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A imersão audiovisual da Nomade Orquestra no Belas Artes
Eu Fui
21 nov 2017 | Por Jornalismo Júnior

A proposta de assistir a uma apresentação musical em uma sala de cinema pode ou estranhar numa primeira impressão, ou despertar curiosidade. A experiência oferecida ela Nomade Orquestra no último final de semana no Caixa Belas Artes utilizou esse fator como impulso para levar sua música a outro nível.

Composto por dez integrantes com uma ampla gama de instrumentos (que englobam saxofone, trompete, flauta, bateria, teclado e guitarra, dentre alguns outros), o grupo originário do ABC paulista provou que a sua construção musical está longe de ser uma simples apresentação. É, de fato, auxiliada por tudo o que a acompanha, desde as projeções na tela do cinema até pela presença mínima de iluminação.

A falta de luz pode ser atrelada ao fato de uma sala de cinema não possuir a mesma estrutura do que uma casa de shows, por exemplo, mas isso se tornou um complemento para criar um ambiente de conforto e incógnita ao mesmo tempo. Iluminado inicialmente por apenas um abajur e as projeções ao fundo, o encontro teve seus momentos atrelados não apenas ao inventivo som da banda, mas a tudo aquilo que acontecia ao seu redor.

Classificada como uma “fusão-experimental” pelo jornal britânico The Guardian, as melodias puramente instrumentais do grupo se juntam para criar sonoridades que recebem influência de jazz, ritmos africanos e asiáticos, música eletrônica, blues e muitos outros gêneros que podem ser inseridos à mistura. Por vezes, foram utilizados pequenos trechos verbais de músicas  para complementar o instrumental. A amplitude de instrumentos foi variada e sua troca era rápida: se o espectador olhasse ao fundo, muitas vezes poderia reparar em um dos meninos responsável pelos instrumentos de sopro indo de uma flauta a uma harmônica, por exemplo.

As músicas eram monumentais: com um pequeno intervalo entre uma e outra, parecendo quase uma progressão, se construíam de forma orgânica, às vezes mantendo uma certa continuidade ou sofrendo mudanças rápidas e términos bruscos. A apresentação também teve seus  momentos mais delicados, como o sutil uso de sintetizadores ao fundo complementados pelo teclado com sonoridade de órgão. Outro ponto de destaque está no fato de que, apesar de todos os instrumentos se complementarem e isso favorecer uma sonoridade completa e rica, haviam momentos em que cada um deles se destacava e dava uma certa força à composição que estava sendo tocada.

Os de sopro, como sax e trompete, ajudavam a trazer uma ambientação de jazz ou funk/blues à medida que na próxima música eram a guitarra e o baixo que faziam  uma transição para um som muito mais agudo e ácido, remetendo a um rock psicodélico e de cunho mais experimental.

O aspecto Nômade do nome se torna evidente ao comprovarmos a imensa quantidade de influências que a banda demonstra em palco, algo destacado pelo seu próprio baixista: “A gente veio mostrar um pouco de tudo o que a gente acumulou ao longo das nossas viagens.” A apresentação, muito mais do que uma coletânea de músicas, parecia ser uma coletânea de experiências e, ao mesmo tempo, uma viagem pelo mundo com agregados muito diversos.

Ao mesmo tempo, a riqueza visual das projeções não era puramente estética, apesar de extremamente cativantes. Animações muito antigas, guerra de fósforos em stop-motion da União Soviética, uma viagem em uma máquina espacial fizeram parte não apenas de uma construção de ambientação, mas também de uma crítica por trás de cada progressão: “Nós queremos contar uma história com as imagens que passam aqui”. As histórias eram várias: a construção e quebra de um amor, a crítica à avareza e cobiça ou às discussões baseadas no alarde sem nexo.

Nesse sentido, o fato de ocorrer em uma sala de cinema enalteceu as projeções, muitas vezes sendo quase impossível tirar os olhos da tela. As músicas pareciam um complemento dos visuais, representando uma possível trilha sonora para cada uma das imagens apresentadas. Por isso, o show não era apenas uma compilação de melodias, e sim uma imersão completa em ritmos diferentes, ganhando vida graças ao complemento visual.

Os presentes em palco não foram apenas os músicos. A iluminação, por exemplo, foi favorecida com a chegada de uma figura iluminada pelas luzes grudadas à sua cabeça e mãos, que se encarregou de passar por instrumentos específicos e por iluminar espectadores. Em outro momento, uma representação, que poderia ser associada a uma figura étnica mascarada se encarregou não apenas de complementar com movimentos a música que se desenvolvia, mas também por proferir um potente discurso com críticas à construção política e ao contexto de instabilidade atual.

A ideia de nômade pode ser um grande fortalecedor da diversidade da banda, seja pela sua grande riqueza sonora ou pela sua envolvente estética, mas o grupo com certeza não passa por algum palco sem deixar suas raízes. A banda segue em frente, mas sua marca permanece.

Por Daniel Medina
danieltmedina@gmail.com

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