Home Na Estante Quero ser a melhor amiga de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu
Quero ser a melhor amiga de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu
Na Estante
02 jan 2021 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

As sensações que marcam o leitor após o término da obra Autobiografia Precoce (2020, Companhia das Letras) são as de amizade, admiração e empatia por Pagu. O livro vai muito além de simplesmente relatar acontecimentos célebres, e também não fica preso à figura de Oswald de Andrade, personalidade histórica do movimento modernista e utilizado muitas vezes pelo senso comum como espécie de rótulo  para falar de Pagu.

Autobiografia Precoce é uma experiência imersiva na vida de Patrícia Galvão. Ela conta sua relação com o filho, com Oswald — com quem foi casada por alguns anos — e sua devoção à prática revolucionária. Embora curto, em uma edição de 140 páginas, o conteúdo é denso e envolvente.

Por tratar-se de uma autobiografia, a obra trata com maior fidelidade as relações interpessoais. Uma das coisas mais interessantes, também possível pelo gênero literário em questão, são os pesos dos acontecimentos considerados importantes por Pagu. 

Esta resenha pode conter spoilers

 

À parte daquilo que se espera

Gostaria de ser melhor amiga de Pagu, como conto em meu desejo no título, por ficar constantemente fascinada com os relatos e sua veracidade de se adentrar no íntimo dessa mulher interessantíssima que é Patrícia Galvão. Pagu foi protagonista de uma vida complicada, em que relata a entrega do corpo aos 12 anos e uma gravidez aos 14. No entanto, anseia por amor, sofre com suas afinidades destrutivas com Oswald e discute, inclusive, a poligamia — além de mandar para o inferno uma “vidinha de amor com casinha”. 

As constantes digressões existenciais refletem valores e advogam a favor de seu corpo e da sua luta revolucionária. São os questionamentos de uma mulher forte, que se impõe às variadas situações de provação, mas também de uma mãe vulnerável que questiona se seu amor pelo filho é suficiente.

 

Luta revolucionária 

Provavelmente a temática mais intrigante do livro é o interesse e a dedicação de Pagu à causa revolucionária comunista, certamente inspiradores. Ela é perseguida durante parte considerável do livro, que inclusive foi escrito logo depois de ser liberada de sua 23ª prisão. Observamos sua ascensão de cargos no Partido Comunista e como sempre se sentia pobre intelectualmente; por isso buscava de forma incessante o conhecimento teórico da causa.

É notória a diferença do comportamento social da época (e que persiste até hoje), em que mulheres certamente inteligentes como Pagu sentiam-se inferiorizadas e espelhavam-se em figuras masculinas incumbidas de uma suposta superioridade intelectual. A decepção de Pagu com o comportamento dos pensadores brasileiros e argentinos é relatada em mais de um momento do livro, quando ela mesma menciona sua “ignorância exigente”. 

Sua desilusão revolucionária ao ver a fome de uma criança em Moscou teria sido um ponto de virada? Por que Pagu escolheu aquele momento final para encerrar a obra? Pagu afirma em diversos momentos que a principal motivação de sua vida era a causa revolucionária. Teria sido esse o momento em que sua vida acabara diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que olhava Stálin? Talvez a expressão acabar seja um exagero, visto que tudo e nada devem ser esperados de Pagu.

Não, não acredito que ela considere que sua vida acabava ali.

 

[Imagem de capa: Beatriz Sardinha]

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