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Além das estantes de livros

Diferentes atividades culturais são oferecidas gratuitamente nas Bibliotecas Públicas de São Paulo

JPRESS
25 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Larissa Silva (larissa.silva23@usp.br

Bibliotecas. Consideradas um lugar apenas para consultar livros.

Apenas.

Esqueceram-se da expressão cultural, por quê?

Mas, lá está ela, ainda forte; em forma de contos declamados, obras em exposição, oficinas de teatro, em livros: a cultura.

Um misto de diferentes sensações e sentimentos, que se combina por expressar a cultura de um povo e por estar, gratuitamente, dentro das Bibliotecas.

De acordo com manifesto da Unesco sobre Bibliotecas Públicas, de 1994: “A participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória, como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação”. Para tal, as Bibliotecas são agente necessário, pois são acessíveis aos cidadãos.

No entanto, segundo a 4ª pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Ibope Inteligência em 2015, 71% dos entrevistados acreditam que a biblioteca representa apenas um lugar para pesquisar ou estudar.

Um passado sangrento. Um presente barulhento

 

Fachada da Biblioteca de São Paulo (Foto: Larissa Silva)

 

Terça-feira nublada, 9h20 da manhã, uma fila cresce do lado de fora da Biblioteca de São Paulo (BSP). Aproximadamente 40 pessoas aguardam para entrar no prédio vermelho-tijolo desbotado.

9h34 as portas são abertas – inicia-se um novo dia no Parque da Juventude.

O movimento desde cedo é grande: estudantes que procuram por um lugar tranquilo para ler. Pessoas que se aconchegam nos vários sofás distribuídos por todo o prédio, munidos de jornal e caneta nas mãos, para resolver a cruzadinha diária. Até jovens e adultos que, em 15 minutos, ocupam todo o espaço destinado para utilização de computadores. Sobre isso, Manoel Silva, uma das pessoas que aguardava até então a abertura da biblioteca apenas para utilizar a rede, desabafa: “A gente só pode usar o computador por duas horas, isso é muito pouco! Eu sei que a procura é grande, mas mesmo assim, né? Só consigo usar internet aqui”. Mesmo com essa lamentação, a regra não pode ser quebrada: outros já aguardam pela vez de se sentar em frente ao monitor.

Quem entra na biblioteca sente-se em casa. Começando pelos seis aviões gigantes de ‘papel’ pendurados no teto; o espaço foi criado para incentivar a leitura pelo entretenimento e o bem-estar dos visitantes. Vários sofás foram colocados estrategicamente ao lado das estantes, para dar maior conforto aos leitores. Os diversos computadores, revistas, wifi, jogos de tabuleiro e até mesmo a sala de videogame, são formas de cativar indivíduos de todas as faixas etárias a tornarem-se frequentes leitores. Sobre a estética, as paredes de vidro permitem a entrada de luz natural, trazendo maior conforto na leitura.

Outras atividades que sempre acontecem na BSP são: a Hora do Conto, em que a leitura é incentivada pela interação entre ouvintes e contadores com as histórias interpretadas. Luau, espaço no qual os jovens realizam apresentações artísticas. Tecnologia Dia a Dia, oficinas de Smartphone e Redes Sociais e Curso de Informática Básico para pessoas idosas. Dados de 2017 mostram que já foram 1.058 ações culturais oferecidas na BSP.

Porém, assim como uma casa cheia no domingo, o ambiente na biblioteca é barulhento. No piso superior, Victor Sousa, vestibulando, diz que sentar-se em uma mesa próximo as estantes de livros, em companhia do velho fone de ouvido e dos cadernos escolares, é o mesmo que se desligar do mundo: “prefiro ficar neste canto. Aqui eu consigo focar melhor nos assuntos em que preciso estudar.”

Do outro lado do prédio, Manoel, que já esgotou o tempo diário de acesso aos computadores, pega sua mochila preta e dirige-se às escadas. Se há aqueles que querem se desligar do mundo externo, outros buscam pela conexão. Ele é um destes. Desempregado há nove meses, utiliza o computador para procurar trabalho: “Preciso me informar, uma hora aparece”.

Ao descer as escadas, uma cabine que fica logo na entrada chama atenção pelo nome: “Museu da Pessoa”.   

Dentro e fora do pequeno espaço há fones de ouvidos conectados a televisores que exibem relatos de vidas. Contadas por seus próprios protagonistas, histórias de diversos desconhecidos são eternizadas por eles mesmos.

Manoel, que já estava de saída, vai até a cabine decorada com tampinhas de garrafas, que juntas formam o rosto de uma pessoa, e observa uma moça que relata um trecho de sua vida.  

