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As Meninas Superpoderosas
Controle Remoto
08 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de destaque: Kaol Porfírio

“E mais uma vez o dia foi salvo, graças às Meninas Superpoderosas” é uma frase bastante conhecida pela geração dos anos 90, já que finalizava os episódios da série de desenho animado As Meninas Superpoderosas (The Powerpuff Girls). Criada por Craig McCracken em 1998, a série foi febre entre o final da década de 90 e início dos anos 2000 e acompanhou as manhãs das crianças (e adultos também) que assistiam ao programa Bom dia & Cia, no SBT, ou no canal Cartoon Network.

O desenho conta a história de três garotas criadas em laboratório pelo Professor Utônio a partir de uma mistura de “açúcar, tempero e tudo que há de bom” e claro, o elemento X, acrescentado acidentalmente, permitindo que Florzinha, Docinho e Lindinha tivessem superpoderes. Salvando a cidade de Townsville dos perigos de monstros e vilões, elas ainda conseguiam tempo para brincar e se divertir.

A animação chamava atenção por apresentar três meninas super heroínas como protagonistas, mas além da representatividade feminina, alguns episódios já apresentavam temas como igualdade de gênero. O último episódio foi ao ar em 2005, entretanto, recentemente uma nova temporada foi anunciada e está sendo exibida no canal fechado Cartoon Network. Dessa vez, o discurso utilizado é ainda mais girl power e temas atuais são discutidos com sensibilidade e inteligência.

Não é novidade

Desde a primeira temporada percebia-se que As Meninas Superpoderosas era diferente dos demais desenhos da época. Primeiro, as personagens principais são todas meninas, fortes e corajosas. Cada uma possuí a sua própria personalidade e ninguém as julga ou tenta mudá-las: Florzinha é muito inteligente, mandona e extremamente organizada; Lindinha é a mais delicada, ingênua e sensível do trio, ama coisas fofas e animais; Docinho é impulsiva, destemida e adora entrar numa luta. Nenhuma das características faz de uma mais especial que a outra, assim como a feminilidade de Lindinha não a faz menos poderosa ou a atitude de Docinho não a deixa menos feminina. E os episódios conseguiam abordar essa questão muito bem, mostrando os prós e contras das três personalidades. Além disso, quase não existia competição ou inveja entre as três – e quando isso ocorria elas logo percebiam quão bobo era esse sentimento – e juntas sempre eram mais fortes do que quando tentavam agir individualmente.

A luta contra o machismo já aparecia nas temporadas anteriores e continua nos novos episódios. Imagem: Claire Castelano/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Por outro lado, os homens recorrentemente são retratados como mais sensíveis e frágeis. O maior exemplo disso é o Prefeito de Townsville, que necessita de ajuda até para abrir um pote de picles. E o auxílio não vem apenas por parte das meninas, ele não conseguiria viver sem a sua secretária, a Senhorita Belo, uma verdadeira guia na vida dele. No final do dia, são as garotas que sempre salvam a cidade e os seus cidadãos. Isso fica claro no quinto episódio da quarta temporada (“Somente Membros”), quando as Meninas Superpoderosas tentam entrar na Associação Mundial dos Super-homens e apesar de cumprir todos as provas, não são aceitas por serem garotas. “Vocês são menininhas e deviam estar em casa com a mamãe, aprendendo a cozinhar, limpar e blá, blá, blá, coisas de mulheres. E deixem os heroísmos para os homens. “ Após essa fala, vinda de um dos super-heróis, são as “menininhas” que os salvam de um monstro, provando que eles estavam muito errados.

As organizações familiares apresentadas não seguem nem um pouco o estilo “família tradicional brasileira”. Os vilões “Macaco Louco” e “Ele” são os pais dos Meninos Desordeiros, os opostos das Meninas Superpoderosas. Além do mais, o Professor criou suas filhas em laboratório e as educa sozinho, cuidando também da casa – o que não deveria ser motivo de admiração, afinal, não são só as mulheres que devem se preocupar com o lar. Inclusive, essa problemática é apresentada no sétimo episódio da quarta temporada (“Super Amigas”). Nele as três irmãs observam caixas de mudança no quintal vizinho – Lindinha: “Ei, olhe quantos recipientes de plástico. E se nossa vizinha for uma mulher linda e se apaixonar pelo Professor.” Docinho: “Só porque são recipientes de plástico não significa que é uma garota.” Florzinha: “Rapazes tem sobras para guardar também.”

