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A voz dos adolescentes nas séries pelas gerações
Controle Remoto
18 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Reprodução

Em um período de intensas transformações, a adolescência traduz uma das mais importantes e marcantes fases. Imersos em questionamentos e tabus, como sobre o primeiro amor, sexualidade, vida acadêmica e pessoal, qualquer situação de semelhança aos adolescentes traz um conforto por mostrar uma maneira sobre como lidar com diversos acontecimentos. Assim, entra o papel dos seriados adolescentes.

Mostrando a realidade da adolescência, as séries estão se tornando, cada vez mais, um elemento indispensável nessa fase de transição. Acompanhando gerações, os seriados se transformam e traduzem a maneira de abordar os temas no universo juvenil.

 

Pertencimento

O ensino médio é o principal meio em que as séries se desenvolvem. Formado por grupos, desde o dos populares até dos nerds, as tramas baseiam-se na existência de um grupo de amigos, normalmente pequeno, ilustrando os dramas de serem classificados pelos clubes.

O sentimento de não pertencimento acompanha a trajetória das séries, uma vez que é tão intensa na vida do adolescente. No entanto, a abordagem difere-se nas gerações. Os anos 1990 introduziram séries ainda imersas em tabus. Observa-se a abordagem trazendo conflitos principalmente entre os personagens principais. Enquanto tem-se uma comunicação muito forte entre família e adolescentes, tem-se a descoberta individual sobre o “ser adolescente”.

O beijo ainda é algo muito estigmatizado e romantizado. A dúvida sobre beijar bem permeia as telinhas, acompanhando o desenvolvimento do telespectador sob o mesmo questionamento. Treinar beijos, pedir conselhos aos pais, esperar a pessoa certa para realizá-lo configuram a vida do adolescente do final do século que, imanado em uma sociedade que não se discutia sobre sexualidade, tenta entender as transformações e os desejos internos. O cômico era muito utilizado nas relações como uma forma de ainda não se saber como abordar o tema, mas com o anseio de desmistificá-lo.

Dawson’s Creek, série de 1998, começa seu primeiro episódio com o questionamento dos melhores amigos Dawson Leery (James Van Der Beek) e Joey Potter (Katie Holmes) se a relação entre eles podia continuar, já que iniciariam o ensino médio e a amizade podia ser confundida com amor. Apesar das tentativas, a relação entre eles começa a se prejudicar por ciúmes. O tabu do relacionamento era um forte item para se desconstruir – apesar de ainda persistir nas séries atuais.

Uma cena marcante e, ao mesmo tempo cômica, é ilustrada quando Dawson pede conselho ao seu pai sobre como beijar. O pai o orienta, enquanto o filho pratica em uma boneca de plástico. Apesar de tabus permeando a família, ela era vista com grande zelo e confiança.

Retratando, mais uma vez, o ambiente familiar, pode-se dizer que Gilmore Girls é a série mais emblemática sobre o assunto. Lançada no ano 2000, a série conta a história de uma mãe solteira e de sua filha, ambas melhores amigas e confidentes. Já na virada do século, Gilmore Girls inova ao desmistificar a ideia de família perfeita. Lorelai Gilmore (Lauren Graham) é a personagem da mãe de Rory (Alexis Bledel) e é a representação da nova imagem de mulher que começa a surgir  nos anos 2000. Independente de marido, Lorelai administra seu próprio restaurante e é a responsável pela criação de Rory. A série ilustra a vida materna e o empoderamento feminino por trás da independência experimentada por Lorelai. É um novo século e o início de uma jornada para trazer uma nova maneira de enxergar as mulheres.

Gilmore Girls (Imagem: Reprodução)

 

Independência

Do ambiente familiar, o enfoque se desloca para a escola. A família passa a adquirir um segundo plano nas séries e os dramas escolares ganham notoriedade. Inicia-se um afastamento entre pais e filhos e introduz jovens cada vez mais independentes. The OC, iniciada em 2003, mostra tal transição não pela família principal, os Cohen, mas pelas famílias de outros personagens importantes. O cenário da série é de intensa riqueza e luxo e, por exemplo, a família de Marissa (Mischa Barton) incorpora esses ideais no casamento. Marissa não concorda com tal posicionamento e, imersa em uma contraditoriedade, a rebeldia e a distância são os únicos caminhos para conseguir viver em família.