Acima do televisor, a frase “Uma história pode mudar o seu jeito de ver o mundo” completa o cenário vivo da Biblioteca de São Paulo.

Manoel vai embora. Diz que volta na sexta.

O prédio vermelho-tijolo desbotado encontra-se no Parque da Juventude, lugar que, antigamente, era a Casa de Detenção Carandiru. No dia 2 de outubro de 1992, 111 presos foram mortos. Esse episódio ficou conhecido como o Massacre do Carandiru que, mais tarde, deu origem a livros e filmes sobre o ocorrido.  

Em um ato de revitalização urbana, a Biblioteca de São Paulo foi inaugurada em 2010 e possui hoje acervo geral de 43.113 itens, disponíveis para toda população.

O mesmo lugar que foi cenário para um sangrento acontecimento, hoje é templo para as memórias do passado – transcritas em livros ou em áudios, como os relatos do Museu da Pessoa – e para a exaltação da vida pelas atividades culturais. Porém, ainda é possível encontrar os sinais de um passado marcado pela violência. Seja pelos escombros do que era para ser o Carandiru II, ou pela paisagem aberta, mas com grades de separação.

Uma poesia e meia

Fachada da Biblioteca Alceu Amoroso Lima (Foto: Larissa Silva)

 

Uma fachada cinzenta, que contrasta com a cor do asfalto, pode ser pouco convidativa. Até mesmo a palavra POESIA no alto da estrutura, desbotada, mas ainda assim visível, é despercebida para os carros que passam apressadamente pela avenida.

Avenida movimentada, frenética, enlouquecida. Enquanto que a Biblioteca Alceu Amoroso Lima (BAAL), um ponto rígido no meio da onda de carros, é um oásis para quem procura por um momento de calmaria durante o dia.

Porém, mesmo no interior do prédio, é possível sentir o mundo vibrante que existe além das paredes de pedra. É loucura, ou a mesa vibra cada vez que um grande veículo passa na avenida?

Loucura, ninguém mais percebeu.

P-O-E-S-I-A

A temática da biblioteca, de certa forma, se reflete no prédio: o que é poesia se não a presença e o vibrar das emoções?

Para quem ainda duvida do valor poético do lugar, provas mais palpáveis podem ser encontradas por todos os lados. Normal é você se sentar no sofá, virar a cabeça e se deparar com um cartaz simples, mas cheio de sentimentos.

Cartaz com verso de Alex Richard (Foto: Larissa Silva)

 

Aqui, o jogo de caça ao tesouro é levado a sério. Então procure.

Mas, na falta de tempo, a sala dedicada à poesia é a resposta.

O acervo está crescendo, mas os livros presentes já são suficientes para amantes desse gênero literário. Na verdade, não precisa ser um grande apreciador dessa categoria para querer visitar o local. Para Nilce Faria, uma curiosa que passou apenas para dar uma “olhadinha” na coleção de poesias, “o melhor é pegar algo que você não conhece e dar uma espiada. Vai que você gosta.”

Atrás de Nilce, refletido pelo vidro que envolve todo o espaço, o fluxo de carros continua frenético.

Entre a recepção e a rampa que dá acesso a sala de poesia, um auditório fechado por paredes de vidro chama atenção, pelos movimentos intensos de indivíduos em cima do

palco. Uma peça de Shakespeare está sendo ensaiada.

O Programa Universidade Aberta à Terceira Idade, oferecido pela USP, encontrou na BAAL um espaço para sua realização. A Oficina de Teatro e Dança, ministrada pelo professor de circo, teatro e dança Cauê Zambele, é ambiente de aprendizagem técnica para o espetáculo, mas também de confraternização entre os envolvidos.

Entre falas e gestos, as personagens no palco – descalças ou de meias – se divertem umas com as outras.

“Nunca o amor verdadeiro vai por caminhos suaves”, um ator diz a outra. Sob o olhar atento de Zambele – que subia e descia do palco várias vezes – a cena ganhava forma.

Ao final, todos sobem e dão as mãos. Silêncio. Respiração.

O silêncio é quebrado quando alguém diz: “Eu prometo que vou estudar o texto”.

Todos riem.

Ao sair desta turma, outra, com alguns anos de diferença. Entra: inicia-se outra aula, desta vez da oficina de Teatro Vocacional.

O grupo formado por jovens que estão no Ensino Médio não é grande. Enquanto aguardam a chegada de mais dois integrantes, a orientadora Adriana Paixão faz perguntas sobre a escola e os estudos.

