Home Em Cena “Chaplin, o Musical”: o grande artista é realmente um grande homem?
“Chaplin, o Musical”: o grande artista é realmente um grande homem?
Em Cena
04 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Marcus de Rosa / Audiovisual / Jornalismo Júnior

Para muitos, Charles Chaplin foi apenas o criador do personagem Carlitos, ou “o vagabundo”, como conhecido mundialmente. Na maioria das vezes, não se pensa a figura de Charlie sem a figura de seu personagem, dado sua grande fama. No entanto, existe muito mais para se descobrir sobre o ator, diretor, cineasta e comediante Charlie Chaplin. Sua vida e filmes marcaram não apenas a época do cinema mudo, mas a história do cinema mundial. E é justamente sobre sua vida que fala o musical, estrelando Jarbas Homem de Mello como o protagonista. A peça passa por toda a trajetória de Chaplin, desde sua infância e adolescência, quando sofria por abusos de seu pai junto a seu irmão Sydney (Juan Alba) e sua mãe Hannah (Naíma) passando por seu ápice como cineasta, até sua velhice.

Em cartaz no Theatro Net SP, “Chaplin, o Musical” conta com um elenco de primeira categoria, canções incrivelmente bem produzidas e um figurino preciso, em perfeita sintonia com os períodos históricos retratados. A obra é assinada por Miguel Falabella na direção geral e produzida por Claudia Raia e Sandro Chaim. Mariano Detry e Marconi Araújo compõem a direção cênica e musical, respectivamente. No total, foram 23 atores envolvidos, 21 adultos e 2 crianças. O espetáculo é, em si, uma superprodução.

O enredo flui perfeitamente durante o tempo de exibição. Nenhuma cena “trava” a peça. Pelo contrário, as cenas são dinâmicas e animadas, contando a trajetória percorrida pelo ator de forma descontraída e colando os olhos da plateia no palco. Toda essa intensidade se mantém também nas cenas dramáticas, talvez os pontos mais intensos do musical devido à profundidade das emoções. Estas transparecem não apenas nos atos em si, mas na sincronia e encaixe perfeito das canções nos momentos cruciais. Justamente por isso, deve ser dado o merecido destaque aos fantásticos números musicais. Com uma trilha sonora impecável, tocada ao vivo por uma orquestra, os eletrizantes momentos de canto e dança conseguem transportar o espectador para dentro do universo do musical, seja nos fabulosos teatros dos anos vinte, ou ao lado de Charles e sua mãe Hannah no hospital psiquiátrico. A impressão é de uma viagem ao passado.

Um quesito que chama atenção se refere ao cenário. O musical inova ao trazer um cenário montado, em grande parte, pelos próprios atores. As cenas conjuntas contam com personagens que, enquanto cantam, entram e saem de cena com os objetos necessários. O cenário é quase um personagem, se modificando tantas vezes que não se pode dizer que existe um ambiente mais especial que o outro, ou que ganha mais ênfase ou importância. Além disso, o espetáculo foi capaz de utilizar, com maestria, toda a extensão do palco. Com um grande número de cenas na parte superior, além da recorrente utilização dos lados opostos do palco para representar acontecimentos simultâneos mas de diferentes ambientações, a peça deu um show de logística e preparação.

Entre a música, os figurinos e a atuação impressionante, uma parte a se destacar é o enredo. A história e dificuldades da vida do cineasta são o cenário perfeito para criar um panorama emocional vasto, proporcionando gargalhadas com o clássico Vagabundo e lágrimas com os momentos emocionais de Chaplin com sua família. A forte conexão entre os personagens faz mergulhar na narrativa. Conexão esta que é vista principalmente entre Chaplin e seu irmão, os quais enfrentam diversas dificuldades juntos e passam por momentos de atritos que criam um suspense intenso, grudando nas poltronas. A relação do diretor com sua última esposa também é mostrada de forma emocionante, valorizando o companheirismo e apoio mútuo na relação dos dois.

Entretanto, para além da beleza e magnitude do musical, de sua graciosidade e espetáculo de produção, existem vários problemas. Quem deixa o Theatro Net SP depois da peça, vê Chaplin como um grande e batalhador homem, exemplo de vida, de persistência e de talento. Porém, por mais que não se possa confundir o humano com o artista, quando se produz uma obra que se propõe a falar da vida pessoal de uma figura pública, ser crítico é pré-requisito essencial. Neste sentido, o musical falhou, tendo simplesmente ignorado muitas das grandes polêmicas nas quais o ator e diretor se envolveu.

Nenhuma cena trata seriamente das acusações de abuso e violência doméstica, além do fato de o artista ter se relacionado sempre com menores e as trocado por mulheres mais novas. Das quatro mulheres com quem Chaplin se casou, três eram menores. Quando a obra ousa citar algum desses temas, ela o faz de forma leve, tratando situações sérias e questionáveis com comicidade e ironia. Omitir certos pontos e perspectivas da história também é uma estratégia utilizada, vitimizando Chaplin e culpabilizando as vítimas.

