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Jogos Paralímpicos: a tecnologia aliada ao esporte

Entenda mais sobre os diferentes equipamentos usados pelos paratletas que contribuem para a alta performance nos esportes

Corpo e Mente
08 set 2021 | Por Emilly Gondim (emillygondim@usp.br) e Gabriel Gama Teixeira (gabriel.gama.teixeira@usp.br)

Os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 tiveram início no dia 24 de agosto de 2021 e as disputas das 22 modalidades da competição se encerraram no dia 5 de setembro. Cada uma delas exige adaptações diferentes para a prática do esporte pelos paratletas, como cadeiras de rodas modificadas, próteses esportivas e outros itens de alta tecnologia. Saiba mais sobre esses aparatos tecnológicos e como eles potencializam a performance dos atletas paralímpicos.

A primeira edição oficial da Paralimpíada, competição que envolve exclusivamente atletas com deficiência, ocorreu na cidade de Roma, em 1960. O evento estreante contou com apenas 400 inscritos de 23 países. Na edição deste ano, realizada no Japão, participaram cerca de 5 mil paratletas de todos os continentes, dos quais 253 representaram o Brasil. O País teve o melhor desempenho de sua história em Paralimpíadas e alcançou o 7º lugar no quadro geral de medalhas, além de conquistar número recorde de medalhas de ouro.

Devido aos graus variados de deficiência dos paratletas, a realização das provas exige uma enorme diversidade de equipamentos, que vão desde cadeiras de rodas modificadas a atletas guias que conduzem os competidores com deficiência visual.

Natalia Duarte Pereira, doutora em fisioterapia pela Universidade Federal de São Carlos [Imagem: Reprodução Instagram / @gfit_neuro]

Um exemplo de aparato de tecnologia avançada são as próteses ortopédicas, usadas principalmente no atletismo. Em entrevista ao Laboratório, Natalia Duarte Pereira – docente do Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenadora de uma página no Instagram sobre funcionalidade e inovação tecnológica em neuroreabilitação – explica que as próteses são dispositivos externos que substituem e reposicionam um membro ou estrutura faltante do corpo. “Elas têm diferentes tipos, são feitas de diferentes materiais e têm diferentes finalidades: existem próteses estéticas, que apenas mantêm a aparência, e as próteses extremamente funcionais, que auxiliam em algum tipo de atividade específica para a qual ela foi desenhada. Isso varia de acordo com a necessidade do usuário, do paciente”, complementa.

As próteses para o uso no esporte exigem um processo detalhado para se optar pelo melhor modelo, conforme diz Natalia. A escolha do equipamento varia de acordo com a demanda do usuário e da modalidade do esporte. Se a prática exige um acúmulo de energia para dar impulso ou um suporte grande de peso em levantamentos, as próteses terão designs e materiais diferentes. “O paratleta tem voz ativa nesse processo, afinal, é ele é o beneficiário. A escolha é feita em equipe, junto com o usuário. Educadores físicos, fisioterapeutas, médicos, ortopedistas, todos juntos fazem parte desse processo”, explica a especialista.

O que chama a atenção nos equipamentos são suas tecnologias que tornam o esporte viável em algumas modalidades. As cadeiras de rodas esportivas têm encosto baixo, rodas inclinadas e os pés dos paratletas ficam muito próximos ao corpo; tudo isso para proporcionar a melhor performance e ocupar o mínimo de espaço possível. Por sua vez, elas não são utilizadas fora da quadra, pois são desconfortáveis para a postura do dia a dia. Os paratletas possuem duas cadeiras de rodas — uma para o cotidiano e outra para o uso esportivo, lembra Natalia. O mesmo vale para as próteses.

 

Partida de basquete feminino em cadeira de rodas na Rio 2016, com destaque para as adaptações das cadeiras. [Imagem: Reprodução / Wikimedia Commons]

Partida de basquete feminino em cadeira de rodas na Rio 2016, com destaque para as adaptações das cadeiras. [Imagem: Reprodução / Wikimedia Commons]

As tecnologias também são diferentes entre os esportes, já que os equipamentos seguem as necessidade de cada paradesporto. Por isso, uma cadeira de rodas da bocha é distinta daquela usada no basquete, pois necessita de maior estabilidade para a realização dos movimentos, enquanto o basquete precisa de agilidade e dinamicidade na movimentação.

Carolina Lazari em Tóquio com medalhas de atletas paralímpicos [Imagem: Reprodução Instagram / @caroldelazari]

Carolina Lazari em Tóquio com medalhas de atletas paralímpicos [Imagem: Reprodução Instagram / @caroldelazari]

Há ainda modalidades que não usam as próteses para auxiliar na movimentação, mas seus equipamentos são adaptados, pontua Carolina Lazari, pós-graduada em Fisioterapia Esportiva pela Universidade de São Paulo (USP) e fisioterapeuta da seleção brasileira de Paracanoagem. Em Tóquio para os Jogos Paralímpicos, Carolina explica, em entrevista ao Laboratório, que, na paracanoagem, o barco é modificado a partir da regulamentação da Federação Internacional de Canoagem (ICF), que diz que as alterações só podem ser feitas se deixarem o barco mais pesado buscando a estabilidade do competidor, já que não são utilizadas as próteses ou cadeiras de rodas. Carolina também lembra que não é permitido o uso das tradicionais saias de vedação na paracanoagem, porque elas podem esconder algum movimento que causaria uma vantagem injusta, como alterações na estrutura do barco.