Alguns se mostram despreocupados, outros, não sabem o que fazer no futuro. Mas Paixão, conhecendo bem cada um, aconselha, através de uma conversa animada, para que eles não desistam e se esforcem.

Quando o grupo finalmente está completo, a atividade inicia: jogo de improvisação.

O palco é dividido, de um lado fica o público – os que estão esperando a vez de participar – e, do outro, os que vão interpretar a cena que o público irá escolher.

Depois, durante um pequeno intervalo, ela diz que o objetivo da oficina não é apenas uma aula de teatro, mas um lugar para aqueles jovens desenvolverem-se emocionalmente – algo que não conseguiam na escola. Semanalmente, eles estão presentes, mesmo muitos morando longe. A necessidade de possuírem um lugar para se expressar é gigante, porém, no pequeno auditório da Biblioteca Alceu Amoroso Lima, eles encontraram.

Além dessas oficinas, outras são oferecidas gratuitamente, como as de música. Apresentações teatrais e musicais são atividades tão frequentes quanto os carros do lado de fora.

Entre e surpreenda-se com a luz!

 

Fachada da Biblioteca Villa-Lobos (Foto: SP Leituras)

 

Ao entrar no Parque Estadual Villa-Lobos, o verde é tom predominante para o olhar. Pássaros, flores e pessoas exercitando-se, é o típico cenário presente ao passar pelo portão de entrada. Porém, ao caminhar durante alguns minutos e se aproximar do imponente prédio da Biblioteca Villa-Lobos, cercado por uma vasta folhagem – verde – e espelhos d’água, o que predomina é a vontade de desbravar a bela arquitetura e descobrir se seu interior é tão grandioso quanto sua fachada nada modesta.

E a resposta é sim. Se do lado de fora o verde era o destaque do enredo, por dentro, a luz é a protagonista – graças às paredes de vidro acompanhadas com grandes janelas, o ambiente é perfeito para a leitura, ou apenas para admirar a mãe natureza que circula todo o prédio.

Sentar-se em uma poltrona, ao lado da estante de livros designada para História do Brasil, e sentir a brisa da manhã ainda um pouco gelada, é como fazer parte das narrativas dos livros de autoajuda. Nas quais o autor diz que não há melhor remédio do que uma pausa na rotina para ficar só, ou melhor dizendo, ficar consigo só para refletir sobre a vida – ou algo do tipo. August Cury certamente frequentaria esse lugar.

O movimento na biblioteca não para. Pessoas que caminham pelo parque não resistem ao charme do prédio e entram curiosos. O que acontece depois é comum a todos: sentar-se em alguma poltrona com um livro em mãos. Aqui, o tempo não é cronometrado.

A Biblioteca Villa-Lobos pode ser considerada como uma recém-chegada, pois foi inaugurada em dezembro de 2014. As atividades culturais oferecidas no espaço são parecidas com as disponibilizadas pela Biblioteca de São Paulo. Entretanto, em contrapartida aos barulhos presentes nesta última, na BVL existe uma sala do silêncio. Fechada por vidro, quem almeja por total silêncio encontrará, no piso superior, esse discreto refúgio.  

A arte em todas as suas formas

Fachada da Biblioteca Mário de Andrade (Foto: Larissa Silva)

 

Entrar e se deparar com paredes tomadas por alguma nova exposição artística, não é incomum na Biblioteca Mário de Andrade.

A mostra “Limbo”, presente na biblioteca, é um reflexo disso.

Se limbo é o que está a borda, a beira de algo, ou – no sentido católico – a margem da presença de Deus. A exposição do artista, escritor e professor, José Rufino, reúne obras que foram deixadas de lado por diversos motivos: esquecimento, desprezo ou por estarem inacabadas.

Trazer este resgate de obras esquecidas e expô-las em uma biblioteca é reunir o passado com a sutileza do presente. Reviver memórias e trazer à tona momentos já vividos, dá a chance de sentir novamente o que o tempo levou – se é que levou. Pois, como os livros, a história uma vez escrita, lida e sentida pelo indivíduo, passa a ser parte dele. Mesmo que essa memória, depois de algum tempo vá para o limbo: ela ainda existirá.

Enquanto isso, alguns metros dali, Matheus Rosa estuda para concretizar o sonho de passar no vestibular: “Eu sei que se eu estudar muito vou conseguir. Meus pais estão me apoiando, não posso decepcioná-los.” Para Rosa, o Limbo é o lugar para onde vai todo o conteúdo de matemática que ele já estudou.

