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A odisseia do Ultraman
ARQUIBANCADA
23 nov 2018 | Por Arquibancada

Por Maria Eduarda Nogueira

O Ultraman é, antes de tudo, uma prova de espírito. Sediada na ilha do Havaí pela primeira vez em 1983, a competição pode ser considerada como uma “odisseia atlética de redescoberta pessoal”, dizem os próprios organizadores do evento. Uma jornada, de fato. A prova tem três dias, totalizando dez quilômetros na natação, 421 quilômetros de bike e 84,4 quilômetros de corrida.

A prova tem forte conexão com a própria cultura do Havaí, por ser baseada nos princípios Aloha (amor), Ohana (família) e Kokua (ajuda). Além disso, a ilha tem um vulcão ainda em atividade, o Kilauea. “A ilha inteira é cheia de mana (poder) do antigo povo havaiano”, declara Sheryl Cobb, uma das organizadoras. Para ela, a experiência de fazer a prova num lugar tão recheado de energias é capaz de mudar a vida dos participantes. “É poderoso!”

O processo de seleção começa em fevereiro. Para fazer a prova, é preciso ser convidado. “O fato das pessoas serem convidadas ajuda a fortalecer os princípios de Aloha, Ohana e Kokua”, esclarece Sheryl. O exclusivo grupo de 40 participantes é selecionado segundo critérios de prioridade. Preferencialmente, atletas que tenham feito alguma prova da marca Ultraman. Em seguida, atletas que tenham participado como voluntários na organização do evento.

Por último, caso os 40 lugares não tenham sido preenchidos, são aceitas as inscrições daqueles que nunca tiveram participação no Ultraman. É imprescindível que todos tenham participado de uma ultramaratona nos últimos 18 meses.

Esse grupo de participantes é bastante seleto por dois motivos principais, explica a organizadora. A ilha do Havaí não consegue sustentar um grande número de pessoas, visto que cada atleta precisa de uma equipe, com acomodações e carros para acompanhamento durante a prova. Mesmo com apenas 40 atletas, a ilha já é sobrecarregada e sofre com insuficiência de acomodações.

Além disso, outro motivo é que o pequeno número de participantes permite que a competição seja mais íntima e divertida. A possibilidade de conhecer todos os atletas e membros de suas equipes por vezes resulta em amizades que duram todo uma vida, comenta Sheryl.

Essa “odisseia atlética” exige muita preparação e resistência. Marco Gimenes, finisher do Campeonato Sul-Americano de Triathlon de Ultra Distância (UB515) em 2018, relata que se preparou durante cinco meses para a prova. “Eu já tinha uma carga alta de treinos antes, mas fomos subindo o volume aos poucos.” O atleta treinava diariamente, totalizando uma carga de 16 a 20 horas semanais. A duas semanas da prova, os treinos passaram a ocupar um pouco mais do que isso. É possível também participar de competições ‒ maratonas, provas de triathlon, maratonas aquáticas ‒ como parte do treinamento.

Um dos principais desafios da prova é justamente conciliar a numerosa quantidade de treinos com as outras esferas da vida. A nutricionista Carla Bogéa aponta que é preciso “conciliar a vida profissional, a vida familiar e a rotina de treino, porque é um volume muito alto com intensidade alta também. Ao mesmo tempo, é preciso dar conta do descanso, do sono e da alimentação.” Marco conta que não parou de trabalhar em momento nenhum e, em meio à loucura da preparação, precisava dar conta de sua vida social.

O atleta que participa do Ultraman geralmente já é ativo no mundo do triathlon e dos esportes, relata o ortopedista Sérgio Maurício. É preciso amadurecimento tanto físico como mental para uma prova de endurance ‒ termo usado para definir provas de resistência. Marco confirma esse comportamento, visto que pratica esportes desde a época do colégio. Ele fez seu primeiro Ironman (prova com menor distância que o Ultra) em 2009 e, desde então, já realizou doze dessas competições, incluindo quatro no mundial do Havaí ‒ a edição mais prestigiada.

 

Tornando-se um Ultraman

O preparo não se resume aos treinos diários. O acompanhamento de médicos e nutricionistas é essencial para prevenir e tratar lesões. Muitas vezes, o ortopedista trabalha em cima dos fatores de risco de cada caso. Por exemplo, se o paciente já tiver histórico de lesão no joelho, essa área é observada com mais cuidado, a fim de evitar acidentes antes e durante a prova. O primeiro passo é avaliar o estado físico do atleta, através de exames ortopédicos e cardiovasculares.

Além dos treinos tradicionais de natação, corrida e ciclismo, também é necessário o fortalecimento muscular. Pode ser feito no pilates, na academia ou no treinamento funcional, que utiliza majoritariamente o peso do próprio corpo para realização dos exercícios. “Serve como prevenção, uma vez que o atleta, quando faz treinamento de força, aumenta sua resistência muscular.” Isso ajuda também na postura corporal, melhorando a absorção de impacto. O atleta se cansa menos durante a prova e consegue realizá-la com maior maestria.

