Home Descobrir Cinema A narrativa do fim do mundo: por que a destruição fascina tanto o cinema?
A narrativa do fim do mundo: por que a destruição fascina tanto o cinema?

A destruição da humanidade é um tema recorrente nas produções cinematográficas como meio de abordar temas sérios de forma que venha a entreter os espectadores

CINÉFILOS
11 set 2021 | Por Patrick Fuentes (patyfuentes@usp.br)

Um evento de proporção e capacidade de destruição épica está prestes a acontecer. A humanidade, permeada pelo caos causado pelo risco do fim do mundo, passa a caçar maneiras de sobreviver. Vemos, durante a narrativa, o protagonista vagando por um mundo onde todos os valores, frente ao apocalipse, mudaram, revelando as mais diversas faces dos vícios e virtudes que tal cenário pode criar. Essa é a base de qualquer filme de catástrofe, cujo roteiro se propõe a destruir o mundo. Mas por que esses conceitos apocalípticos fascinam tanto o mundo do cinema e o público?

“A atração pelas mazelas do ser humano é algo que atravessa a história da ficção”, contou ao Cinéfilos Daniel Augusto, diretor de cinema e televisão, doutor em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “Por isso que não gostamos de ver um assassinato na vida real, mas gostamos de ver um na ficção, por exemplo”, ele completa. Considerado o primeiro filme do gênero apocalíptico, Verdens Undergang (1916) — ou o fim do mundo, em livre tradução do dinamarquês — é o primeiro filme que pode ser catalogado como sobre o final do mundo. O filme é sobre um casal que tenta sobreviver ao impacto iminente de um meteoro em uma sociedade que entra rapidamente em espiral de caos e medo. 

A estreia desse filme, lançado há mais de um século, deu-se apenas 20 anos após a criação do cinema pelos irmãos Lumière, em 1895, em um período onde o cinema ainda era algo difícil de se produzir, o que representa a velocidade com que esse tipo de narrativa surgiu no novo meio narrativo. 

 

Ciclo da destruição em filmes apocalípticos

Para Daniel, essa temática de destruição está bastante presente, principalmente no ocidente, por conta da influência cristã em grande parte do imaginário. Dentro da narrativa cristã, tudo tem sua finalidade, até mesmo a destruição, uma vez que ela abrirá caminho para um novo começo de paz e prosperidade. O diretor destaca que “quando você tem uma leitura da História, alguns socialistas e comunistas colocam que você vai ter uma grande destruição pela revolução para chegar ao paraíso sobre a terra”.

Essa narrativa de um recomeço após a destruição pode ser vista na divisão que esses filmes assumem: Pré-apocalípticos e pós-apocalípticos, sendo que no primeiro a destruição acontece durante o desenrolar do filme, como em 2012 (2009), e o último a destruição aconteceu fora das telas e acompanhamos somente as consequências do final do mundo, como em Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). Em ambos os tipos, é possível notar a destruição do mundo e um novo recomeço esperançoso. “Quando falamos de destruição geral, é que para todo começo acontecer, você primeiro tem que destruir tudo que vem antes, porque esse discurso de recomeço de mudança mede uma nova humanidade, que tem um novo futuro”, comenta o diretor.

 

Em um dos cenários apocalípticos, meio a um deserto alaranjado, um homem fica de pé ao lado de um carro velho cinzento e destruído

Uma guerra nuclear transformou o mundo em um deserto onde Max vaga com seu V8 Interceptor. [Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures]

No caso dos pré-apocalípticos, o mundo é visto em sua normalidade, numa rotina que o público se relaciona por similaridades que tem com a dele. Então, ocorre um momento de ruptura, o desastre de proporções inimagináveis, que faz com que todas as estruturas sociais sejam colocadas de lado ou à prova. Depois de diversas tentativas de achar abrigo, os personagens principais acabam sobrevivendo ao final dos tempos, num cenário onde muitos morreram, porém que abre as portas para um recomeço. 

No caso dos pós-apocalípticos, temos os mesmos fatores em uma ordem diferente. A destruição acontece antes do começo do filme e o público encontra um mundo onde as estruturas sociais estão deixadas de lado. Os protagonistas geralmente só tentam sobreviver sem atrair nenhuma atenção. O conflito no centro desses filmes fazem com que o protagonista quebre sua rotina e se envolva no conflito. No final, o protagonista acaba percebendo que apesar da destruição ainda há espaço para esperança se todos trabalharem juntos. 