Na sociedade, percebe-se jovens ansiando cada vez mais a independência e instituições familiares que não sabem lidar com a rebeldia juvenil. Caracterizando essa nova fase, a série mexicana Rebelde, de 2004, incorpora a transição. São jovens que desejam ser tratados como adultos e, por isso, passam a agir como tais. Situações vivenciadas pelos próprios adolescentes passam a ter um caráter mais sério e necessitam de um maior amadurecimento para lidar com os problemas. Beijos e relacionamentos vão deixando o teor cômico vivenciado no final do século e passam a ganhar intensa romantização. É no início do século 21 que surgem casais emblemáticos e até hoje considerados sonhos de muitos adolescentes.

Rebelde (Imagem: Reprodução)

Um amadurecimento romântico é acompanhado de maior seriedade nos temas abordados. Inicia-se o período de house parties, bebidas e drogas que, apesar de persistirem imersos em idealizações, tratar sobre os temas é um reflexo sobre a transição vivenciada pelos jovens na época.  As festas começam a aparecer como uma forma de integração entre os diversos grupos da escola e é a chance de um convívio daqueles não populares. Bebidas são vistas como caminho para a perda da timidez e para mostrar rebeldia ou são ingeridas sob influência dos amigos. A bebedeira nunca termina bem, mas ela ainda é vista de forma idealizada à rotina dos adolescentes.

Drogas ainda não são abordadas de forma intensa, mas já inicia-se um debate. The OC retrata a overdose sob um olhar de que as drogas seriam um meio de refúgio dos adolescentes dos seus problemas pessoais e familiares. O início dessa representação é uma forma de iniciar um debate social, ao mostrar que jovens têm consciência de seus efeitos alucinógenos e, de uma certa forma, os desejam .

À medida em que novos temas estão sendo abordados para ilustrar a nova realidade dos adolescentes, situações anteriormente tratadas pelas séries sofrem desconstrução e o próprio ambiente sofre mudanças. A vida rotineira dos adolescentes é rompida enquanto o suspense e o supernatural ganham vida entre os jovens. Iniciam-se séries como The Vampire Diaries, Teen Wolf e Supernatural que, com um teor mágico, ganham grande adesão do público. Pretty Little Liars inova ao juntar a vida juvenil ao assassinato de uma das melhores amigas. A ideia passa a ser que drama e terror sejam inseridos na vida do adolescente e que este passe a ter contato com uma face mais obscura da sociedade. Os jovens são categorizados como independentes a ponto de conseguirem resolver mistérios e salvar o mundo.

Como um reflexo da sociedade, a adolescência está cada vez mais inserida em uma gama de responsabilidade. Nas séries, esses deveres sociais  se sobrepõem a antigos dilemas, como a escolha de uma profissão. A faculdade continua com sua notoriedade no cotidiano, mas passa a ganhar um segundo plano em relação à realidade de suspense e drama.

O não pertencimento também é um tema em desconstrução na atualidade e The Fosters, de 2013, é um grande exemplo para tal temática. Séries que antes ilustravam uma escola imersa em grupos passam a deixar tal ideia um pouco idealizante. Nem todo mundo possui um grupo ao qual se encaixa perfeitamente e esse paradigma do pertencimento nem sempre é correspondido às expectativas. Imaculado ao ensino médio, apenas vive-se ele, mas não necessariamente o aproveita ao máximo possível. Uma idealização que ganha um grande teor de realidade, na qual mais jovens sentem-se compreendidos e representados.

Glee, de 2009, torna a representatividade o grande foco do programa. Em um núcleo da escola, pessoas muito diferentes passam a conviver juntas pelo objetivo da música. Não é a representação de um grupo, mas é a ideia de que viver em sociedade é viver com diferenças, e necessariamente não se precisa de um consenso de ideias para que a convivência se concretize. É uma nova imagem da escola e uma nova imagem de sonhos e perspectivas.

A série dá voz a novas profissões, como música e teatro, e passa a ser uma quebra de paradigmas das profissões clássicas. Já na sociedade, diferentes cursos estavam ganhando notoriedade, e a capacidade do adolescente passou a não se pautar mais em números ou conhecimento técnico, mas na questão do sentir, exaltado na música, expressão corporal, teatro e pintura. É uma nova realidade dos anseios juvenis, na qual a profissão passa a ter uma ideia de satisfazê-los pessoalmente.

Glee (Imagem: Reprodução)

 

Sexualidade

Acompanhando a realidade, o amadurecimento dos próprios jovens pelas as experiências passa a refletir nas séries. Primeiros beijos não são mais tão românticos quanto eram televisionados. Não ter beijado passa a ser visto como motivo de brincadeira, em uma pressão para o amadurecimento. Garotas, que antes esperavam a iniciativa do menino, ganham coragem e espaço e passam a tomar iniciativas. A representação de garotas ingênuas se perde e cada vez mais elas mostram-se empoderadas e com notoriedade semelhante a dos homens.

