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Cananéia e PETAR: conexões naturais

Como o ecoturismo pode estreitar relações pessoais e com o ambiente

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26 mar 2021 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

Nunca fui muito de turistar. Apesar de sempre viajar com a família nas viradas de ano e nos feriados, o destino quase nunca mudou. Desde criança, o carro abarrotado de malas e mantimentos tinha como destino os dias na praia, primeiramente em Mongaguá, e, na última década, para Santos e São Vicente. 

Só que neste momento de isolamento social, por conta da pandemia da COVID-19, a vontade de viajar foi impulsionada, talvez pelos trajetos dentro de casa terem se esgotado de tantas vertentes feitas. Foi em uma dessas variações que me vieram as lembranças de duas excursões que fiz nos últimos anos, ambas próximas ao extremo sul do estado de São Paulo: a cidade de Cananéia, em 2017, e o Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira, conhecido pela sigla PETAR, em 2018. 

Comecei a pensar em dois lados nessas lembranças: primeiro, o do turista, do público que vai até o lugar. Desde as conexões interpessoais, tanto com os colegas de passeio, quanto com as populações locais, até a conexão com a natureza, a experiência promovida pelo turismo ecológico transforma, de alguma forma, aquele que ali se propõe a conhecer. Já do lado de quem recebe os turistas, além das ligações citadas, acontece a transmissão do conhecimento local, mostrando para o pessoal das cidades grandes, não acostumados com o contato com o natural, outra forma de se viver e de interagir com o ambiente.

Mas, justamente por conta do coronavírus, o ecoturismo, assim como as viagens em geral, foram suspensas, impedindo as ligações de acontecerem. 

 

As relações turísticas

Como eu sei que minhas memórias não são tão plenas e boas assim, propus uma conversa com amigos para lembrar de momentos, descobrir e entender como cada um deles se sentiu nesses locais. Essas viagens, apesar de terem sido feitas com um caráter primariamente pedagógico, por ter ido pela escola, tiveram experiências além do estudo em si, e era isso que eu queria entender deles.

Assim, com a oportunidade surgida, reuni-me virtualmente com sete companheiros de trip: Arthur, Bianca, Daniel, Guerra, Neri, Paulino e Pomar*, todos eles falando sobre suas versões e sobre o que mais os marcaram, tendo em mim apenas a figura da condução da conversa, para poder construir ainda mais minhas lembranças.

E como em toda viagem, começamos pelo trajeto. No ônibus, aquela coisa de brincadeira de escola, jogar stop, começar a cantar, piadas internas sendo criadas, tudo para fazer com que a percepção de tempo das seis horas de viagem passe um pouco mais rápido, além das cochiladas durante o percurso. Mas, além disso, construções de relações aconteceram naquele retângulo motorizado. Arthur contou um pouco de uma amizade que surgiu por conta de uma confusão logística ao separar os ônibus para a viagem do PETAR: “eu fui com o Caio, e eu lembro que a gente cantou, contou piada. Eu me aproximei dele, nunca antes eu tinha tido a oportunidade de ficar seis horas do lado dele, e ele com certeza não tinha percebido que eu era tão elétrico”. 

Pomar, por sua vez, contou que, na viagem para Cananéia, conversou e divertiu-se com pessoas inesperadas: “eu nunca mais falei com aquelas pessoas, mas aquele momento foi muito daora, porque teve uma conexão muito legal ali que era completamente situacional. se fosse em qualquer outra situação não faria o menor sentido, porque era uma galera que ninguém se falava de modo geral”.

Fazendo o retorno à viagem do ano anterior, o percurso em si foi regado, além da questão do natural que ali estava presente, mas também por uma curiosidade histórica em questão. Antes de chegarmos à Cananéia, paramos na cidade de Iguape, a cerca de 205 km rodados da capital paulista. 

Iguape, que até 1538 fazia parte do destino final, é um patrimônio histórico e paisagístico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A cidade possui, em sua arquitetura, uma mistura de técnicas brasileiras e orientais, seus principais atrativos. Isso porque, até o começo do século passado, pouco havia sido alterado, sendo um dos maiores pontos de preservação colonial de São Paulo. Além disso, Iguape está localizada ao sul do antigo Tratado de Tordesilhas, que delimitava a divisão das terras entre a coroa portuguesa e a espanhola. Ou seja, um prato extremamente cheio para qualquer apaixonado pela história.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguape, igreja matriz da cidade [Imagem: Arquivo Pessoal]

Chegando em Cananéia, que é também um marco histórico do país, sendo a primeira cidade fundada no Brasil, por Martim Afonso de Souza, em 1531, as novas relações continuaram a se estabelecer. Na hospedagem, os participantes dos quartos se aproximaram, sejam amizades antigas, sejam novos relacionamentos. 

Ali, todos nós criamos piadas internas, mas, sobretudo, conhecemos um pouco mais de nós mesmos. Mesmo com as brincadeiras, cada um que estava no meu quarto se abriu, pois sabia que ali era um local para reconhecer-se e entender o próximo.