Em ambos os casos, a linha narrativa faz com que os personagens acabem achando algum tipo de esperança no final, apelando para os elos pessoais como forma de superar cenários desoladores. A maneira de superar as consequências das destruições é através da construção de uma nova humanidade que traz consigo os erros da anterior a ela. O conflito, seja ele no pré ou pós-apocalíptico, é um meio para que essa conclusão seja alcançada. Essa conclusão da maioria das narrativas escatológicas é interessante pois coloca em perspectiva o motivo do conflito, a alegoria que o filme escolhe como o desafio que os protagonistas e, por consequência, a humanidade devem encarar para que haja um novo começo. 

Um exemplo disso é o personagem Godzilla, que, em sua primeira aparição, no filme de 1954 que leva seu nome, era um símbolo para a destruição nuclear trazida pelas bombas atômicas e o medo dos testes nucleares que ocorriam perto do arquipélago japonês durante a Guerra Fria. Nos novos filmes do lagarto gigante, por mais que os poderes deles ainda sejam ligados à energia nuclear, a alegoria deslocou-se para uma mensagem ambiental, para o superaquecimento global. Em um intervalo de 60 anos entre o filme original e o remake, o papel alegórico do Godzilla mudou, porque os riscos de desastre mudaram durante esse tempo. Contudo a mensagem que ainda dá tempo para a humanidade forças para impedir a catástrofe antes que ela seja imparável continua a mesma.

 

Em Godzilla, filme em preto e branco, um lagarto gigante causa destruição na cidade e se aproxima de uma ponte sobre água.

Em sua primeira aparição, Godzilla já deixa claro a ameaça que o rei dos monstros representa. [Imagem: Divulgação/Toho Studios]

Realidade vs Ficção

Em 1983, o filme de O Dia Seguinte (The Day After,1983) foi exibido pela primeira vez nos Estados Unidos, pela emissora ABC. A premissa dele é bem simples: como seria um cenário pós-guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. O cenário de destruição resultado da guerra é algo que não é glorificado ou que parece ter vencedores. Tudo que há é um país destruído e uma população que tenta sobreviver, agarrando-se a algum senso de normalidade que lhe é negado. 

O filme teve um impacto muito forte na perspectiva que a população americana tinha sobre armas nucleares. Sua primeira exibição está em 16º lugar na lista de maiores audiências da TV americana. O alcance que o filme teve foi tão grande que o presidente americano Ronald Reagan, tanto em seu diário pessoal quanto em sua autobiografia, cita o filme como uma das influências para repensar o tripé nuclear americano. 

O Dia Seguinte é um filme que rompe com a estrutura narrativa dos filmes apocalípticos por não oferecer um final com algum grau de esperança. Ele termina com uma terra devastada e uma população que sofrerá a consequência da radiação. O filme retrata da maneira mais fiel possível a consequência de um conflito nuclear. Enquanto a maioria desses filmes  fecham o ciclo da destruição dentro de sua narrativa, o longa termina com tudo em pedaços. Não há recomeços. 

 

Uma estrada cheia de carros acidentados e uma grande explosão ao fundo em formato de cogumelo.

O Dia Seguinte começa seu segundo ato com uma explosão. [Imagem: Divulgação/ABC Circle Films e ABC Motion Pictures]

Para Daniel, o público está acostumado com o conceito de distopia, principalmente após a conclusão da Segunda Guerra Mundial e os bombardeios de Nagasaki e Hiroshima. Essa concepção da bomba atômica trouxe a possibilidade de destruição em massa como uma ameaça concreta para a humanidade. A Guerra Fria poderia ser simplificada como uma corrida armamentista cujo os participantes poderiam destruir o mundo algumas dezenas de vezes se quisessem. Segundo ele, “não vivemos mais pensando no futuro, numa utopia, um lugar lá no futuro que todos viveriam melhor, mas vivemos muito mais uma prorrogação, quanto tempo será que conseguimos prolongar esse tempo do mundo?”.

Daniel destaca o poder de intermédio que as narrativas têm sobre o público. Como meio, a ficção consegue fazer com que essas alegorias consigam alcançar um público muito maior e que geralmente não iria atrás de um documentário sobre o assunto, por exemplo. O filme, portanto, possui, naturalmente, uma amplitude e orçamentos que superam o da maioria dos documentários, isso tirando a campanha de marketing para sua promoção. Por outro lado, documentários raramente possuem um circuito de exibição, orçamentos inflados e campanhas de marketing. “As pessoas gostam de ouvir histórias, ouvir narrativas de ficção e também acho que existe um costume a isso”, afirma o diretor. E conclui: “ a arte, em geral, uma parte dela, pelo menos, desempenha essa função de pensar e imaginar aquilo que há no nosso mundo de bom e de ruim”.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*