A desconstrução passa a ser observada também na perda da virgindade. Estagnada no tempo, deixar de ser virgem era visto como um tabu e o tema era pouco debatido nas séries. Era visto com um teor para adultos, até que os próprios programas entenderam a importância de levar informações ao público, visto o distanciamento entre pais e filhos. O tema passa a ser mais encenado e também as consequências do sexo inseguro. Glee retrata o drama de Quinn (Dianna Agron) que, grávida do amigo de seu namorado, entende ser incapaz de cuidar de um filho aos 16 anos. A trama mostra a gravidez sendo levada adiante mas, ao nascer, a filha é deixada com pais adotivos. Aos poucos, a virgindade e a gravidez na adolescência são desconstruídas na TV.

O amadurecimento na visão do adolescente se traduz, também, na questão de gênero. Séries do final do século passado e início do século 21 não abordam a homossexualidade ou bissexualidade, exemplificado pelos quase inexistentes personagens representando tal temática. Era vista como uma contradição às “regras” estabelecidas pela sociedade. À medida em que movimentos sociais foram ganhando força e notoriedade, as séries começam a abordar o gênero como algo além do que o ser humano pode controlar, e não como uma escolha, como muitos afirmavam. O drama e a difícil transição e aceitação são mostradas pelas séries. Glee, mais uma vez, inova com o casal idolatrado pelo público, Kurt (Chris Colfer) e Blaine (Darren Criss).

Kurt e Blaine, de Glee (Imagem: Reprodução)

 

Bullying

Concomitante à maior visibilidade, o bullying começa a ser abordado e passa a ser um elemento importante na construção dos seriados. Intrigas entre diferentes personagens sempre existiram nas séries, mas passam a tomar um tom de seriedade quando dão lugar às agressões físicas e psicológicas. O bullying era abordado mas, como não tinha um conceito definido, não era tratado com foco nos seriados. Com a definição, a escola mostra um lugar que transborda intrigas, e o bullying ganha consequências irreversíveis.

Pode-se dizer que 13 Reasons Why é a representação dessa mais recente geração das séries. Apesar de dividir a sociedade pela forma como se aborda a temática, ela representa a escola não mais idealizada, mas como um ambiente passível de constante agressão, em que o adolescente sente-se sozinho, abandonado pelo ambiente familiar e pela instituição escolar. É uma época em que para-se de normalizar medo, insegurança e mentira.

O desenvolver da série se dá pelo suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford), que traduz-se como consequência de diversas situações até então tidas como normais à adolescência. Relações abusivas, objetificação e xingamentos passam a ser condenáveis de forma que não aconteçam, não só por parte dos adolescentes. Para isso, as séries são importantes para levar informação tanto ao próprio público como aos pais. House parties não são vistas apenas como uma forma de integração, mas tornam-se um ambiente passível de violência, drogas e bebidas. Elas passam a ganhar espaço no cotidiano do adolescente, ao mesmo tempo em que levam a ideia da vulnerabilidade e insegurança, principalmente feminina. Passam a ser tratadas como formas de refúgio e também como ambientes destrutivos e perigosos, trazendo às telinhas maior realidade dos adolescentes.

“Você não pôde me salvar” – 13 Reasons Why (Imagem: Reprodução)

Riverdale também ilustra a desconstrução daquilo dito como normal e, sentindo-se sem poder contar com a ajuda dos pais ou escola, os jovens guardam segredos e tentam resolver seus próprios problemas. A série marca pela intensa representatividade feminina em prol do direito à voz. Em um dos primeiros episódios, tal temática é abordada quando as garotas descobrem um livro dos jogadores da escola vangloriando-se das meninas que haviam ficado. Juntas, elas se empoderam. Trazem a ideia de que, se as mulheres se juntarem, não haverão homens sustentados em pensamentos retrógrados, mas sim uma sociedade que respeita. Intrigas entre adolescentes, como por cargos em líderes de torcida, acontecem, mas leva consigo discursos e atitudes conscientizadoras. Apesar de uma geração mais independente, ela clama a atenção para problemas até hoje vistos como tabus. Problemas que não dão para escapar.

Riverdale (Imagem: Reprodução)

Séries são espelhos da sociedade. Visualizar sua linha de montagem representa entender jovens que, muitas vezes sem voz no meio social, vêm as séries como um dos únicos caminhos para tirarem dúvidas e sentirem o conforto de ser entendido. Desde paixões até paradigmas e contradições ainda existentes, as séries representam gerações e inovam na forma de tocar os jovens – e a sociedade. Constituem formas de entreter e impactar.

Por Sofia Aguiar
sofia.aguiar@usp.br

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