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Streamings: o mundo do cinema para além de Hollywood 
CINÉFILOS
04 jul 2020 | Por Ana Carolina Guerra (anacarolinariosguerra@usp.br)

Talvez você conheça a história de uma obra audiovisual não estadunidense lançada sem muita divulgação em uma plataforma de streaming que se tornou um grande sucesso. Esse é o caso do filme espanhol O Poço (El Hoyo, 2019), mas também é o do turco Milagre na Cela 7 (Miracle in Cell NO. 7, 2019) e do brasileiro Ricos de Amor (2020).

O sucesso dessas obras é uma prova da virada de mesa no consumo da indústria cinematográfica com a ascensão das plataformas de streaming. A primeira plataforma a chegar ao Brasil foi a Netflix, em 2011. Porém só em 2013 começou a produção de séries originais da plataforma, e sua consolidação no país ocorreu entre 2017 e 2018.

Antes da popularização dessas plataformas, o público mainstream costumava, em sua maioria, assistir apenas produções hollywoodianas e filmes de seu próprio país. Enquanto filmes estrangeiros normalmente atingiam um público internacional por meio de festivais e mostras de cinema. 

Isso fazia com que somente filmes tidos como mais “””artísticos”‘”” (com muitas aspas) saíssem das telas do seu país de origem. Contudo, só pessoas que se interessam por esses eventos e as obras exibidas acabavam entrando em contato com eles. Claro que algumas produções, como A Vida é Bela (La Vita è Bella, 1997) e Diários de Motocicleta (The Motorcycles Diaries, 2004), ao longo dos anos, conseguiram furar a bolha e chegar ao grande público, mas essas foram a minoria.

A partir de sua  popularização, as plataformas ― principalmente a Netflix ― começaram a produzir conteúdo próprio, de várias nacionalidades, que foram disponibilizadas para o mundo inteiro, além de fazerem a distribuição internacional de produções não estadunidenses. Isso possibilitou que o público pudesse entrar em contato com os muitos tipos de filmes de diferentes locais,  o que beneficiou os espectadores e mudou suas relações com a indústria cinematográfica mundial. 

 

Filme turco Milagre na cela 7 é um dos sucessos da Netflix (Imagem: Divulgação/Netflix)

Filme turco Milagre na cela 7 é um dos sucessos da Netflix (Imagem: Divulgação/Netflix)

 

Esse é o caso da espectadora Agni Gonçalves, estudante de 17 anos que tem o hábito de assistir muitos filmes no seu tempo livre. Em entrevista à Jornalismo Júnior, ela contou que, antes do streaming, costumava  assistir obras de comédia e ação dos EUA, e que somente via filmes não estadunidenses quando um conhecido indicava, mas que era bem mais difícil de encontrá-los do que é hoje. 

Agni também disse que começou a utilizar a Netflix há cinco anos e, hoje, é sua principal forma de ver longas. A partir disso, ela começou a assistir mais filmes internacionais e, atualmente, vê uma quantidade semelhante de obras dos EUA e de outros países ― principalmente do Brasil, da Espanha e da Itália ―, além de assistir produções de todos os gêneros. 

A estudante também comentou que acha que as produções estrangeiras apresentam um conteúdo mais profundo e, geralmente, diferente em relação às obras Hollywoodianas, apesar de serem inferiores na elaboração dos roteiros e nos efeitos especiais.

Isso pode ser atestado com o filme O Poço, por exemplo, que conta a história de uma prisão em forma de poço, dividida em níveis, na qual a comida é distribuída de cima para baixo e se torna mais escassa a cada nível. Essa distopia é recheada de críticas sócio-políticas ao sistema e, assim, instiga uma grande reflexão no espectador, mas o roteiro tem problemas. 

Além disso, ela falou que gosta muito de quando essas obras captam as individualidades do país que está sendo filmado. Para finalizar, Agni comentou que as plataformas de streaming a possibilitaram assistir uma maior diversidade de filmes, principalmente filmes que antes seriam ofuscados pelo extremo marketing dos gigantes estúdios hollywoodianos.

