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‘Eu nunca…’, segunda temporada: nova história, velhos problemas

A segunda temporada de Eu nunca…, bem humorada e altamente caricata, se mostra um ótimo passatempo, mas um pesadelo para aqueles telespectadores mais críticos

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08 ago 2021 | Por Eduarda Ventura (eduardaventura@usp.br)

Aqueles que assistiram à primeira temporada de Eu Nunca… (2020-) puderam se deleitar com um prato cheio das típicas características das séries da Netflix: o foco no público adolescente, os estereótipos que beiram o caricato, as referências pop e o figurino divertido que reflete as tendências do momento. Na segunda temporada, lançada em julho de 2021, apesar da recente tentativa da distribuidora americana de quebrar com essa imagem de apenas produzir séries para jovens, tais elementos ainda estão presentes, e numa trama que mudou pouco em relação aos primeiros episódios da série.

A ideia central da história de Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan) é criativa e divertida. Criada numa família indiana tradicional nos Estados Unidos, a garota se equilibra desde a infância entre os costumes ensinados em casa e aqueles apreendidos na rua. A série começa com Devi orando e pedindo um namorado aos Deuses — a partir daí, compreendemos o que ocorreu no último ano de sua vida, desde a morte de seu pai até a consequente paralisia por três meses de suas pernas. Os acontecimentos da primeira temporada giram em torno dessa busca incessante por um companheiro, que culmina, no final do último episódio, em um beijo naquele que havia saído de seu pior inimigo para seu mais fiel amigo, Ben Gross (Jaren Lewinson). 

A série prometia, nos trailers da segunda temporada, ter como enredo principal o triângulo amoroso entre Devi, Paxton e Ben. Imagem: [Reprodução: Instagram/ Netflix Brasil]

A série prometia, nos trailers da segunda temporada, ter como enredo principal o triângulo amoroso entre Devi, Paxton e Ben. [Imagem: Reprodução: Instagram/ Netflix Brasil]

O retorno de Eu Nunca… é um balde de água fria naqueles que esperavam um desenvolvimento pessoal na egocêntrica e infantil protagonista. A passagem de tempo entre os episódios não passa de alguns segundos, numa continuação da cena do beijo, sem espaço para que o telespectador encontre — como ocorreria se houvesse uma diferença temporal maior entre as temporadas — uma Devi mais madura e estável. Esse desenvolvimento aparece em fracas pinceladas nas últimas cenas da série, mas não é suficiente para compensar todo o restante. 

Diferentemente daquilo que os trailers deixam a entender, porém, a história narrada nos novos episódios não gira em torno do triângulo amoroso criado na primeira temporada entre Devi, Ben e Paxton (Darren Barnet): esse conflito se resolve em grande parte no segundo capítulo, quando os dois descobrem que Devi namorava com ambos ao mesmo tempo. Nos oito episódios restantes, acompanhamos a personagem principal enquanto ela faz aquilo que faz de melhor: focar em seus próprios problemas, piorando-os, e atrapalhar as pessoas ao redor na resolução dos seus próprios.

Um dos pontos altos da segunda temporada foi, definitivamente, o maior desenvolvimento dos arcos das personagens da família de Devi: sua prima Kamala (Richa Moorjani) teve espaço para revelar a inteligência tão citada na primeira temporada, apesar da tentativa casmurra dos roteiristas de mantê-la em saltos de relacionamento amoroso em relacionamento amoroso; sua mãe pôde desenrolar mais ainda seu processo de superação do luto em relação à morte do marido e a aparição a avó paterna na história também foi também um indiscutivelmente ótimo alívio cômico. 

A família é o ponto alto da segunda temporada, mesclando de forma satisfatória momentos sérios e descontraídos ao longo das temporadas. [Imagem: Reprodução: Instagram/Neflix Brasil]

As amigas de Devi também puderam continuar suas trajetórias apesar de terem, numa repetição bem maquiada, os mesmos problemas em novas formas. A questão de Fabiola (Lee Rodriguez) com sua sexualidade e recente relacionamento com a namorada é, talvez, uma das únicas esferas da série realmente tratadas com certa sensibilidade. Já o arco de Eleanor (Ramona Young) foi quase angustiante de acompanhar: o abandono da mãe e o relacionamento abusivo vivenciado foram tratados de forma rasa e se mesclaram na segunda temporada com frases de efeito que, ao final, não resolvem verdadeiramente a insegurança da personagem. 

A série também recebe uma nova participação em 2021: Aneesa (Megan Suri), que pode ser considerada a menos caricata de toda Eu Nunca… Torna-se quase impossível não se afeiçoar por sua simpatia genuína e, assim como a personagem principal também faz, compará-la com o egoísmo de Devi. Sua história, contudo, também é extremamente mal desenvolvida — seu romance repentino com Ben e a terrível maneira como seu distúrbio alimentar é tratado como nocivo apenas por ferir sua popularidade na escola são pontos muito negativos para a série.

Os atores de 'Eu Nunca...' Lee Rodriguez, Maitreyi Ramakrishnan, Ramona Young e Jaren Lewinson nos bastidores da série. [Imagem: Reprodução: Instagram/ Netflix Brasil] 

As amigas de Devi também tiveram espaço para suas histórias nos novos episódios de ‘Eu Nunca…’. [Imagem: Reprodução: Instagram/Netflix Brasil]

Em meio a esses problemas, entretanto, Paxton teve espaço para seu desenvolvimento pessoal, o que fica evidente no episódio focado nele, narrado por Gigi Hadid. Apesar de se mostrar como manipulador e infantil, ao longo dos episódios é possível observar uma melhoria em suas atitudes — ou uma tentativa para tal —, muito nutrida por seu avô e sua fabulosa irmã, Rebeca, que merece maior participação numa possível terceira temporada. 

Além disso, foi interessante acompanhar novamente outros personagens que não tiveram tanta relevância na temporada um, como Prashant (Rushi Kota), apaixonante do início ao fim, Eric (Jack Seavor McDonald), o romântico incompreendido, Trent (Benjamin Norris), que surpreende no último episódio como um galanteador, professor Shapiro (Adam Shapiro), sempre cômico com sua tentativa de ser desconstruído, e Eve (Christina Kartchner), doce desde sua primeira aparição.

Em conclusão, a série cumpre aquilo que se compromete a fazer: com uma diversidade significativa e enriquecedora entre os personagens, é um leve e bem humorado passatempo. Assim, poderia ter deixado de fora as questões realmente sérias vivenciadas pelas personagens e focado, ao menos nessa segunda temporada, em um drama mais adolescente, como o ciúmes e a indecisão em relação aos sentimentos pelos dois garotos, ou, caso quisesse mantê-las, um pouco mais sensibilidade caberia bem. 

A narrativa não perde o bom humor, muito pelas narrações excepcionais, porém, para o telespectador mais crítico, esses pontos talvez incomodem. Apesar deles, entretanto, a série é uma boa companheira para um final de semana entediante, mas é um desafio àqueles que se propuserem a assisti-la não se irritar com Devi. Spoiler: as únicas falas sensatas dela aparecem nas últimas cenas do último episódio. Dedos cruzados para a terceira temporada!

*Imagem de capa: Reprodução/Netflix

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