Home Na Estante Bibliotecas comunitárias: revolução através dos livros
Bibliotecas comunitárias: revolução através dos livros
Na Estante
03 ago 2020 | Por Aline Novakoski (alinenovakoski@usp.br)

As bibliotecas comunitárias partem da ideia de que todas as pessoas são leitoras, independente de saberem decodificar os símbolos gráficos ou não —  visam a leitura de mundo como precedente da leitura da palavra, com influência de Paulo Freire —, e levam a bandeira da literatura como direito humano de todo indivíduo, como defendia Antonio Candido. 

Com essas referências, tais espaços trabalham com públicos de todas as idades que estão à margem do direito à leitura. De maneira lúdica, eles incentivam também a escrita, exploram a criatividade e mudam o rumo de gerações inteiras. “O número de bibliotecas comunitárias e leitores vem crescendo ao longo do tempo devido seu senso de disseminação, levando de maneira única o acesso irrestrito ao conhecimento”, explica Helena Carvalho no artigo “Bibliotecas comunitárias: fatores intervenientes na percepção das gestoras”.

 

Contexto social

As bibliotecas comunitárias são espaços de leitura criados e mantidos pela sociedade civil. A maioria não recebe recursos governamentais e tem seus acervos composto por doações da população, ONGs, faculdades, entre outros. O objetivo, na maioria das vezes, é aproximar a leitura da comunidade marginalizada, já que 87% dessas bibliotecas, segundo a Agência Brasil, são situadas nas periferias. Elas atendem ao público de todas as idades, são muito bem organizadas, e contam com apoio de coordenadores e diversos mediadores de leitura para auxiliar e incentivar os leitores.

O público mais atingido pelas bibliotecas comunitárias são as crianças, a maioria de realidades muito parecidas. Em muitos casos, elas não são incentivadas a ler em casa, porém conseguem o primeiro contato com a leitura a partir de livros que recebem de filhos de patrões da mãe ou até encontrados no lixo, por exemplo. Assim, adquirem a vontade de ler, o que as incentiva a começar a frequentar as bibliotecas.

Além disso, os leitores, normalmente, são também os primeiros de suas famílias a ingressarem na faculdade. Isso mostra que a leitura não é revolucionária só individualmente, mas em nível familiar, de melhora nas condições de vida e bem-estar, e também social, ligada a uma maior  representatividade e consequente visibilidade para a periferia.

Kely Louzada, coordenadora da Associação Mulheres e Meninas do Morro, que montou a biblioteca literária Ateliê das Palavras — localizada na Mangueira, no Rio de Janeiro —, conta que cada frequentador da biblioteca lê no mínimo 32 livros por ano, segundo o controle de empréstimos. Esse fato mostra o interesse da comunidade pela leitura e seu engajamento, pois além de ler muito nesses espaços, também há participação em diversas atividades, passeios e reuniões — principalmente as crianças, mas não são só elas que reconhecem a importância da leitura. 

Co-gestora da Rede Baixada Literária, Mônica Verdam atua em Nova Iguaçu no Rio de Janeiro e relata que em 2006 foi feita uma pesquisa dentro acerca do que se considerava mais necessário na comunidade. No resultado, a pesquisa identificou a procura por uma biblioteca voltada à pesquisa. A partir disso cria-se dois espaços de leitura: a Biblioteca Paulo Freire, voltada à pesquisa e, logo depois, a Biblioteca Comunitária Mágica, com foco literário. Ambas foram rapidamente adotadas pela população, evidenciando a carência e a vontade pela leitura, não só para o benefício das crianças, como também para o restante dos moradores.

Criança lendo um livro infantil em biblioteca comunitária de Caxias do Sul - RS [Foto: Juan Barbosa]

Criança lendo um livro infantil em biblioteca comunitária de Caxias do Sul – RS [Foto: Juan Barbosa]

Renascimento do ensino nas periferias

Os espaços de leitura possuem mediadores de leitura, pessoas que atuam na elaboração de atividades, dinâmicas e passeios, além de auxiliar os leitores em suas dificuldades. Celina Borges Santos, que hoje está se formando em Enfermagem, foi leitora quando criança e mais tarde tornou-se mediadora. Ela relata que começou a frequentar a Biblioteca Ziraldo aos dez anos, quando se mudou para Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro: “Logo me apaixonei. As bibliotecas comunitárias vão além do empréstimo dos livros, existem atividades de leitura, escrita e coordenação, também passeios culturais e reuniões lúdicas. Quando vi, já ia toda semana”.

Nas bibliotecas são discutidos assuntos como o Estatuto da Criança e do Adolescente, políticas que envolvem a leitura e também os direitos humanos, o que leva ao aumento do pensamento crítico. Ainda, se formam grupos de jovens para discussões de políticas públicas para os seus bairros. Celina participou de um desses e afirma que isso ajuda muito os leitores a formar senso crítico e, consequentemente, senso político. Quando mais velha, ela chegou a ir para Brasília participar de atos em frente ao Palácio do Planalto em prol de suas causas e das bibliotecas.