A BMA foi inaugurada em 1926 e é a maior Biblioteca Pública da cidade. Sua estrutura, em que “metade” é utilizada como espaço para exposições e a outra utilizada para o acervo dos livros, permite que os indivíduos que buscam por um lugar reservado e tranquilo – fora dos olhares curiosos de quem procura por obras de artes – tenham privacidade.

Júlia Gomes, também frequenta a biblioteca por ser um ótimo lugar para estudar para as provas. “Não resisto ao outro lado do prédio, sempre que tem coisas novas por lá vou ver”. Diversas atividades são oferecidas pela BMA, como apresentação de peças teatrais e cafés literários com escritores. Tudo gratuito.

A importância dessa biblioteca para a história de São Paulo é incalculável, do mesmo modo que foi seu patrono: Mário de Andrade. Além de sua carreira literária, Andrade lutou pela preservação da cultura nacional, e conseguiu. A biblioteca que hoje guarda um acervo precioso da história brasileira nasceu através de seus esforços.

Essa vontade de manter viva a memória é sentida em todos os cantos do prédio. Sentar-se em um dos puffs, em frente a sala de exposição, ou nos que se encontram entre as prateleiras de livros, é estar presente no passado e no ‘agora’ da história.

Um lugar vazio na biblioteca

 

Fachada do Centro Cultural São Paulo (Foto: Larissa Silva)

Ao sair da Estação Vergueiro, um grupo de jovens caminham rapidamente em direção ao prédio cinza, cercado por vegetação. No meio de sua fachada, o nome Centro Cultural São Paulo, marca o destino daquele grupo.

Ao entrarem, assim como outros jovens que estão chegando, acomodam-se em um lugar disponível no grande salão já bem cheio, apesar de ainda ser de manhã. Colocam o amplificador de som de um lado e as mochilas de outro. Se posicionam e play. A música que toca não é a mesma que os outros grupos estão ouvindo, porém, o idioma é unânime. O kpop, música pop coreana, ocupa todo o ambiente. A coreografia – bem ensaiada – mistura-se com as outras que acontecem ao redor do salão. As paredes de vidros são utilizadas como espelhos, e, assim, uma enorme sala de dança coletiva é criada.

Ao atravessar a onda kpop, se vê a placa Bibliotecas/Pisos Expositivos confirmando o caminho a seguir. Os pisos inferior e superior são utilizados para as exposições. O salão foi projetado para que as pessoas possam ter a visão de tudo que acontece, exceto a Biblioteca. Assim, as obras são colocadas ao redor do espaço, no meio fica uma parte livre reservada para as atividades culturais. Enquanto que a Biblioteca fica abaixo de tudo, fora da visão dos curiosos.

Para acessar a Biblioteca é preciso passar pela catraca e descer uma longa rampa. No fim desta, abre-se um grande espaço vazio; em volta, os livros finalmente aparecem.

14h: o espaço vazio passa a ser ocupado.

Um pequeno palco preto e alto é montado. Ao fundo, é colocado uma parede com um pano preto: palco e fundo fundem-se em uma única cor. Tatames coloridos são colocados a frente, cadeiras são distribuídas lado a lado até formarem um grande U.

14h30 começa a Contação de História, realizada todos os meses por diferentes grupos de artistas. Agosto foi a vez da Companhia Mapinguary.

“VENHAM, VAI COMEÇAR A CONTAÇÃO DE HISTÓRIA”, grita o contador Carlos Godoy.  

 

Cena do teatro de bonecos do grupo Mapinguary (Foto: Larissa Silva)

Aos poucos, crianças e adultos – muito mais adultos do que crianças – ocuparam os tatames e as cadeiras. Os mais tímidos preferiram ficar nas rampas, e os visitantes das exposições observaram de cima. Durante 60 minutos, idade foi algo inexistente.

Através de palmas, cantos, e risadas, o show estendeu-se além do palco. As personagens interagiam com o público, e este respondia com o mesmo entusiasmo.

O Grupo Mapinguary, nome do monstro gigante e peludo da Amazônia, que possui uma grande boca na barriga – não aterrorizou ninguém. Pelo contrário, envolveu todas as pessoas, através da história e dos bonecos de madeira, e resultou sorrisos de aprovação ao final.

Aplausos. Uma foto para o face é feita. O público se divide pelo lugar, deixando novamente, o espaço vazio.

No fim de mais um dia de contos, o palco improvisado para as personagens é desfeito. Tudo é colocado dentro de um grande baú, que é posto em um carrinho de mão. Os contadores saem do espaço da biblioteca empurrando os cenários, as personagens e suas histórias. Amanhã tudo será montado para uma nova história e desmontado para uma próxima apresentação.

O show não pode parar.

Gravação da apresentação teatral (Foto: Larissa Silva)

 

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