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Concreto e diversidade no coração de São Paulo

Um perfil da Praça Roosevelt, que apresenta seus problemas e conflitos, mas mesmo assim continua acolhendo todos os perfis que passam por lá.

JPRESS
17 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Fernanda Pinotti (fsilvapinotti@usp.br)

Em pleno centro paulistano, não são apenas a Rua Augusta e a Avenida Consolação que se encontram, na Praça Roosevelt as mais diferentes tribos convivem em harmonia ─ ou quase ─ no piso de concreto que serve de palco, pista, cama ou apenas chão para os frequentadores.

A praça é grande e sempre movimentada e o cenário é composto por diversidade. De um lado, um grupo de moradores de rua que, sentados em círculo, fazem rimas improvisadas enquanto se utilizam do chão para produzir a batida de fundo; do outro, skatistas que tornam cada banco um obstáculo; mais a frente, duas senhores fazem crochê sentadas ao sol. A Praça Roosevelt tem espaço para abrigar todos os perfis.

Ela promove não só o encontro dessas diferenças, como também a interação entre elas. É impossível passar uma noite na praça e sair de lá sem ter conhecido alguém novo. Murilo, de 20 anos, fala que frequentar a praça é conhecer pessoas com histórias impressionantes e com realidades diferentes, “sempre tem uma roda de conversa, e essa roda se abre pra todo mundo que tá no local.”

Roosevelt também é, historicamente, palco de manifestações culturais e artísticas diversas. O teatro, o circo, a poesia, o rap, a música e o que mais trouxerem, florescem simultaneamente, transformando a praça em um lugar de vida.

(Imagem: Fernanda Pinotti)

O SLAM Resistência, uma competição de poesia que conta com várias etapas até chegar na esperada final, acontece toda primeira segunda-feira do mês. Os poetas se posicionam no centro de um círculo formado por pessoas, algumas que vão apenas para assistir e outras que se aventuram nos momentos iniciais, a declamar algo de sua autoria. Enquanto o microfone ainda está aberto.

Iniciada a competição, as rodadas selecionam os melhores poetas baseadas nas notas dos juízes – pessoas da plateia que recebem uma pequena lousa para isso. Na final, dois poetas se enfrentam, sempre declamando um poema autoral, dentro do limite de tempo de três minutos. Conforme a competição avança, a qualidade, que já costuma começar alta, sobe cada vez mais, junto com a frequência de vezes que os pêlos ficam arrepiados.  Os poetas costumam retratar a realidade das periferias, da resistência negra e do empoderamento feminino.

O SLAM é uma forma mundialmente utilizada para popularizar a poesia, historicamente reconhecida como expressão exclusiva das elites. Na Praça Roosevelt se expressa quem quiser, quem aparecer por lá, quem tiver algo a dizer.

Toda quarta-feira se encontram também duas tribos distintas naquele chão de concreto. Se de um lado uma batalha de rimas improvisadas acontece; do outro, bambolês, bolinhas e claves vão para o ar no que os circenses chamam de Encontro de Malabares. Os artistas de circo se reúnem e praticam lado a lado contorcionismos, malabares e estranhezas que apenas o circo proporciona, transformando a praça em um borrão de cores e movimento. Os circenses dizem que é essencial existir um espaço como esse, grande e aberto para que todos possam aparecer e ensaiar juntos, sem empecilhos.

(Imagem: Fernanda Pinotti)

A Batalha da Roosevelt acontece há alguns passos de distância. Os concorrentes improvisam rimas na hora e qualquer um pode se inscrever para disputar por alguns minutos. Avança para a próxima rodada aqueles que a plateia decidir, por meio do barulho, que foram melhores. O clima de amizade entre os competidores que estão lá toda semana é visível, a maioria se conhece e já batalhou junto mais de uma vez.

No início da disputa, que começa às 20h e costuma durar até de madrugada, o chapéu é passado pra todos contribuírem com o prêmio do vencedor final. Porém, não é preciso ter dinheiro para fazer a contribuição, de chicletes a fones de ouvido usados, qualquer coisa pode ser acrescentada ao chapéu. Conflitos com a polícia não são raros, geralmente com o pretexto de barulho após o horário permitido, eles tentam acabar com a batalha mais cedo, mesmo que não sejam usados microfones ou caixas de som. Flor, uma das garotas que participa das batalhas, ressalta a importância de ocupar o espaço público, trazendo a cultura da periferia pro centro da cidade. “Sempre rola de parar a polícia pra encher o saco. Eu acho que muitas pessoas ocupando o espaço público de forma cultural incomoda, por isso a importância da batalha continuar acontecendo.”

