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Cooked não é só mais um programa sobre comida
Água na Boca
15 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

Quatro episódios foram o bastante para mudar a maneira como eu enxergo a comida.

Sabemos que nos últimos anos houve um boom de programas e competições de culinária. É quase impossível nunca ter acompanhado nenhum episódio de MasterChef, por exemplo, ou não ter assistido ao menos uma cena de um grande chef (ou celebridade) cozinhando na TV. Mesmo quem raramente cozinha se interessa por tais programas e se pergunta se conseguiria reproduzir alguma das receitas apresentadas, mas raramente o faz. Os ingredientes são muito complexos e caros; as técnicas, elaboradas, exigem experiência e talento na cozinha. Em resumo, os programas são divertidos de assistir, mas parece mais fácil e prático comprar um hambúrguer no fast food mais próximo. Esse raciocínio, contudo, não se aplica muito bem a Cooked – e isso é uma coisa boa. Talvez isso se deva ao fato de que a produção não é só mais um programa de culinária.

Cooked é uma série documental da Netflix lançada no começo de 2016 e baseada no livro mais recente do jornalista e pesquisador da história da culinária Michael Pollan, “Cozinhar, uma História Natural da Transformação”.  Os quatro episódios partem dos quatro elementos – fogo, água, ar e terra – e começam a abordar a relação da culinária com a evolução humana. À primeira vista, isso me pareceu bastante simples. Seria mais um documentário com uma fotografia bonita que abordaria fatos históricos e traria dados científicos e depois provavelmente apresentaria receitas que me deixariam empolgada, mas que eu nunca colocaria em prática – assim com tantas outras que eu anotei e depois deixei de lado. No entanto, as receitas, com passo a passo, quantidades e ingredientes nunca chegaram. Pelo contrário, fui surpreendida com uma imersão na cultura culinária de regiões e comunidades que dificilmente são visitadas em programas de TV, que culminavam sempre em reflexões bem mais profundas do que eu esperava sobre hábitos alimentares, poderosas o suficiente para causarem ações reais da minha parte.

No primeiro episódio, Pollan e sua equipe visitam uma comunidade aborígene da Austrália Ocidental. O objetivo é investigar o ritual de caçar e cozinhar a carne e a importância dessas práticas para a evolução dos humanos como espécie e para a constituição de sociedades e culturas. A romantização dessas atividades logo dá lugar ao propósito central do episódio: discutir a carne que consumimos hoje, na sociedade “civilizada”, e como e em que escala fazemos isso. Para o jornalista, é importante, ainda que difícil, lidar com o fato de que quando consumimos carne, estamos consumindo, de fato, animais. Segundo ele, tentamos a todo momento nos distanciar dessa ideia e isso se dá porque tentamos não pensar sobre a origem da carne consumida, sobre a forma como esses animais são tratados até que se tornem nossa comida. Seguem daí alguns fatos e cenas alarmantes a respeito da produção de carne, que são contrapostos ao que Pollan acredita ser a melhor alternativa para se continuar consumindo o produto: a criação mais natural e humanizada dos animais, realizada por pequenos produtores em suas fazendas.

Enquanto o primeiro episódio pode ter impacto muito grande sobre aqueles que consomem carne, para mim, com meu vegetarianismo por vezes incerto, outras vezes volúvel, mas constante, ele serviu basicamente para apoiar minhas convicções. Foi só no episódio seguinte, que se propõe a explorar a água, que minha visão sobre a comida e hábitos alimentares começaram a ser mais diretamente questionados. Desta vez, somos apresentados à cultura de Mumbai, na Índia, de uma maneira que, mesmo que interessante, a princípio parece inocente. Começa-se a falar de memórias afetivas em torno da culinária, sobre como cozinhar com água representa reunião e harmonia. Mas aos poucos são introduzidos temas como a falta de tempo para cozinhar e terceirização da culinária e, finalmente, a indústria alimentícia. A abordagem é extremamente bem-sucedida ao traçar o histórico dos alimentos processados, como eles entraram em nossa dieta e quais são os problemas em torno disso. É interessante também que a série foca não só nos países desenvolvidos, maior mercado dessa indústria, mas também nos países em desenvolvimento, que têm sido a grande aposta das coorporações, e nos efeitos disso nas culturas locais.

