hollywood (2019) e Hereditário (2018), estando presente, principalmente em filmes de terror, suspense e horror. Nos últimos anos, percebe-se um maior interesse da cultura popular com o assunto, tendo, desde 2018, uma crescente quantidade de filmes onde o tópico de seitas está em evidência. Embora retratado por diversos roteiristas e diretores ao longo dos anos, o tema parece nunca sair de moda e, o que antes era mais policiado, com o tempo expandiu horizontes e conseguiu se manter relevante, mesmo depois de quase 70 anos desde a primeira vez que foi retratado nas telonas.

 

Seitas em filmes

Líder da comunidade em Midsommar. [Imagem: Merie Weismiller Wallace/A24]

No geral, as seitas são retratadas quase como algo místico. Não surpreendentemente, já que, em muitas ocasiões, cultos são relacionados com religiões. As retratações desse tópico, exaustivamente explorado por diretores em diversas obras, apresentam similaridades, como o sinistro, que é visto majoritariamente em filmes de terror ou suspense propositalmente desenhados e projetados para nos deixar amedrontados sobre como cultos possam transformar pessoas.

Nos filmes analisados em seguida, pode-se notar um padrão além do místico. Os integrantes dessas histórias fictícias, mesmo que baseadas em histórias reais, são retratados como pessoas excêntricas, diferentes e até mesmo loucas. Eles exercem o papel do antagonista, são exagerados e demonizados.  +

 

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019)

Comunidade em Midsommar. [Imagem: Csaba Aknay/A24]

Neste filme, é clara  a ligação seita-religião. Ele aborda um culto sueco que tem sua funcionalidade em uma pequena vila, com uma religião própria, e extremamente distante do resto da civilização como conhecemos ou qualquer uma de fato. A habilidade de se localizar em um vilarejo, remetendo à outros grupos do tipo como os Amish dos Estados Unidos e Canadá ― famosos por viverem em vilarejos fechados sem muito contato com o exterior e extremamente religiosos ― soma-se ao suspense do místico e o distancia ainda mais do comum.

O grupo fictício e o real, no entanto, divergem no âmbito religioso ― a encontrada no filme, Hårga, é mais similar com a antiga religião nórdica nos seus elementos ― e também nos rituais, como na participação de estrangeiros para a sobrevivência do vilarejo.

O estranhamento desse estilo de vida se dá como algo fascinante, tanto para os telespectadores, como para os estrangeiros visitando aquela cultura. Estranhamento que, embora fascinante, adota rápido e facilmente aspectos do sinistro ao envolver assuntos vistos como tabu pela sociedade ocidental e grotescos em muitos de seus aspectos.

Nesse sentido, para a composição da seita principal da obra, o diretor, Ari Aster, introduz uma perspectiva refrescante ao colocar três estudantes de antropologia no centro da trama, introduzindo, ali mesmo na tela, crítica sobre o culto. A perspectiva dos três jovens permite não cair no clichê de considerar tudo como bruxaria ou satânico. Em obras do gênero, tal oportunidade, de entender a cultura do antagonista não é comum, já que em Hollywood a determinação clara e objetiva de bem versus mal foi por muito tempo obrigatória e só recentemente, flexibilizada.

 

Era Uma Vez em… Hollywood (2019)

A Família Manson em Era uma vez… Em Hollywood. [Imagem: Andrew Cooper – Sony Pictures Entertainment]

O culto retratado no filme de Quentin Tarantino se baseia na seita de Charles Manson. A Família Manson de Era Uma Vez em… Hollywood, principal antagonista da obra, diverge em alguns aspectos da seita da vida real e, assim, do caráter místico antes apresentado.

Quando falamos da inspiração original, o motivo em que a seita ganhou tantos seguidores foi o de acreditar que o seu líder, Charles Manson, seria a reencarnação de Jesus e, portanto, estaria na terra para salvar a humanidade e os guiar para a vida eterna. Essa referência religiosa não se encontra no filme até o terceiro ato com a fala de Tex ― principal antagonista que foi baseado no braço direito de Charles Manson da vida real ― ao citar o diabo.