Não é apenas com a batalha de rimas que o policiamento da praça implica, estão instalados ali dois postos, um da Polícia Militar (PM) e outro da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Os conflitos ocorrem constantemente. Nas conversas com frequentadores, o assunto da repressão policial era quase sempre trazido à tona. Enquanto uns dizem que preferiam a praça antes da reforma, sem os postos policiais, outros afirmam que o espaço necessita de policiamento, porém estão descontentes com o modo que a polícia age.

(Imagem: Fernanda Pinotti)

Caio, de 28 anos, passeava com seu cachorro durante a tarde, quando notou agentes da GCM impondo que um microfone fosse desligado. Ele fala que a Praça se torna menos atrativa para todos por conta de ações como essa, “vira um espaço para o qual você vem e gosta, mas onde você se sente inibido.” Nilo, de 32, concorda e classifica a ação como “policiamento repressivo”. Ele acha necessário a presença dos guardas, porém apenas para garantir a segurança dos frequentadores, e não para reprimir as diversas expressões que tentam ocorrer diariamente.

O microfone, que por imposição permaneceu desligado, conduzia uma roda de discussão política que propunha debater o atual cenário brasileiro. A roda continuou o debate mesmo sem caixa de som, sob os olhos atentos da polícia. Murilo, de 25 anos, participava da conversa e ficou revoltado com a ação policial. “Num país onde a gente tem liberdade de expressão, proibir o uso do microfone em um domingo à tarde, em praça pública, é absurdo.”

Até mesmo os mais conservadores têm ressalvas quanto ao policiamento da praça. Carlos, de 56 anos, acompanha seu filho Bruno, de 11, que gosta de andar de skate no local. O pai não gosta muito da praça pois acontece lá muita “baderna”, mas fica revoltado ao observar situações nas quais a arte é reprimida. “Outro dia, tinha um pessoal fazendo um trabalho bonito, pintando uma faixa que eles mesmos trouxeram, e os guardas foram intimidá-los.”

A “baderna” a qual Carlos se refere acontece pois a Praça Roosevelt serve como ponto de encontro dos jovens da cidade. Lá, passam as noites de fim de semana ouvindo música, bebendo, conversando e conhecendo pessoas novas. Cascão, de 20 anos, frequenta o lugar com os amigos quase todo dia, a Praça representa para eles “o rolê”. É onde vão quando querem encontrar os amigos e sair do tédio. É também ideal para se fazer novas amizades. Nas noites de fim de semana, os bancos quadrados estão sempre cheios e promovem a integração de todos, seja compartilhando bebidas ou a famosa “pizza de 10”, que começa a ser vendida ali no começo da tarde e só acaba quando a manhã chega.

(Imagem: Fernanda Pinotti)

A Praça Roosevelt também é considerada ponto de encontro dos skatistas da cidade de São Paulo. Não é exagero falar que eles tomaram parte da praça para si. É preciso andar atento. Próximo à Avenida Consolação, skatistas cruzam o espaço constantemente e quando param para sentar nos degraus da escada, conversam e descansam por pouco tempo, antes de voltar para cima da prancha. Com o barulho das manobras batendo no chão de fundo, Tiago, de 21 anos, verbaliza a realidade de muitos que vão para a praça andar de skate. “A Roosevelt pra mim é uma válvula de escape pra eu esquecer dos meus problemas, eu venho andar aqui pra curtir e ficar mais tranquilo”. Tiago ainda acrescenta que há pouco tempo atrás aconteciam mais eventos relacionados ao skate e a Praça ficava lotada nessas ocasiões. Desses tempos pra frente, o local começou a ficar abandonado, já é possível ver os sinais de desgaste na construção.

Ao redor da praça estão vários prédios com numerosos moradores, que apesar de terem vista privilegiada para o palco de cultura que é a Roosevelt, não tem escolha quando se trata de encerrar o show. O barulho após o horário permitido é a grande queixa dos moradores.

