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Amarelo: entenda essa cor e como ela nos afeta
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19 maio 2020 | Por Letícia Flávia (leticiaflavia@usp.br)

Sol, luz e ouro são os principais símbolos do amarelo, mas, se pararmos para pensar, vai muito além disso. O amarelo no trânsito, no design e na mídia aparecem por uma razão, já nas frutas e roupas, nem tanto. Apesar disso, nosso contato com essa cor, intencional ou não, nos afeta. Nessa reportagem, exploraremos o universo do amarelo em nosso dia a dia, bem como sensações provocadas por essa cor.

 

O amarelo em si 

O amarelo, junto ao vermelho e azul, é uma cor primária, ou seja, não pode ser obtida com a mistura de outras cores. É também a cor mais clara de todas as cores cromáticas, isto é, todas as cores excluindo as neutras preto, branco e cinza, e pode ser facilmente transformado em outras: misturada com um pouco de vermelho, torna-se  laranja, com um pouco de azul, torna-se  verde.

De acordo com o livro Psicologia das Cores, de Eva Heller, o amarelo é a cor favorita de apenas 6% das pessoas, perdendo esmagadoramente para o azul, que atinge 45% de predileção. Aqui, estamos nos referindo aos tons mais comuns, como o amarelo gema. Na realidade, o amarelo possui 115 tons.

Paleta de cores com alguns tons de amarelo [Imagem: Reprodução]


O amarelo em nós 

As cores, luz e sombras formam a primeira camada de identificação visual do mundo físico segundo Luciano Guimarães, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e pesquisador sobre as cores na mídia. As cores nos afetam em três dimensões: biofísica, linguística e cultural. No nível biofísico, o amarelo é capaz de ativar áreas do cérebro e promover maior índice de atenção. Não é a toa que seja tão utilizado nas canetas marca-textos, que usamos para destacar e nas placas de trânsito de advertência e nos semáforos, que visa alertar o motorista de sua passagem. “No semáforo temos a dimensão linguística, pois é um código que precisa ser ensinado e aprendido, compartilhado linguisticamente”.    

Imagem: Reprodução

“É na dimensão cultural que o amarelo ganha significação mais rica e as sensações ultrapassam largamente o âmbito da experiência física”, explica Luciano Guimarães. “Na raiz cultural de seus significados, o amarelo se liga ao sol, ao trigo, ao fruto maduro e ao ouro, cada um carregando seus valores agregados culturalmente”.

No entanto, essa cor não carrega só associações positivas. Costumamos lembrar do amarelo solar e nos esquecemos do amarelo pálido esverdeado, o amarelo fétido do enxofre. Michel Pastoureau, um dos maiores especialistas na simbologia das cores, constata a atribuição ao amarelo da inveja, avareza, mentira e traição. 

Tanto franceses quanto brasileiros usam a expressão de sorriso amarelo como o sujeito desconcertado. Na Alemanha, icterícia (Gelbsucht) é uma expressão de cobiça (Geldgier). Em inglês, yellow também significa covarde. Em francês, o amarelo é jaune, a raiva é jaunir e o ciúme é jalousie. Em inglês, o ciúme é jealousy

“Por essa razão, é na soma das três dimensões e no estudo do contexto em que o amarelo está aplicado que podemos pensar quanto afeta nossa emoção e nossa razão”, complementa o professor.
 

O amarelo no design 

Lute como Greta Thunberg.[Helena Nabuco/2019]

O amarelo é uma cor chamativa, empregada de diferentes maneiras. A designer Helena Nabuco explica que essa cor é frequente quando o objetivo é trazer luz, alegria ou provocação ao projeto. “O amarelo é muito utilizado quando queremos trazer impacto visual, pois é uma cor que contrasta muito com outras cores. Por causa disso, é muito bom para posters, cartazes e comunicações de rua, que precisam se destacar”.

O tom do amarelo é fundamental para a percepção do espectador. “Temos desde o amarelo mostarda, quase marrom, ao amarelo meio bege, quase bebê”, explica Helena. “Cada tom corresponde a um universo e significado diferente”. Tons claros trazem leveza a arte, enquanto tons escuros, um certo peso. “Nas telas, o amarelo intenso é muito agressivo para áreas grandes, mas bom para pequenos realces, ou em telas que ficarão por pouco tempo em exposição”, adverte Luciano.

“O amarelo conversa muito com o sol. Eu definiria ele como uma cor solar, forte, energizante. E a sensação seria de luz, brilho, foco, energia”, finaliza a designer.

 

O amarelo no design de interiores

O amarelo no design de interiores

No design de interiores, a presença do amarelo é diversificada e traz sensação de calor e energia, além de elevar o ânimo. “É muito utilizado em acessórios e objetos, como almofadas, luminárias, cadeiras e cômodos”, conta Luchesca Pelegrini, profissional da área. Entretanto, se não for dosado, pode causar desconforto visual.