No entanto, a perspectiva de culto estabelecida por Tarantino apresenta um ponto de vista mais real, embora glamourizado. A simplicidade dos membros e suas personalidades dão aos antagonistas uma versão mais humana, multidimensional. Ele não adota elementos de tabu ou do sinistro, mas se baseia na excentricidade dos próprios participantes da seita ― notoriamente similar com os participantes da seita original vistos em diversas entrevistas ao longo dos anos.

A distância aqui entre os vilões e o comum, os membros de uma família assassina e jovens hipsters dos anos 60, é consideravelmente mais curta do que antes visto no cinema com filmes sobre o tópico. Essa curta distância entre o comum e o místico desmembra as crenças sobre participantes de culto terem uma identidade distinta de qualquer outra pessoa.

No início do filme, quando conhecemos uma das filhas de Manson ― como eram chamadas as integrantes da seita ―, não suspeitamos da sua real identidade a menos que conheçamos a história original. Ela aparenta ser, tanto para Cliff Both (Brad Pitt), quanto para os telespectadores, qualquer garota.

 

O Bebê de Rosemary (1968)

Vizinhos de Rosemary em O Bebê de Rosemary. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Um dos clássicos filmes de terror e também um dos primeiros marcantes ao apresentar o assunto, O Bebê de Rosemary foi também um dos primeiros a introduzir o sinistro de maneira tão forte no cinema. Até então um tabu, o filme ousou em falar sobre o demônio e, mais que isso, o fez ao apresentar uma seita de bruxas que planeja o nascimento do Filho das Trevas.

Mais do que nos outros filmes mencionados, a característica do místico se demonstra presente e em peso na trama. A questão sobrenatural é o enfoque do filme e a seita de bruxas é meramente utilizado como um elemento do roteiro para realizar a progressão da história. A escolha desse elemento, no entanto, nos revela mais uma vez a visão de Hollywood quanto o assunto. O interessante nessa versão é a sua origem de um livro do autor Ira Levin, que mais tarde foi adaptado para as telonas pelo diretor Roman Polanski.

Não fugindo dos moldes hollywoodianos, principalmente pela sua época de lançamento, vemos a seita estritamente retratada como o mal, uma antagonista distante de características humanizadoras, até mesmo pelos seus integrantes não serem humanos, mas bruxas.

O distanciamento do fictício e do real nesse caso se dá em quilômetros. Quanto mais distante, mais se apresenta a questão do elemento fático, que é escolhido pelo autor puramente para questão de choque.

 

Hereditário (2018)

Steve pegando fogo. [Imagem: Reid Chavis/A24]

Do mesmo diretor de Midsommar, Hereditário proporciona uma narrativa típica do gênero terror de uma forma inovadora, apresentando o sobrenatural com aspectos da vida familiar cotidiana, tornando a ideia do enredo mais próxima do real, o filme atinge isso ao apresentar uma relação orgânica entre os personagens, trazendo dimensionalidade, um fator facilmente ignorado por diversas obras do gênero.

A temática de seitas não é introduzida de forma gritante desde o início da obra, são pequenos elementos cinematográficos, os símbolos, livros e fotos, que guiam o telespectador para essa conclusão.

Diferentemente dos anteriores, em Hereditário, o elemento seita é utilizado como conclusão do enredo, sendo somente evidenciado no terceiro ato. O jeito como essa seita é retratada se diferencia, até mesmo, do seu segundo filme, Midsommar: O Mal Não Espera a Noite. Aqui ela é introduzida como algo muito mais natural, como uma tradição familiar mantida em segredo.

No longa, Hollywood se aproveita mais uma vez do link com a religião e o explora para a apresentação do objeto de narrativa. Além disso, a trama sugere até mesmo ligações com o psiquiátrico, contando o histórico de doenças na família principal, Graham, e justificando todos os elementos até então apresentados da avó falecida como resultado de suas doenças psiquiátricas.

A seita é introduzida na narrativa de forma detalhada, sutil e progressiva. Não há uma sensação de improvisação ou aleatoriedade, muito menos a impressão de um recurso barato e fácil para a explicação dos acontecimentos. Na trama, o uso da seita se dá como o encaixe perfeito da última peça do quebra-cabeça.