A percepção de uma  melhora considerável na escrita dos leitores é notável, e também o aumento da criatividade. O desejo de ser escritor é aflorado em muitas crianças e, algumas delas, pelo empenho na escrita, já contam com livros publicados. Um exemplo é o livro Contos e Encantos (2017), uma coletânea de contos escritos e ilustrados pelos leitores-escritores da Rede Baixada Literária. Os escritores da Rede ganharam um estande na Bienal do Livro de 2017 com outra coletânea de contos, os Contos da Baixada. O evento marcou muito os leitores e escritores da biblioteca, como Nathan da Silva, que relatou para a Rede Baixada: “É emocionante, uma experiência muito legal. Eu sempre li muitos livros, agora pude fazer parte de um também.” E completa: “Vou escrever ainda um livro inteiro!”

Kely diz que o aumento do senso crítico dos leitores é notável, e acrescenta: “Depois que as pessoas começam a ler, elas começam a ler tudo, o mundo, o seu arredor, sua comunidade, sua função e espaço.” Mônica confirma e adiciona que as crianças desde cedo questionam os pais acerca de incoerências percebidas nos espaços, e ressalta que isso também é um desafio: “Falar de política em território marginalizado, não diretamente, mas ensinando coisas como direitos humanos, faz as crianças pensarem mais.” 

Segundo ela, alguns pais não reconhecem a importância da biblioteca na vida da criança e acham que o espaço ensina sobre candidatos políticos, por exemplo, e então reagem de maneira dura. Ela conta que já aconteceu de um pai rasgar o livro que a criança levou pra casa. “É difícil ensinar a ele que é importante que seu filho tenha pensamento crítico. Por isso temos que chamar esses pais para conversar, principalmente quando o filho adquire essa capacidade crítica, pois ele não vai mais aceitar todas as coisas, ele vai querer se manifestar e questionar decisões.”

Tudo isso gera um aumento de incidência política e de maior consciência no voto dos mais velhos. Alguns, inclusive, entram para a política, o que aumenta a representatividade das periferias em espaços públicos e gera maior visibilidade às suas pautas. Isso é essencial na luta principal desses espaços, que visa a democratização do acesso à leitura, bem como o tratamento dela como direito inalienável e ferramenta de transformação.

Estande do livro “Contos da Baixada” na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2017. Celina Borges e Mônica Verdam aparecem à esquerda da foto. [Fonte: Reprodução]

Estande do livro ‘Contos da Baixada’ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2017. Celina Borges e Mônica Verdam aparecem à esquerda da foto. [Imagem: Reprodução/Facebook – Baixada Literária]

Barreiras para maior acesso a leitura

Um grande problema enfrentado pelas bibliotecas que estão situadas nas comunidades do Rio de Janeiro é a falta de mobilidade. Muitos morros e regiões metropolitanas não tem ligações entre si, já que os transportes saem desses bairros afastados apenas em direção ao centro, dificultando que uma criança frequente uma biblioteca em outra comunidade, por exemplo.

Outra questão marcante é o fato de as bibliotecas públicas encontrarem-se em áreas centrais das cidades — levam horas para chegar nelas e o custo de passagem também é muito elevado para a maioria das famílias. Nessa bibliotecas, não é tão comum a presença dos mediadores de leitura, o que dificulta a aproximação da criança com o livro, bem como seu interesse. Além disso, o fator do silêncio imposto nesses locais é algo a que as bibliotecas comunitárias se opõem. Seus espaços são lugares aconchegantes e acolhedores, que inspiram os leitores a querer continuar, e todos podem ler em voz alta se quiserem, para entender e absorver melhor o livro.

As escolas públicas, que em sua maioria não possuem bibliotecas, como a aponta a pesquisa do Inep, e quando possuem têm os mesmos problemas de falta de mediadores e imposição de silêncio. Outro problema é o espaço não é aberto para a toda a sociedade. 

Entretanto, as bibliotecas públicas exercem um papel fundamental para outro grupo excluído que vive nos centros das cidades: as pessoas em situação de rua. Kely, que trabalhou na biblioteca Parque Estadual no centro do Rio, conta que, quando chegou lá, esse grupo se interessava apenas por filmes. Com o tempo ela conseguiu aproximá-los dos livros, e muitos se transformaram em leitores assíduos. “Um dos leitores que era morador de rua reconheceu um dos livros da biblioteca sendo vendido de maneira ilegal num comércio de rua, e confrontou o vendedor dizendo que aquilo era roubo, pegou o livro e nos trouxe de volta. Essas atitudes fazem todo o trabalho valer! Outra pessoa poderia ter ignorado”, ela relata.

Moradores em situação de rua na Biblioteca Parque Estadual – RJ discutindo literatura brasileira [Imagem: Extra/Globo]

Outras formas de levar a leitura de mundo para a periferia

Além das bibliotecas, existem outras formas de levar a leitura até as crianças periféricas. Um exemplo é a BiblioSesc, projeto coordenado e executado pelo Sesc ao redor do Brasil. Consiste em uma biblioteca móvel, feita em barcos, ônibus ou caminhões, que faz o possível para levar os livros até lugares de difícil acesso. O projeto beneficia diversas regiões remotas do país, apesar de algumas falhas, como a falta de periodicidade para que ocorram empréstimos e devoluções de livros após seis meses.