No entanto, a viagem que mais ficou marcada por conta das relações interpessoais foi a de 2018. Localizado em Iporanga, o Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira abriga mais de 350 cavernas – apenas sete visitáveis, para a não degradação do local. Entretanto, antes de falar do local em si, como o tópico já explica, falarei um pouco de um momento de união pessoal muito forte que aconteceu no hotel em que a gente estava.

Um professor que estava acompanhando a viagem propôs uma reflexão: colocar em um papel coisas que cada um queria que acontecesse e, em outro, coisas que não queria que acontecesse, guardando o primeiro e queimando o segundo. Essa atividade acabou sendo emocionante por rememorar o que estávamos remoendo e retornar esperanças, conectando-se às nossas ideias, mas também conhecendo ainda mais as aflições e sonhos dos outros.

Após isso, o momento de conexão intensificou-se, com quase todos que estavam naquela viagem acomodando-se ao redor da fogueira para cantar e tocar músicas de todo tipo. Neri, que deu a ideia e, inclusive, havia levado o violão para a viagem, relembra com entusiasmo: “Sabe aquele momento que você sente que está valendo a pena? Foi a gente puxando a ideia mesmo, a gente que incentivou. Tocar e cantar com gente super aleatória, que não teria oportunidade se não fosse ali, foi um momento bem diferente”.

Nas duas viagens, o curioso foi ver como só foi possível estreitar os laços criados a partir do momento em que houve a retirada do local comum.

 

O fogo iluminando as relações [Imagem: Arquivo Pessoal]

O outro lado do turismo

Só que, diferentemente do que muitos podem pensar, o ecoturismo não acontece somente por um lado, pelo pessoal que vai ao destino, fica um certo período, e volta. Ele é construído, principalmente, por aqueles que moram e ficam no local, alternando a sua vivência com a recepção aos visitantes.

Para ajudar, então, a rememorar sobre essas populações, conversei com Jonas Santana do Prado Filho, assessor do departamento de turismo de Cananéia. “Quando o turismo é pensado para essas regiões, tem que ser uma via de mão dupla, na qual o turista que venha possa absorver e leve esse conhecimento e a importância da forma de vida dessas comunidades, porque ali é a origem”, explica.

A estrutura e organização dessas populações pode ser percebida nessas nossas excursões, em ambos os locais. Por ser uma viagem pela escola, conhecemos e visitamos pessoas e comunidades com modelos de sociedades diferenciados das cidades grandes do país.

Em Cananéia, conhecemos um pouco da vida e da produção agrícola de trabalhadores locais, que atuam principalmente na pesca, tanto artesanal quanto industrial – principal atividade da região –, e no cultivo de banana. Diferentemente do que costuma acontecer na escala produtiva, nessa relação com a natureza existe um respeito com o que ali é feito e produzido, respeitando o ciclo de cada produto.

Além disso, o que mais foi engrandecedor de conhecer, sem dúvidas, foram os quilombos do Mandira, localizado em Cananéia, e do Ivaporunduva, na cidade de Eldorado, a cerca de duas horas de Iporanga. Conhecer uma forma diferente de estrutura e organização de uma sociedade riquíssima em sua cultura material e simbólica me fez perceber outras formas de se agir perante ao mundo. Para quem pouco saiu da cidade de São Paulo e seus arredores durante a vida, assim como eu, essa viagem expandiu minhas orientações sociais e pessoais. 

[Imagem: Arquivo Pessoal/Bianca Anacleto]

Bianca entende que esse processo, apesar de um pouco rígido no começo, trouxe também uma nova visão a ela: “Uma coisa muito bonita é essa questão da cultura, porque eles não abandonam, podemos colocar assim, a cultura e as tradições, e isso a gente não tem tanto presente, por morar na cidade grande”. Daniel completa: “O contato humano não muda, o que muda é a experiência, o que muda é como cada um vive, mas a relação não muda, o modo que se trata o outro permanece”.

Existe, nesses locais, uma intenção em fazer os turistas conhecer e entender a história do povoado e as formas de sustentação ali presentes. A valorização das instalações, tendo sido levantadas por escravos fugidos durante o período colonial, é algo ainda latente em cada atividade local. O famoso viveiro de ostras do Mandira, a culinária local, a medicina natural, todas as atuações possuem muito respeito tanto com as origens da população, quanto com a própria natureza em questão, respeitando sempre seus ciclos e suas formações.

Homem fazendo extração de ostras em atividade do ecoturismo de Cananéia

Extração de ostras, no Quilombo do Mandira [Imagem: Flickr/Povos do Ribeira]

Santana explica que é exatamente isso que o turismo de base, no qual a visitação às comunidades quilombolas estão inseridas, tenta apresentar: a cultura e os costumes de uma população mais afastada do caos urbano. “Há outras formas de se organizar, há outras formas de convívio em sociedade, que é um pouco desse jeito da vida perto da água, do caiçara, que tem aquela coisa toda. A gente se move e planeja o dia tentando entender um pouco desses elementos naturais”, explica o assessor.