A cor em áreas de alimentação, como cozinhas e salas, é controvérsia, já que o amarelo estimula o apetite. Apesar disso, o amarelo pode combinar com todos os cômodos da casa, dependendo do tom, da utilização e do gosto do cliente. É ideal em escritórios e áreas de estudo, pois o amarelo contribui para uma atmosfera ativa e estimula atividades intelectuais.

“Tons vibrantes nos despertam, e por isso evitamos utilizá-los em quartos, já que são ambientes de descanso. Tons mais neutros tornam o ambiente aconchegante, sendo o amarelo pastel uma alternativa”, explica Luchesca. “Sempre usamos luzes amarelas para dar um toque de aconchego no cômodo”.

Em espaços pequenos, é necessário mais atenção na escolha das cores, pois elas interferem na amplitude do ambiente. O amarelo, por sua vez, pode reduzir visualmente o espaço.

 

O amarelo na pintura

Os Girassóis, Van Gogh (1889)

Os Girassóis, Van Gogh (1889)

O pintor holandês Van Gogh (1853-1890) é reconhecido pelo grande uso de amarelo nas suas pinturas ao retratar campos, estrelas e as várias versões de girassóis. De acordo com o livro Psicologia das Cores, “Van Gogh pintava com amarelo cromo, um corante muito venenoso que contém chumbo e enxofre”. O amarelo cromo, na época, era mais barato que o amarelo cádmio, que o pintor não mais conseguia arcar. Por saber que as cores de sua pintura empalideceriam, empregou camadas espessas de tinta em sua pintura. Apesar disso, com o passar das décadas, seu amarelo luminoso tornou-se pálido e seu laranja luminoso, acastanhado. 

Da esquerda para a direita: amarelo cromo, amarelo cádmio claro e amarelo cádmio escuro

Segundo Michel Pastoureau, em entrevista a Revista Sol, na pintura da Idade Média o dourado assumiu as “qualidades” do amarelo, que caiu em desuso. “No século XIX, por reação, com a pintura ao ar livre, volta a ver-se muito amarelo e nada de dourado. A partir da invenção da bisnaga de tinta, e da possibilidade de pintar fora de portas, há mais amarelo na pintura, mas os dois grandes pintores do amarelo são Van Gogh e Gauguin”. 

Quelles Nouvelles, Paul Gauguin (1892)

Quelles Nouvelles, Paul Gauguin (1892)

Existe aqui, em volta de tudo, uma tonalidade de enxofre, o sol me sobe a cabeça. Uma luz, que na falta de palavra melhor, não posso denominá-la de outro modo, senão amarela. Ah, como é lindo o amarelo! (Van Gogh)

 

O amarelo nos chakras

chakras

 

Os chakras são centros de energia que regem nosso corpo físico, emocional, mental e energético, segundo ensinamentos esotéricos e religiões orientais, como hinduísmo e budismo. São sete chakras, a cada um atribuído uma cor e influenciando saúde e personalidade. 

O chakra amarelo corresponde ao Plexo Solar ou Manipura, localizado acima do umbigo e próximo ao estômago. Está ligado a nossa personalidade e poder pessoal, além de participar na forma que nos relacionamos com o mundo e com os outros. Relaciona-se diretamente com órgãos do sistema digestivo e é onde digerimos impressões imateriais da nossa volta. 

O excesso de energia desse chakra leva ao egoísmo, fúria e dificuldade de digerir/assimilar, enquanto a sua falta de energia provoca insatisfação e fraqueza. Para alinhar e equilibrar os chakras, são utilizadas as pedras Citrini Amarelo, Cristal com Enxofre, Topazio Imperia e Calcita Amarela.

A cura pelas cores é popular no esoterismo. Geralmente, “as regiões do corpo que estão doentes são tratadas com as cores correspondentes a cada chakra, para intensificar sua energia cromática”, uma das maneiras de cura retratada em Psicologia das Cores.

 

O amarelo no Oriente 

Cerimônia em homenagem ao Imperador Amarelo chinês Huang-ti

Cerimônia em homenagem ao Imperador Amarelo chinês Huang-ti / [Imagem: reprodução]

O amarelo,  juntamente com o vermelho, é uma das cores mais populares da China e simboliza o poder e a sabedoria. Na era das Dinastias, a cor da majestade imperial era o amarelo, vista como a cor mais nobre e elevada, sendo também masculina. Na Índia, o amarelo é a cor dos deuses e governantes. A veste do deus Krishna, por exemplo, é amarelo-dourada. 

 O amarelo se faz presente na filosofia chinesa dos opostos complementares Yin Yang. Yin, como força feminina, passiva, receptiva, e Yang como força masculina, ativa, criadora. No Ocidente, costumamos encontrar o símbolo Yin Yang com uma metade preta e outra branca, que são vistas como opostas. Porém, de acordo com o simbolismo cromático chinês, seria preto (yin, feminino) e amarelo (yang, masculino), como cores de maior contraste.

yin yang

Símbolo do Yin Yang. Na China, o amarelo é oposto ao preto

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