Home Na Estante A aventura de ler as desventuras dos jovens Baudelaire
A aventura de ler as desventuras dos jovens Baudelaire
Na Estante
09 jan 2015 | Por Jornalismo Júnior

Recentemente, a notícia de que a saga de livros “Desventuras em Série” de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler) será adaptada para uma série pela Netflix deixou os fãs em polvorosa. Os três primeiros livros já haviam tido sua versão cinematográfica em 2004, estrelando Jim Carrey no papel do temível Conde Olaf, mas muitos dos leitores ficaram um tanto insatisfeitos com a adaptação, considerando-a simplificada demais.

Dessa vez, porém, eles podem esperar algo um pouco mais fiel à obra, já que o autor, Daniel Handler, será produtor executivo ajudando a Netflix e a Paramount Television  – braço da produtora Paramount que promoveu o filme anteriormente – a trazerem vida para o conto dos três irmãos órfãs, os Baudelaire, e sua fuga incessante do asqueroso Conde Olaf.

A saga é constituída de 13 livros, cada livro contendo 13 capítulos. Tudo para reforçar o azar e infortúnio com os quais os protagonistas foram “presenteados”. Seu autor, Lemony Snicket, é um homem misterioso e infeliz, que vive tentando nos convencer a parar de ler a história de vida dos Baudelaire e “arranjar algo que nos traga mais felicidade”. Seu tom é sempre trágico e dramático, mas muitas vezes carregado de humor negro e ironia, o que torna a leitura muito singular e, apesar de tudo, divertida.

O verdadeiro homem por trás de Lemony Snicket é o americano Daniel Handler. Ele começou a escrever sob o pseudônimo em 1998 e à medida que contava a história dos orfãos, também criava toda uma personalidade e biografia própria para ele. Muitas vezes Snicket, mesmo sendo narrador, acaba, de um meio ou de outro, se tornando parte da história também. E isso, além de muitos outros aspectos, torna os livros ainda mais instigantes, já que tentar desvendar quem é Lemony Snicket passa a ser um dos passatempos favoritos dos fãs da saga. Tentar decifrar suas dedicatórias mórbidas a uma misteriosa Beatrice, assim como tentar ler as mensagens subliminares das cartas que ele manda ao editor, sempre colocadas no final de cada volume, são parte da experiência que é ler “Desventuras em Série”.

Foto: Reprodução

O primeiro livro, “Mau Começo”, nos apresenta a Violet, Klaus e Sunny Baudelaire, três irmãos muito inteligentes e bondosos que um dia estavam na praia e descobriram que seus pais morreram em um misterioso incêndio que destruiu toda a mansão em que viviam. A partir daí, o banqueiro Sr. Poe, que cuida da fortuna herdada pelos irmãos, os encaminha para um tutor, também misterioso e longíquo, chamado Conde Olaf. Olaf se revela, desde a primeira aparição, como um sujeito medonho, nojento e principalmente malvado. Ele é  um ator fracassado que tem uma tatuagem esquisita de um olho no tornozelo esquerdo. Os irmãos, então, são forçados a fazer tarefas horrendas como limpar a casa imunda do novo tutor, fazer um jantar improvisado que envolve macarrão à Putanesca para a trupe de teatro dele (que é igualmente horrenda e desprezível) e dormir apertados no sotão.  Obviamente que o conde, toda vez que se vê sob as vistas do Sr. Poe ou de qualquer outro adulto mais decente, põe suas habilidades de atuação em prática e age como se amasse as pobres crianças, mesmo elas protestando e implorando que ele apenas quer sua fortuna, e que, na primeira oportunidade que tiver de botar as mãos nela, arranjará uma forma de livrar-se deles. Para horror do leitor é claro que o restante do mundo nunca acredita nos irmãos Baudelaire , apesar de estarem dizendo a verdade, e por isso eles tem que escapar por si mesmos dos planos malignos que o conde arma.

Foto: Reprodução

A “nerdice” dos protagonistas, sua inteligência, peculiaridade e brilhantismo os torna únicos e cativantes. Violet começa os livros com 14 anos de idade,  sendo uma exímia inventora. Sempre que ela se bota a pensar em alguma engenhoca nova, prende seus cabelos para trás com uma fita que carrega consigo. Klaus tem 12 anos e é um voraz leitor. Já leu todos os tipos de livros imagináveis que podiam estar na biblioteca da mansão. Usa um óculos de lentes grossas pelo constante uso da vista. Sunny é a mais nova, com apenas três anos. Sua habilidade se revela na capacidade de morder quase qualquer coisa. Ela ajuda os irmãos em tudo que pode e fala em uma linguagem que apenas os outros dois conseguem compreender. A fome de conhecimento e a nobreza de espírito dos três é o que os salva do perigo na maior parte dos casos.

Durante os livros, vemos os irmãos fugirem da constante perseguição do Conde Olaf, que muitas vezes se disfarça para poder pegar os três e adquirir, de alguma forma escusa, a herança gigantesca deles. Os Baudelaire passam por internatos infernais, shows de horrores miseráveis, lagos infestados de sanguessugas entre outros lugares desprezíveis. Enfrentando não só Olaf como também adultos intolerantes e ignorantes e algumas crianças más e mimadas. Porém, em seu caminhar, Violet, Klaus e Sunny também acham amigos e pessoas boas que as ensinam muito sobre seus pais e uma misteriosa organização que parece ter a ver com todos os infortúnios que as antigiram.

Se você realmente quiser encarar a (não tão) penosa leitura de “Desventuras em Série” fique atento a algumas coisas interessantes da saga. Se você perceber, alguns dos nomes foram inspirados em autores reais, autores não muito chegados a assuntos felizes… O sobrenome dos órfãos vem de Charles Baudelaire, o poeta francês autor de “Flores do Mal”, e o banqueiro responsável por administrar o dinheiro deles enquanto Violet não atinge a maioridade tem seu nome inspirado em Edgar Allan Poe, escritor americano famoso pelas histórias macabras que contava. É interessante verificar também as ilustrações que vem antes e depois de cada volume. Muitas vezes a primeira traz um elemento que lembra o ponto onde a história anterior parou e a última algum elemento que serve de prévia para o que vamos encontrar no próximo livro.

Foto: Reprodução

“Desventuras em Série” é uma das histórias que marcou uma geração. Uma série com personagens engraçados, inteligentes, fascinantes, mesquinhos, desprezíveis e estranhos, lugares terríveis e desoladores, e situações complexas, misteriosas e miseráveis estão por vir. Apesar do que Lemony Snicket te dirá, e ele te dirá com toda certeza que não vale a pena perder tempo com algo tão horrível e desafortunado, ler (e no futuro assistir) a saga de Violet, Klaus e Sunny pode ser muito recompensador e marcante. Os Baudelaire ensinam como a boa vontade, que o conhecimento e o amor podem trazer o bem até nas piores situações.

Por Júlio Viana
julio.soaresv@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*