Nilza, de 62 anos, mora em frente a Praça desde que tinha 28. Para ela, o barulho constante atrapalha, “as pessoas ficam na escadaria gritando, cantando e tocando instrumento musical até tarde da noite.” Ela gosta de ver a praça cheia e movimentada, porém é difícil conseguir dormir nos finais de semana, quando o barulho é maior. Também fala da diferença entre o local antes e depois da reforma que ocorreu em 2012. “Tínhamos o problema dos mendigos e moradores de rua, havia muito tráfico de drogas, era um local abandonado. Depois da reforma isso melhorou muito, mas agora temos barulho à noite.”

(Imagem: Fernanda Pinotti)

A reforma que ocorre em 2012 e muda completamente o formato da praça foi resultado de um esforço conjunto dos moradores e dos principais ocupantes na época de 2000, os grupos de teatro. Uma das ruas da Praça Roosevelt é ocupada apenas por companhias de teatro. Dentre os mais de cinco estabelecimentos que se encontram na mesma calçada, um deles é o Teatro Studio Heleny Guariba, no qual Dulce Muniz, de 71 anos, é diretora. Ela conta sobre como aquela calçada é, historicamente, um local de resistência cultural e discussão política. O número 184, local que o teatro ocupa, já abrigou parte do lendário Cine Bijou, o Cine Clube Oscarito e o Teatro de Câmara de São Paulo. O estabelecimento hoje possui este nome em homenagem a diretora e mentora Heleny Guariba, com quem Dulce estudou no Teatro Arena — uma das maiores expressões de teatro de esquerda do Brasil. Heleny via na arte uma forma de denúncia e resistência contra o regime ditatorial brasileiro. Na década de 70, foi capturada e assassinada pelos militares.

Os teatros da Roosevelt parecem encarar a arte da mesma maneira que Heleny, como forma de expressão política. Não fossem eles, a praça jamais teria sido reformada e reocupada pelo povo. Dulce explica que o modelo arquitetônico do local, construído na década de 70 pelos militares, tinha sido planejado para “impedir manifestações, aglomeração de pessoas e ocupação.” O arquiteto Sun Alex, alguns anos depois, elabora uma tese que confirma essa percepção. Sun escreve sobre como as praças “modernas”, de influência americana, apresentavam obstáculos propositais para impedir o convívio democrático e o uso do local para organizar protestos. De fato, após ser inaugurada como um gigantesco edifício de cinco pavimentos, pareceu se esvaziar no dia seguinte.

(Imagem: Fernanda Pinotti)

Anos depois, o lugar era ocupado pelos moradores de rua, pela criminalidade e pela violência. Apenas a partir da década de 90, o teatro começou surgir no espaço. O Studio Heleny Guariba abre suas portas em 1996 e, com a chegada dos diversos grupos teatrais, pelo menos uma calçada foi salva da degradação que acontecia no ambiente. Até que, em 2011, o edifício central é demolido e a Praça replanejada e reconstruída em 2012. “Os teatros foram fundamentais nessa melhoria. Nós lutamos muito, criamos a Ação Local Roosevelt, tentamos fazer um conselho gestor com os moradores e fizemos muitas reuniões com o Governo pressionando para que houvesse mudança”. Explica Dulce que, mesmo após a demolição do edifício, não se considera satisfeita. Em sua opinião, o concreto, a falta de áreas verdes e a presença avassaladora de skatistas desestimulam a vinda de um público mais familiar e idoso.

A artista também fala que as gestões mais recentes no Governo da Prefeitura impuseram novos desafios à ocupação, como a recente proibição de qualquer tipo de evento de grande porte na Roosevelt. “Não pode ter virada cultural, não pode ter carnaval. Estamos regredindo em relação a ocupação do espaço público.”

(Imagem: Fernanda Pinotti)

A história da Praça Roosevelt é uma representação das manifestações culturais que florescem no Brasil e que, mesmo reprimidas, sempre encontrarão espaço para continuar florescendo. Espero que a praça possa se tornar cada vez mais, nas palavras de Dulce Muniz, “lugar de convívio das várias expressões humanas, artísticas, políticas”, e que cada vez mais pessoas possam aproveitar e participar dessa mistura de todos os tipos.

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