 

Atletas de paracanoagem, Giovane de Paula e Mari Santilli, no Japão.  [Imagem: Carolina Lazari / Montagem: Gabriel Gama]

Atletas de paracanoagem, Giovane de Paula e Mari Santilli, no Japão.  [Imagem: Carolina Lazari / Montagem: Gabriel Gama]

História das próteses e cadeiras de rodas

Lembra do Capitão Gancho, das histórias do Peter Pan? Ele é uma figura emblemática que povoa nossa imaginação desde criança. Além do gancho substituindo a mão, ele também tinha uma perna de pau, e ambas podem ser consideradas próteses. Fora da literatura, a primeira prótese de madeira que se tem conhecimento existiu há 3000 anos no dedo polegar do pé de uma múmia egípcia, desenhada com partes em couro. A prótese foi testada por cientistas da Universidade de Manchester, através de réplicas exatas em voluntários que não possuem o “dedão” direito. O teste apresentou 60% a 87% de similaridade com o pé sem amputação das pessoas voluntárias.

 

A prótese de um dedão encontrada na múmia egípcia. [Imagem: Reprodução: G1/Museu Egípcio do Cairo/"The Lancet"]

A prótese de um dedão encontrada na múmia egípcia. [Imagem: Reprodução: G1/Museu Egípcio do Cairo/”The Lancet”]

Com o passar dos séculos, as próteses evoluíram, mesmo em ritmo lento. O gancho é ligado à Idade Média (séculos 5 a 15), época na qual as próteses eram produzidas pelos ferreiros de armaduras. Feitas de metal, elas eram pesadas, o que limitava a movimentação, e ainda, exigia suspensórios para manterem-se juntas aos corpos. Porém, em 1863, Dubois D. Parmelee patenteou uma prótese que ficava suspensa por sucção, o que eliminava a necessidade de outros equipamentos para segurar, e tal tecnologia revolucionou o campo desses dispositivos: é empregada até hoje.

Foi somente com as Guerras Mundiais que o desenvolvimento tecnológico das próteses se intensificou, devido aos milhares de sobreviventes que perderam membros nas batalhas. Os polímeros, moléculas formadas pela união de outras moléculas menores, foram introduzidos como material de produção por conta da leveza, impermeabilidade, viscoelasticidade e flexibilidade. Isso  tornou as próteses mais duráveis e confortáveis, além de uma melhora na estética do equipamento, ao ficar mais semelhante a uma perna.

Com os avanços tecnológicos nas próteses, chegou a vez do avanço na fisioterapia para a reabilitação das pessoas com deficiência. Assim surge a paralimpíada, que foi idealizada por Ludwig Guttmann em 1952, chamada de Jogos de Stoke Mandeville, para que os pacientes pudessem desenvolver força, coordenação e adaptação em relação à prótese ou à cadeira de rodas. Como o projeto também proporcionava socialização e inclusão, em 1960 ele foi oficializado em Jogos Paralímpicos.

No início do evento, os equipamentos ainda não eram projetados para atividades físicas, as cadeiras de rodas tinham encosto alto e rodas paralelas, o que poderia dificultar os movimentos ágeis de um desporto. Conforme o crescimento dos Jogos, as indústrias começaram a produzir equipamentos pensados na lógica da prática esportiva e do alto rendimento. A empresa Össur é reconhecida nacionalmente por patrocinar paratletas brasileiros, como Caio Ribeiro da paracanoagem, viabilizando o esporte de alto rendimento no País.

 

Caio Ribeiro com sua prótese da Össur, alongando no Japão. [Imagem: Reprodução/ Carolina Lazari]

Caio Ribeiro com sua prótese da Össur, alongando no Japão. [Imagem: Reprodução/ Carolina Lazari]

E o futuro das próteses?

Atualmente, com a nanotecnologia, as próteses seguem em um processo de refinamento e melhoramento de suas funções. Natalia aponta que a evolução dos materiais é um fator importante dessas mudanças — o uso de matérias-primas como fibra de carbono e titânio promove mais leveza e resistência aos equipamentos. Além disso, a pesquisadora destaca as articulações protéticas como outro avanço tecnológico: “Hoje temos os chamados joelhos inteligentes, que captam, com treinamento e um software, a movimentação do joelho íntegro e o imitam em velocidade e em movimentos de desaceleração”. Segundo ela, esse tipo de tecnologia possibilita uma caminhada mais natural e suave, ao ponto de ser difícil diferenciar qual é a perna protética e qual é a íntegra.

Com relação ao futuro desses equipamentos, Natalia diz que as integrações mente-prótese devem ser a grande inovação a tomar forma nos próximos anos. Esse tipo de tecnologia diz respeito a sistemas de sensores que captam a intenção mental do usuário de realizar certo movimento físico e transmitem essa informação à prótese. Ou seja, não é necessário movimentar uma parte do corpo para mover a prótese, ela se move de acordo com o pensamento da pessoa. “A configuração e a qualidade do movimento fica mais próxima de um membro íntegro, não é mais preciso movimentar o ombro para movimentar o cotovelo, ele é acionado com a intenção mental”, explica a pesquisadora.

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COMENTÁRIOS
Diandra
Quem dera nossos atletas paralímpicos estivessem tendo tanto reconhecimento quanto os atletas olímpicos. Não consigo definir o orgulho que eu tô do nosso pessoal!
08 set 2021
 
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