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As garras de Stephen King no cinema (e para além do horror)
CINÉFILOS
30 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Diego C. Smirne
d.c.smirne@gmail.com

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Stephen King, o rockstar literário, com seu violão estilizado e um medonho bigodinho

O escritor norte-americano Stephen King, nascido em 1947 na cidade de Portland, Maine, é uma fábrica de best-sellers e um mestre em sua arte. Por mais que muitos julguem que suas obras são mera literatura comercial, sem grande valor, outros tantos – aqueles a quem o autor costuma chamar de Leitores Fiéis nos prólogos de seus livros – o acompanham como se fosse um grande astro do rock (e de fato King costuma dar umas palhinhas no tempo livre, tocando guitarra com alguns amigos escritores na banda The Rock Bottom Remainders, que já rendeu com seus shows mais de 2 milhões de dólares para instituições de caridade).

Mas não foi só essa imensa base de verdadeiros fãs que lhe proporcionou alcunhas como Rei do Terror: King mostra ao longo de sua carreira – que não dá sinais de que acabará tão cedo – uma produtividade comparável, trazendo para o universo cinéfilo, à do prolífico diretor Woody Allen, com incríveis (contando apenas romances e coletâneas de contos) 65 livros publicados em 41 anos! Muitos deles são obras indispensáveis para os amantes do horror, e tamanha criatividade acabou servindo de excelente inspiração para outras áreas como séries de televisão e, claro, o cinema.

Até 2015,  a lista de longas baseados em histórias de Stephen King conta 37 produções (número talvez suficiente para se criar um gênero dedicado apenas ao escritor americano). Várias delas, obviamente são legítimas porcarias – seja por contarem com um diretor ruim, atuações pouco inspiradas de atores desconhecidos, pela falta de talento do roteirista para fazer a adaptação do livro para o cinema… ou simplesmente pelo fato de que é complicado fazer um bom filme de terror. No entanto, apesar de o gênero ter esse lado negro, há um outro ainda mais escuro: quando o filme é bom, leva algumas noites em claro para ser esquecido.

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Alguns dos 37 filmes inspirados nas histórias (não apenas de terror) de Stephen King

Uma das adaptações de King que mais deixou (e continua deixando) imagens desagradáveis nas mentes de muitas pessoas que só queriam ter uma boa noite de sono é o clássico O Iluminado (The Shining, 1980). Não tinha muito como dar errado: dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick, com uma literalmente matadora atuação de Jack Nicholson e baseado no livro homônimo que é um dos maiores sucessos do escritor.

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O enredo se passa no suntuoso Hotel Overlook, localizado no meio das Montanhas Rochosas do Colorado, que permanece fechado durante o rigoroso inverno. O recém demitido professor universitário e alcoólatra em recuperação Jack Torrance (Nicholson) consegue o emprego de zelador do hotel para a temporada, e acredita que o isolamento do local pode ser uma oportunidade única para regenerar a abalada relação com sua mulher e o pequeno filho e também para terminar de escrever um livro. A família Torrance, porém, não passará o inverno tão sozinha, pois hediondos acontecimentos do passado do Overlook voltarão para assombrar o casal e seu filho com talentos paranormais.


A grande atuação do pequeno Danny Lloyd, encarando os horrores do Hotel Overlook

Os habitantes sobrenaturais do hotel, os berros e expressões horrorizadas de Wendy Torrance (Shelley Duvall), a interpretação da loucura assassina de seu marido representado por Jack Nicholson e a trilha sonora horripilante escolhida por Kubrick colocam O Iluminado em quase todas as listas de melhores filmes de terror já feitos. Mas não na do próprio Stephen King: enquanto a maioria dos mortais seria capaz de vender a alma para ter uma história sua dirigida por Stanley Kubrick, o escritor não se cansa de afirmar seu repúdio à adaptação feita pelo diretor, chegando ao ponto de criar a sua própria, a minissérie de mesmo nome exibida na TV em 1997. Embora seja mais fiel à obra original que o filme e tenha deixado King mais feliz, é quase desconhecida, e não se compara à obra-prima de Kubrick.

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Outra angustiante história de Stephen King que foi brilhantemente (e, desta vez, fielmente) adaptada para o cinema foi Louca Obsessão (Misery, 1990), dirigido por Rob Reiner e também com base num livro homônimo. O protagonista Paul Sheldon (James Caan) é novamente um escritor em isolamento. Neste caso, porém, a reclusão ocorre em virtude de um grave acidente de carro do qual é socorrido justamente por sua auto-intitulada fã número 1, a enfermeira Annie Wilkes (Kathy Bates), que tem o sonho realizado ao ter o autor de seus livros favoritos hospedado – ou internado- em sua casa. Como qualquer pessoa, Annie não quer nunca despertar de seu sonho, fazendo de Paul Sheldon seu prisioneiro e mostrando-se tão terrível quanto as assombrações do Overlook. Caan, famoso pelo papel de Sonny Corleone em O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), representa com primor a agonia do escritor aprisionado, e a atuação de Kathy Bates lhe rendeu o Oscar de melhor atriz em 1991 e a presença em qualquer seleção de personagens mais perturbadores (e perturbados) do cinema.