Outro projeto de ampla adesão por alguns anos foram as geladeiras literárias, que consistiam no uso de eletrodomésticos abandonados recheados de livros para que as crianças pudessem pegar sempre que quisessem. Sem forte apoio e organização, a maioria delas desapareceu, porém ainda existem projetos que as utilizam e incentivam. Ocorreu o mesmo com a Parada do Livro, que trata-se de pontos de ônibus com prateleiras para livros.

A leitura revolucionária de mundo não é levada para as comunidades apenas através dos livros. Também existem slams, batalhas de rap, saraus, coletivos, poetas, escritores e cartunistas periféricos. Sobre esses meios, Celina diz: “Eu acho que esses trabalhos vindos dos bairros mais afastados do centro ajudam tanto a elevar o nosso nível cultural, quanto a trazer uma outra narrativa sobre nós que moramos na periferia.”  Ela também fala sobre a atuação do governo no incentivo à cultura para as periferias: “A existência destes coletivos, bibliotecas, etc, não retiram a função do Poder Público. Na verdade, ela evidencia que o governo não está fazendo o seu papel direito, é importante que eles não só façam sua parte como também apoiem essas iniciativas já existentes”. 

Homem pegando livro de Ponto do Livro em São Paulo [Imagem: Reprodução/Catarse via Superinteressante]

A leitura na periferia durante a pandemia

No período de quarentena, as bibliotecas comunitárias encontram-se fechadas fisicamente, muitas inclusive viraram centros de gestão de crise, ou distribuidoras de cestas básicas, máscaras e produtos de higiene. Apesar das barreiras, a maioria das bibliotecas consegue manter um mínimo contato com seus leitores. No Facebook e no Instagram ocorrem diversas lives de mediadoras lendo, e também de discussão de livros. Além desse meio, há os grupos de WhatsApp com áudios de leitura e maior aproximação dos frequentadores.

No período anterior à pandemia, mesmo com dinheiro já era difícil obter um livro, como relata o universitário Igor Soares em entrevista à Época, em junho de 2019: “É mais uma forma de negar a possibilidade da leitura para a gente. Mesmo que eu tenha dinheiro para comprar um livro, mesmo que eu compre esse livro, eles não o entregarão”. Por ser morador do Morro do Borel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, os Correios consideram sua residência uma área de risco, e para ir até uma biblioteca, ele tem que pegar um ônibus e caminhar por mais alguns minutos. Igor ainda afirma que, se não fosse pela biblioteca financiada por uma ONG, sua comunidade teria poucas oportunidades literárias. 

Jovens como Igor, para ler um livro físico nos tempos de pandemia têm de se expor ao risco em busca de um, por conta do lugar em que moram. A maior dificuldade relacionada às bibliotecas nesses tempos é a falta de internet na casa dos leitores. Quando possuem internet, a maioria é por dados móveis, e não se pode gastar muito. Assim, os jovens estudantes acabam sem aula e sem a leitura que os dava prazer.

Vale ressaltar que, nesse momento tão delicado, a literatura, bem como a cultura no geral, têm sido essencial para o alívio de muitas pessoas: uma fuga da realidade para respirar um pouco ou até o ganho de conhecimento. Nesse sentido, ser privado do acesso à literatura complica ainda mais a realidade normalmente dura desses moradores.

[Imagem: Reprodução/RNBC - Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias]

[Imagem: Reprodução/Facebook – Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias]

As bibliotecas comunitárias resistem

As bibliotecas comunitárias têm ganhado cada vez mais destaque na luta pela democratização do acesso à leitura no país, com cada vez mais adeptos e apoiadores. Mônica Verdam destaca a importância de tratar a leitura como direito de todos, independente de gênero, raça ou classe. Para ela, estamos em um momento que é extremamente importante ressaltar a importância da cultura na vida das pessoas. “Se é essencial para você, por que não é assim para todos?” E completa dizendo que “talvez assim sairemos [da pandemia] com mais consciência acerca da importância da literatura em todas as vidas, e de que não deve ser como é hoje, em que apenas as pessoas de maior poder aquisitivo conseguem ter e satisfazer o prazer por ler.” 

Kely Louzada ressalta também a importância de libertar os livros concluídos: “Para você pode ser mais um livro na estante, mas pode mudar a vida de outras dezenas de pessoas”. Ela recomenda que as pessoas ofereçam seu tempo para ajudar uma biblioteca comunitária próxima de onde moram, o que pode ser um aprendizado, já que todos têm coisas a ensinar. “Indique boas leituras aos outros, e deixem que os outros te indiquem boas leituras, elas têm o poder de transformar o mundo”, aconselha. “Cuidado para não levar apenas o que você gosta para dentro da comunidade, deixe que te mostre do que ela gosta também”. Kely evidencia a importância do ouvir e não apenas opinar, essencial para a continuidade da existência desses espaços.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*