 

O Poço é uma distopia cheia de críticas sócio-políticas ao sistema (Imagem: Divulgação/Netflix)

O Poço é uma distopia cheia de críticas sócio-políticas ao sistema (Imagem: Divulgação/Netflix)

 

Em contrapartida, o professor, crítico de cinema e fundador do Canal Cineplot, Philippe Leão não vê com bons olhos as produções não estadunidenses produzidas e disponibilizadas pelos serviços de streaming. Segundo ele, as plataformas apenas estão massificando o processo de americanização das indústrias cinematográficas de outros países, assim, replicando uma fórmula sem acrescentar nada de novo na linguagem cinematográfica. Para Philippe, “a  diversidade de línguas não se reflete em uma diversidade de formas. Mas as formas  “passam a ser cada vez mais padronizadas aos moldes americanos para atender a uma demanda de mercado a qual a Netflix e outros serviços buscam atender”.

O crítico também acredita que esses serviços nos dão uma falsa sensação de diversidade no conteúdo, pois não modificam a lógica da forma e apenas mostram que outros países fazem filmes. Para ele, falta apresentar, de fato, diversidade: “a descoberta de filmes de diferentes nacionalidades e diferentes formas no fazer deve estar vinculada a outros meios de fato libertadores, porque a disseminação da cultura jamais será completa se buscarmos exclusivamente aquilo que o capital nos deseja apresentar”. 

Ao padronizar a estrutura até dos filmes de línguas diversas em uma única lógica, as plataformas, portanto, não trouxeram diversidade, mas sim a falsa sensação de estarmos assistindo algo diferente em razão da língua. Nesse sentido, ele reforçou que existe uma profunda diferença entre língua e linguagem a língua é apenas o idioma no qual os personagens se comunicam no longa, enquanto a linguagem engloba todo o fazer cinematográfico, indo desde peculiaridades no roteiro até a maneira com a fotografia conduz o olhar do espectador.

Além disso, um ponto levantado por Philippe é de que os serviços de streaming impulsionaram as séries e, com isso o processo de serierização da linguagem dos filmes. Muitos filmes passaram a não encerrar  o seu arco narrativo em si mesmo, mas sim em uma próxima produção, dessa forma, rompendo um dos pilares da linguagem cinematográfica e se aproximando mais do formato das séries. Exemplos disso são as produções do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). Os 22 longas encerram seus arcos somente no último filme, Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019). Assim, o MCU aparenta ser uma série, na qual os longas seriam as temporadas. 

Ele comentou que, com o streaming, as séries também estão influenciando o fazer cinematográfico: as plataformas reproduzem no formato cinematográfico o que foi sucesso nas séries. Esse é o caso das produções espanholas. Primeiro, as séries se tornaram grandes sucessos e, depois, a Netflix percebeu que havia uma demanda por produções espanholas e começou a investir nos filmes. 

A espectadora Agni Gonçalves é um exemplo desse processo. Ela conta que as primeiras obras não estadunidenses que ela assistiu foram as séries espanholas La Casa de Papel e Elite e, gostando dessas obras, resolveu assistir os filmes espanhóis também. Isso também é perceptível, quando observamos as produções de outros países, como por exemplo do Brasil e da Turquia: primeiro a Netflix investiu na produção de séries desses países e, após o sucesso da brasileira 3% e da turca O Último Guardião, a plataforma investiu nas obras cinematográficas Ricos de Amor e Milagre na Cela 7, respectivamente, que também se provaram grandes sucessos. 

 

3%  é a série de língua não inglesa mais vista no EUA (Imagem: Divulgação/Netflix)

3%  é a série de língua não inglesa mais vista no EUA (Imagem: Divulgação/Netflix)

 

É inegável que a estratégia de produzir e distribuir obras estrangeiras foi um gigantesco acerto dessas plataformas, sendo comprovado pelo sucesso que muitas dessas produções se tornaram, muitas entraram até para o Top 10 da Netflix de produções mais vistas em vários países, como é o caso dos longas Milagre na Cela 7, Ricos de Amor e O Poço (que ficou por algumas semanas nas primeiras posições da lista).

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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