O enredo se passa com uma típica família norte-americana de classe média: com um filho mais velho que frequenta o ensino médio, quer ir em festas como outro qualquer adolescente e é desajeitado em frente da sua crush; com uma filha mais nova que ainda está passando pela sua fase esquisita; uma mãe que faria de tudo pelos filhos; e um pai que tenta segurar toda a família junta.

Por isso, Hereditário, poderia facilmente, com apenas alguns ajustes, se passar por um drama familiar. É essa característica que traz a narrativa para perto do telespectador e, por consequente, traz a seita para uma realidade mais próxima do que é.

Não há glamorização ou demonização desse elemento. Na verdade, o que passa na tela são as consequências desse elemento sobre uma família, similar com o que acontece em Era Uma Vez… Em Hollywood. Essa aproximação com o real, no entanto, não desperta um entendimento maior pelo vilão da obra. Por mais que se diferencie nesse aspecto dos filmes clássicos hollywoodianos, a separação do bem e do mal ainda é nítida.

Essa retratação do tópico pelo mesmo diretor e roteirista, portanto, tem diferença não só na execução de apresentação como também no jeito em que é abordado.

 

A cultura popular e o interesse por seitas

“A Fazenda”, seita em Riverdale. [Imagem: Brendan Uegama/CW]

Assim como quase tudo em Hollywood, existe uma fórmula pronta para a abordagem do assunto. Com tantos filmes sobre um mesmo tópico é inevitável que elementos se repitam. Nesse caso, essa fórmula parece ser passada de diretor para diretor, sofrendo certas adaptações ao longo dos anos e de acordo com a abertura da sociedade para o sinistro e grotesco. Os filmes apresentam o tema como algo batido, tirado de letra, esperado por qualquer ávido telespectador de filmes de terror ou suspense. No entanto, essa fórmula parece se repetir por funcionar.

Ano após ano, década após década, o assunto se demonstra relevante na cultura popular ― ou pop culture para os americanos ― e atrai uma massa de fãs. Com poucas exceções, os filmes se mantêm os mesmos, não procurando realmente veracidade, mas um fator de choque, um elemento intrigante e fascinante, real o suficiente para interessar as massas e místico o suficiente para despertar curiosidade.

Não há intenção em retratar esses personagens como multidimensionais ou lhes dar qualquer elemento empático, tão pouco há intenção de retratá-los como são originalmente. Seitas, assim como bruxas, lobisomens, vampiros e fadas fazem parte da área sobrenatural do cinema.

A obsessão por tal elemento se dá de forma curiosa, assim como a cultura popular se manteve obcecada por vampiros e lobisomens no final dos anos 2000 com o lançamento da saga Crepúsculo, ou por bruxos ao longo dos anos 1990 e 2000 com a saga Harry Potter, as obsessões vem e vão. Recentemente, o tema de seitas esteve muito presente em Hollywood, o que pode ser visto nos exemplos abordados no texto de filmes com grande bilheteria e engajamento  e também no papel de destaque que ocupou em séries populares como Riverdale (2018-2019) e American Horror Story (2017).

A cultura popular se tornou uma forma de engajamento e substituiu as antigas tribos. Hoje em dia, as pessoas estão divididas em fandoms ― fãs de determinada coisa. A necessidade humana de socializar se adaptou com os inventos tecnológicos e segue o que está na moda: seja a alta demanda por um tópico como vampiros ou bruxos, ou assuntos mais específicos como determinadas franquias.

As obsessões da cultura popular  se constituem  gradualmente, se posicionam em evidência e mudam a cada década ou a cada cinco anos. Porém, as seitas integram questões místicas ― comumente abraçadas pelos fandoms, como os vampiros ― e, ainda, um critério mais real, com teor policial. Este já se mantém em alta por décadas com séries como CSI, NCIS, Criminal Minds, Bones, além de filmes do mesmo gênero. As histórias policiais influenciam envolvendo as seitas em crimes de extrema bizarrice. Esses fatores, distantes da realidade da maioria, geram um encantamento e curiosidade, uma demanda para a contínua retratação de tais histórias nas telas.

*Capa: [Imagem: Reprodução/A24 – Reid Chavis]

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