Diálogos simples e inteligentes passam mensagens importantes. Imagem: Divulgação

Nas temporadas anteriores não foram esquecidas as questões de gênero. Vários personagens quebram os esteriótipos criados pela sociedade, como é o caso do vilão “Ele”. O próprio nome o define com o pronome masculino, mas nem por isso ele deixa de usar a cor rosa, maquiagem e saia. Além disso, frequentemente os personagens masculinos se vestem com “roupas de mulher” e as meninas também se vestem com “roupas de menino”. O desenho passa a mensagem de que não há problema em gostar de coisas estereotipadamente femininas se você é um rapaz e o contrário também é válido. Assim como não se deve fazer suposições de gênero sobre qualquer pessoa com base em aparências e gostos pessoais, porque identidade de gênero e expressão de gênero são conceitos diferentes.

Quebra dos padrões de gênero são recorrentes na animação. Imagem: Divulgação

O feminismo também é abordado. O 11º episódio da terceira temporada (“De igual para igual”) é totalmente dedicado ao tema. A vilã Mulher Fatal convence as meninas a odiarem os homens, na esperança de facilitar o seu plano para roubar moedas de Susan B. Anthony de bancos locais. Sua ideia de feminismo não é correta e suas intenções não são boas, pois só pensa em si própria, mas algumas atitudes dela devem ser destacadas: em uma das suas falas, ela diz que as mulheres não tem muita representação em diversos setores, afinal, não existiam muitas mulheres vilãs ou heroínas; em outro momento, ela não deixa um homem impune quando este faz uma piada de mau gosto. No final do episódio, após uma conversa com a Senhorita Belo e com a Senhorita Keane, as Meninas Superpoderosas entendem o verdadeiro ideal do feminismo e dão uma bela lição na Mulher Fatal: “Em 1872, ela quebrou a lei pelo voto e mesmo quando foi considerado culpada, os federais queriam que ela tivesse uma pena menor e não fosse mandada para a cadeia, porque era uma mulher. Susan B. Anthony não queria tratamento especial, ela queria ser tratados de forma igual. Ela exigiu que fosse enviada para a prisão, como qualquer homem que quebrou a lei. E isso é exatamente o que vamos fazer com você. “

O discurso empoderador continua

A nova temporada, que estreou no dia 04 de abril no Cartoon Network, continua trazendo temas importantes e um discurso ainda mais poderoso. A divulgação já adiantou que as Meninas Superpoderosas não vieram para brincar. O jogo Powerpuff Yourself, traduzindo “Me empoderize”, fez sucesso nas redes sociais por permitir que as pessoas pudessem fazer a sua própria Menina(o) Superpoderosa(o). Contando com diversos tons de pele, tipos de cabelo, estilo de roupas e cor de olho, promoveu a valorização da diversidade, algo ainda pouco trabalhado na animação.

Jogo fez sucesso ao permitir que a diversidade entre as pessoas fosse valorizada. Imagem: Divulgação

As garotas voltaram e não lutam apenas contra os monstros e vilões, mas também contra o machismo. No sexto episódio (“O Garotão”), o vilão Homem-garoto chega a Townsville querendo que a sociedade seja dominada por homens novamente. Docinho logo parte para a briga, mas ele ri e a chama de princesa. A poderosa mais esquentada não gosta nada disso e fala em alto e bom som: “Não me chame de princesa.”

https://vimeo.com/154985203

As questões de gênero voltam a ser abordadas. No quinto episódio (“Chifre, doce chifre”), Lindinha faz amizade com o pônei Donny, que se sente muito infeliz com a sua identidade e deseja muito ser um unicórnio. Ele acaba se submetendo a uma das criações do Professor Utônio, que o transforma em um monstro. As garotas conseguem a ajuda da Coalizão dos Unicórnios, que revelam que Donny sempre foi um unicórnio, apesar de não ter aparentado isso antes. Há muito subcontexto nessa história, porque, na verdade, Donny representa um transgênero. Tanto que no final do episódio é mostrado um coração com as cores da bandeira trans. Uma criança certamente não saberia dessa informação, mas o questionamento “Eu me sinto bem com o que eu sou?” seria compreendido.

A diferença dessa para as temporadas anteriores, que já abordavam temas semelhantes, é que os produtores deixam claro a utilização de um discurso inovador, que não é comum em desenhos animados. As Meninas Superpoderosas é um belo exemplo de que animações podem transmitir ensinamentos importantes, porque desenhos são sim para qualquer idade, e as questões de gênero também.

Por Beatriz Arruda
beatriz.arruda12@gmail.com

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