Outras técnicas de prevenção usadas são a fisioterapia e a massoterapia, tratamento terapêutico baseado em massagens. “Os treinos extenuantes acabam gerando contraturas musculares e rigidez por sobrecarga muscular. Um trabalho preventivo ajuda bastante o atleta a conseguir ter maior fluidez nos treinos”, explica Sérgio.

Uma medida controversa são as banheiras de água e gelo. Não há confirmação na literatura de que elas são efetivas na recuperação, mas, na prática, observa-se melhora do atleta. A liberação miofascial também foi uma técnica citada pelo ortopedista. “Ela reproduz parcialmente o efeito de uma massagem, a diferença é que a própria pessoa faz.” Durante os treinos de ciclismo, por exemplo, em que a pessoa fica sentada por muitas horas, a musculatura da coxa fica rígida e a liberação miofascial pode ajudar no relaxamento.

Os atletas não podem deixar as lesões se agravarem, caso aconteçam. O tratamento deve ter início imediato com objetivo de reduzir ao máximo as consequências negativas. O ortopedista ressalta, nesse ponto, a importância da equipe do atleta de Ultraman, que o assiste e acompanha durante todo o processo. Além de amigos e família, a equipe inclui técnicos, médicos, fisioterapeutas e nutricionistas. Nos dias da prova em si, há também a equipe de voluntários do evento, que pode oferecer suporte aos atletas.

O acompanhamento nutricional entra em cena logo no momento em que a pessoa decide competir. “Temos que conseguir dar energia o suficiente na época de treinamento para que o atleta possa executar todo o ciclo, que não é coisa fácil”, diz Carla. A dieta não é extremamente restrita. Recomenda-se uma grande quantidade de carboidratos e gordura de boa qualidade (boas fontes de energia) e proteínas (manutenção da massa muscular e das funções vitais).

Os danos oxidativos e as possíveis lesões também devem ser levados em consideração. Para que o atleta consiga se recuperar da melhor forma, é recomendada alimentação rica em antioxidantes ‒ frutas, verduras e legumes. O consumo exacerbado de álcool não é recomendado. Mas o consumo ocasional é permitido. “Não deixei de tomar minha cerveja, mas claro, não podia exagerar porque treinava todos os dias bem cedo”, relata Marco.

Durante os três dias de prova, a rotina alimentar é rígida. O profissional de nutrição exerce um papel fundamental, para garantir o bem-estar do atleta em todas as etapas. O café da manhã, que na verdade mais se assemelha a um café da madrugada ‒ a concentração começa às 5:15 da manhã! ‒, é de fundamental importância, explica Carla. Assim como a refeição pós-prova, que define se o atleta estará recuperado o suficiente para o dia seguinte.

No percurso em si, há todo um cronograma de alimentação. Por isso, é preciso que o nutricionista e o competidor estejam em sintonia e tenham certo nível de intimidade. “O atleta precisa consumir coisas práticas durante a prova, que forneçam energia o tempo todo”, explica Carla. Na etapa do ciclismo, prioriza-se os alimentos mais sólidos, pois o atleta fica sentado e não há tanto desconforto gástrico.

Apesar de necessários, os suplementos não devem ser ingeridos em excesso. “São três dias de competição. Se já começar a prova na base do suplemento, o atleta pode ter enjoo e dificuldade de aceitação”, diz a nutricionista. Marco relata que durante os treinos usava carboidratos em pó diluídos na água, carboidratos em gel, barras de proteína e repositor eletrolítico ‒ o mais famoso é o Gatorade. “Consumia também uma barra de cereal chamada PedalBar para mastigar alguma coisa.”

Após a odisseia do Ultraman, o repouso é essencial. Recomenda-se, no mínimo, uma semana de total repouso. Na segunda semana, a pessoa pode voltar aos poucos às suas atividades esportivas, preferencialmente aquelas que não causam tanto impacto. Após 15 dias, a corrida é reintroduzida. “Se o atleta quiser ficar duas semanas de repouso, não é nada de outro mundo também”, comenta Sérgio.

O caráter paradisíaco da ilha do Havaí deixa a prova um tanto quanto mais prazerosa. (Imagem: Júlia Maiorana)

O Brasil é um país de destaque no Ultraman, visto que o brasileiro Alexandre Ribeiro já ganhou seis vezes a competição. Sheryl também comenta que o triatlo é muito mais apreciado aqui do que nos Estados Unidos. Atualmente, existem provas de ultra distância no Brasil pertencente à marca Ultraman, mas ainda não há previsão se o evento poderia acontecer no país.

Por ser uma prova realmente de espírito, o Ultraman é recheado de emoções. Carla, que irá acompanhar um atleta na prova deste ano, comenta sobre a experiência: “Você abdica totalmente das suas necessidades. Você fica ali envolvido, trabalhando em função desses atletas e isso é muito empolgante. Você sente as dores e as angústias junto com ele.”

Quando perguntado sobre o que o motivou a fazer a prova, Marco relata: “O desafio de fazer algo que poucas pessoas tentam e que eu mesmo não sabia se conseguiria. Queria fazer uma prova que fosse honesta, onde regra é regra e pronto. Fazer algo que pudesse inspirar outras pessoas.”

Arquibancada
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