A grande atuação de Kathy Bates como a desequilibrada Annie Wilkes

A atriz impressionou o próprio Stephen King com sua performance como Annie Wilkes, tanto que três anos depois o autor escreveu um livro protagonizado por uma mulher idealizada como Kathy Bates. Nada mais justo, portanto, que ela mesma interpretasse a personagem no filme Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1995), que leva o nome do livro que o inspirou. Classificado como drama ou suspense psicológico, foge ao gênero que deu a King sua fama, e talvez por isso tanto o livro quanto o filme sejam pouco conhecidos em relação a outras obras do escritor e suas adaptações.

Dirigido por Taylor Hackford, conta a melancólica e nebulosa história de Dolores Claiborne, que passou toda a vida numa pequena ilha do estado norte-americano do Maine, onde é execrada pela população por ser suspeita de ter matado o próprio marido e agora, 20 anos depois, é acusada de assassinar a rica anciã para quem trabalhava há décadas. A notícia faz com que sua filha Selena (Jennifer Jason Leigh), uma bem sucedida jornalista em constante luta com a depressão e o alcoolismo, retorne após muitos anos para tentar ajudar a mãe, mesmo tendo com ela uma péssima relação e duvidando seriamente de sua inocência. Para convencer senão o juiz que há muito quer vê-la atrás das grades, pelo menos sua filha, Dolores terá que revelar detalhes escondidos de seu obscuro passado.

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Embora seja bastante diferente do que geralmente vem à cabeça quando se pensa numa obra de Stephen King, algumas características constantes do autor são visíveis em Eclipse Total, como a solidão e o isolamento profundos de Dolores, o alcoolismo de Selena e a incrível capacidade de criar um enredo envolvente e, se nesse caso não assustador, perturbador e angustiante. Tais características foram bem preservadas e ressaltadas no filme, cuja fotografia escura e fria gera um clima ainda mais depressivo e sombrio.
Além de Eclipse Total, há pelo menos mais dois excelentes exemplos da versatilidade de King: os dramas ambientados em prisões Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994) e À Espera de um Milagre (The Green Mile, 1999), ambos dirigidos por Frank Darabont.

 

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Morgan Freeman e Tim Robbins, prisioneiros em Shawshank

 

O primeiro, inspirado no conto Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank, do livro Quatro Estações, além de ser uma belíssima história, conta com um atrativo especial: é narrado pela inconfundível voz de Morgan Freeman, que interpreta o prisioneiro Red, o qual viria a se tornar o melhor amigo de Andy Dufresne (Tim Robbins) em sua longa estadia na prisão estadual de Shawshank. Dufresne é um rico banqueiro condenado à prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa. Como qualquer interno de Shawshank, Andy jura ser inocente, e mesmo seu amigo Red custa a acreditar em sua palavra; diferente dos seus companheiros, porém, Andy possui muitos conhecimentos que lhe virão a ser úteis na prisão e, mais importante, mantém vivas, apesar de todas as desilusões pelas quais passa, a vontade e a esperança de sair dela.


A chegada do gigante John Coffey ao corredor da morte

Embora não seja uma história de terror, o sobrenatural está presente em À Espera de um Milagre através da figura do enigmático e intimidador prisioneiro John Coffey (Michael Clarke Duncan), condenado à morte pelo estupro e assassinato de duas pequenas irmãs. Quem narra os acontecimentos é o velho Paul Edgecomb, que quando jovem (interpretado por Tom Hanks) foi o policial encarregado da ala onde Coffey e outros presos aguardavam o dia em que se sentariam na Velha Faísca, a cadeira elétrica da prisão. Os estranhos eventos ocorridos durante a passagem de John Coffey fariam com que aquele ano se tornasse o mais marcante da longa vida de Paul.
O enredo tocante desses dois filmes torna quase impossível dizer que têm base em obras de Stephen King. Graças à sua inesgotável criatividade, o autor consegue transcender a literatura, fazendo enorme sucesso e marcando seu nome também no cinema. Mas, mais do que isso, demonstra ser capaz superar o rótulo autor de histórias de terror, gênero pelo qual se notabilizou e do qual se tornou símbolo. Suas garras alcançam além das sombras debaixo da cama…

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A casa de Stephen King: “Entre, vamos tomar uma xícara de sangue!”

 

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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