 

A natureza como forma de vida

Mas é justamente na relação com a natureza que houve um impacto profundo em mim. Sendo “bicho-da-cidade”, principalmente por ser da capital paulista, as áreas verdes e naturais estão restritas às delimitações dos parques do município, tendo no cinza uma espécie daquilo que a literatura chama de cor local, regendo o ambiente. 

Nessas viagens aconteceu a aproximação com esse natural, o fora do urbano, que em poucas vezes eu vivi. Ter a noção de que tudo aquilo existe por existir, sem uma interferência humana, com o seu processo de formação tendo durado milhares e milhares de anos, me impressionou muito. Guerra, além de concordar com essa parte, aponta uma certa ignorância das pessoas em relação à natureza: “O ser humano tende a pensar que é cheio de si. No final, a gente morre muito fácil, nosso tempo é curto, comparado com a terra em si, e a gente não passa de um animal, querendo ou não.”

Tanto as regiões de Cananéia quanto o próprio parque do PETAR possuem as principais e maiores porções de Mata Atlântica nativa e intocada do país, uma raridade se considerado que essa vegetação é um hot spot – regiões de alta biodiversidade, endêmica, e que corre risco de extinção. 

Vegetação em Cananéia [Imagem: Arquivo Pessoal]

Rememorando de forma cronológica, a região de Cananéia tem em suas estruturas vegetais o grande atrativo local, principalmente indo para as Ilhas do Cardoso e do Bom Abrigo. Entretanto, nesse percurso, existe a parte da fauna que chama, e muito, a atenção dos turistas. Para chegar a essas ilhas, é necessário pegar balsas para sair do continente e, estando nelas, é possível observar botos-cinza, livres no mar e que saem da água para saudar os novos visitantes. 

Chegando às ilhas, existe aquilo que Jonas Santana denomina como “turismo de experiência”, sobretudo ao atravessar o mangue. O assessor de turismo explica que existe um incentivo para que as pessoas adentrem nessa e em outras atividades que possam tirar da zona de conforto, mas que depende muito do que o turista está interessado em realizar.

No meu caso e dos meus amigos, entrar “de cabeça” – às vezes, literalmente – no mangue, foi uma forma de superar certos receios em relação ao natural. Daniel aponta que ali foi um divisor de águas em relação a uma certa repulsa com ambientes desse tipo, aliado a um sentimento de companheirismo: “Quando entrou no mangue, agora que todo mundo foi, se eu não for, vai pegar mal para caramba, tá todo mundo curtindo e eu não querendo me sujar. Daí a gente sujou toda a camisa, meia, depois foi correndo para a praia, foi bem legal”. Ele ainda finaliza com uma mudança na sua mentalidade: “Depois disso, qualquer outra coisa é ficha, já passei pelo mangue, por que eu não vou tomar chuva?”.

Mas o que, sem dúvidas, foi um consenso em nossa vídeo chamada foi a sensação diferenciada que as cavernas do PETAR nos proporcionaram. Naquele dia, fomos divididos em grupos para fazer a visitação de algumas das sete cavernas disponíveis no circuito: Santana, Água Suja, Morro Preto, Couto, Cafezal, Alambari de Baixo e Ouro Grosso. 

Ecoturismo em caverna do PETAR

Visão de dentro de uma das cavernas do PETAR [Imagem: Arquivo pessoal]

“No momento em que você está lá e que você começa a ouvir os barulhos de dentro, você começa a entender a estrutura, as rochas que formam, as pequenas quedas d’água, as goteiras, é indescritível”, explica Paulino. Bianca complementa a noção da experiência sensorial: “Você está sentindo tudo aquilo, é muito imediato. Quando apagam as luzes, você fica desnorteado, é uma coisa única, é uma experiência única”.

Além disso, esse escuro é algo muito diferente das cidades, repletas de luzes, tendo o escuro somente na hora do sono. “A gente não só não estava dormindo, a gente estava no meio do dia, sem conseguir ver nenhuma luz, e estava rodeado de pessoas. São coisas muito opostas entre si, e isso acabou gerando uma experiência única”, aponta Arthur.

Santana explica que, nessas excursões, pedagógicas ou por conta própria, o mais importante é que as pessoas saibam onde estão indo e o que podem encontrar lá para, além de proteger o ambiente natural encontrado, disseminar as sensações obtidas ali para atrair novos viajantes. “A melhor forma de educar e zelar por isso é o conhecimento, é informação, gerar informação, gerar dados, para que a população entenda a importância disso dentro do segmento turístico”, finaliza o assessor.

 

*Agradeço aos amigos que ajudaram, e muito, nas lembranças dessas viagens que foram inspirações para a crônica: Arthur Guerra, Arthur Nascimento, Bianca Anacleto, Daniel Ynoue, Leonardo Pomar, Lucas Neri e Paulino Cassiano.

 

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