Um desses casos acontece ainda na primeira parte do espetáculo, quando Mildred Harris, a primeira mulher de Chaplin, é apresentada. Ela, desde o princípio, é mostrada como quem “se atira” no diretor, desconsiderando o fato de que o ator tinha a fama e costume de seduzir meninas mais novas. No momento em que Chaplin pergunta a idade da menina, na época com 14 anos, ela responde que idade não importa, em uma risada insinuante. Para um público que desconhece a história de Charlie, a ideia passada, até pela representação exagerada do portar-se da menina, é que ela tenha, no mínimo, 18 anos.

Outro exemplo de falha grave acontece quando Charlie e Sydney conversam sobre os muitos divórcios de Chaplin. Neste momento, o irmão cita que o artista “elevou o golpe do baú a outro nível”, apontando, logo depois, os altos números ganhos pelas ex-esposas do diretor. O maior problema se dá quando Lita Grey é citada. A mulher, que foi quem mais ganhou dinheiro com o divórcio, é retrata, simplesmente, como uma aproveitadora e alpinista social e profissional. Sydney chega a dizer que ela teve “a sorte grande”. Porém, a história é muito mais complexa.

Lita Grey começou a se envolver com Charlie quando tinha 12 anos. Em entrevista dada posterior ao divórcio, a artista afirmou que, em 1923, ele tentou violentá-la durante as filmagens de “Em Busca do Ouro”. A menina resistiu mas o ator não desistiu. Um tempo depois, ele “tirou a virgindade” de Lita. Uma frase conhecida do diretor, e que retrata seu desejo por meninas mais novas é “a forma mais bonita da natureza humana é a menina bem mocinha começando a desabrochar”. Aos 16 anos, Lita ficou grávida. Charlie tinha 35. Indiciado por processos de paternidade e estupro, o diretor aceitou se casar com a moça. Ainda em entrevista dada depois do divórcio, Lita afirmou que ela era tratada com violência e agressividade, além de ser constantemente pressionada de várias formas. Assim, Lita é parte importante da trajetória pessoal do ator. Entretanto, além de ter sua visão da história ignorada, a menina (ou mulher) foi citada em tom ironizante, sendo representada com desdém.

A falta de contextualização e de diferentes perspectivas também é vista no tratar de Hedda Hooper, interpretada por Paula Capovilla. A jornalista é mostrada como uma perseguidora, que quer derrubar Chaplin simplesmente por inveja e por alegar que o artista representava uma “ameaça à moralidade”. As cenas protagonizadas por ela são emocionantes e bem produzidas e executadas, porém, a ideia que geram é a de uma personagem louca que apenas queria exterminar a fama e visibilidade de um astro.

O musical, portanto, mesmo maravilhoso em execução, apresenta grandes falhas ideológicas de roteiro. Chaplin é mostrado como um grande humanista e as mulheres que o rodeiam são as culpadas. Até a cena dedicada a representar sua fama de mulherengo tem tom engraçado e divertido. Os inúmeros filhos fora dos casamentos e amantes do artista nem ao menos são citados.

Aqui, vale questionar o que se encaixa até mesmo no gênero musical. O tom engraçado e descontraído seria necessário para o desenrolar da obra? A representação errônea foi falha humana ou intenção ideológica? Existiam outros assuntos mais importantes? As respostas dessas perguntas podem variar, porém, não existe nada que impede um musical de ser crítico e tratar com seriedade assuntos complicados, vide Os Miseráveis. Sobre o erro humano ou intencionalidade, somente os produtores podem responder a essas perguntas, porém, considerar que um espetáculo tão grande foi mal pensado ou que essas polêmicas nunca apareceram nas pesquisas, certamente realizadas, é ingenuidade. Faltou senso crítico e sobrou o culto a uma personalidade.

Assim, o que o musical acerta na execução de técnica impecável, ele erra em algumas partes do roteiro. Assistir a peça é extremamente prazeroso e de um entretenimento rico e completo, porém, para aqueles que a utilizam como a única fonte de conhecimento sobre a personalidade, a obra não conta toda a história. Não só omitindo como tratando com desdém certas polêmicas que não podem ser esquecidas, o musical não deveria se definir como uma completa e verdadeira biografia.

Porém, como já citado, a obra não é de tudo um erro. E bem longe disso. A dinamicidade, animação e perfeccionismo fazem dela um programa memorável para toda a família. Com uma extensa gama de cores e movimentos, variando entre cenas conjuntas e pessoais e se utilizando, inclusive, de diferentes perspectivas e cenas simultâneas, o musical faz o espectador mergulhar completamente na história. Em um teatro de beleza estonteante, que nada perde ou deixa faltar na estrutura, “Chaplin, o Musical” só errou na idealização do grande artista. Um erro que não é pequeno, mas que não desvaloriza todo o trabalho. O espetáculo, com suas incríveis performances e cenário que também é personagem, vale a pena ser assistido. Principalmente por aqueles que, com senso crítico, são capazes de pensar além do que veem (e escutam).

Chaplin, o musical

Local: Theatro Net SP – Rua Olimpíadas, 360 – Vila Olimpia

Horários: Quinta-feira e Sexta-feira, às 21h. Sábado, às 17h e 21h. Domingo, às 18h.

Duração: 02h:50min

Classificação Livre.

Por Laura Scofield Marcus De Rosa
lauradscofield@yahoo.com.br | mesderosa@usp.com

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