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Se o segundo episódio é decisivo para deixar claro que a nossa alimentação, da maneira como se dá atualmente, é insustentável, os dois últimos episódios – em que Pollan visita o Marrocos para falar sobre pães e seu processo de fermentação e o Peru para abordar os micróbios que participam da formação e transformação da nossa comida – fazem um bom trabalho em reforçar essa ideia e apresentar ainda mais argumentos para que repensemos o que comemos e como fazemos isso. Para isso, Cooked compra mais algumas brigas importantes, como ao afirmar que a intolerância ao glúten, tópico tão popular atualmente, provavelmente não atinge tantas pessoas como se acredita e que a proteína talvez não seja o problema, mas os outros 31 a 37 ingredientes utilizados na produção do pão industrializado, além da farinha branca, que além de passar por diversos processos químicos, não conta com a parte mais nutritiva do trigo. Aparecem também críticas ao modo de produção capitalista e ao seu impacto na natureza, que gera as mudanças climáticas, cujos efeitos são ainda mais severos para pequenos produtores e para a agricultura familiar. Ainda, afirmar que nem todos os germes são ruins e que, na verdade, precisamos de muitos deles para viver com qualidade, certamente é polêmico, principalmente na era dos produtos que “matam até 99% dos germes e bactérias”.

A reflexão final da série documental, e talvez o ponto que ela desejava abordar desde o início, mas que vai se construindo de forma sutil é que, cozinhar, nos tempos de hoje, é acima de tudo um ato político. Em uma época em que tempo é dinheiro, em que passamos mais horas assistindo pessoas cozinhando na TV do que em nossas próprias cozinhas, preparar nossos alimentos é, para Michael Pollan, negar que as coorporações dominem mais esse aspecto de nossas vidas. Mas não é só isso. Cozinhar pode ser também uma forma de conexão com a natureza, com o fato de que é ela que nos alimenta, e não grandes indústrias. Se hoje não precisamos necessariamente cozinhar para que nos alimentemos, preparar nossas comidas é, cada vez mais, uma escolha, que faremos porque o ato de cozinhar nos faz bem e porque nos preocupamos não apenas com nossa saúde mas com a saúde de todo o planeta.

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Com apenas quatro episódios relativamente curtos, Cooked consegue, ao menos, fazer pensar. Quando terminei de ver a última cena da série, eu passei a pensar em pequenas coisas que eu poderia incorporar ao meu cotidiano para me alimentar melhor e de forma mais natural. Ao invés de procurar receitas mirabolantes que provavelmente dariam errado para pessoas com poucas habilidades na cozinha, eu pensei em refeições simples e fáceis que eu seria capaz de cozinhar. Naquela semana, no mercado, eu evitei os pratos congelados e utraprocessados e escolhi ingredientes frescos, para colocar em prática o que eu tinha aprendido com Cooked. Isso é algo que nenhum programa de culinária tinha sido capaz de me motivar a fazer até então, e é por tal razão que acredito que Cooked não seja apenas mais um dos vários programas de culinária na sua TV.  Talvez essa minha súbita disposição para cozinhar não dure para sempre, e talvez essa, ou alguma radicalização, nem seja a proposta da série documental. O ponto do programa é questionar nosso consumo e tentar enxergar a comida de maneira mais consciente, o que, por si só, já é uma grande mudança e um passo importante. E por apenas isso já vale a pena assistir aos episódios.

Por Mariana Rudzinski
marianarudzinski71@gmail.com

 

 

 

 

 

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