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Serviços de streaming — Você ainda vê filmes e séries do mesmo jeito?

Como a inovação das plataformas de streaming afetam o modo como conteúdo é produzido e consumido no nosso dia a dia

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04 maio 2020 | Por Guilherme Bolzan (guilhermeppbolzan@usp.br)

Não é novidade para ninguém que os serviços de streaming dominaram o mercado de consumo de filmes e séries. Hoje, locadoras se mostram tão raras quanto equipamentos de DVD nas casas das pessoas.

Essa tendência acompanhou a expansão da internet, mas veio um pouco depois dela. O primeiro grande serviço de streaming foi a Netflix, fundado em agosto de 1997, nos Estados Unidos. No começo, era uma locadora que operava pela internet, em que os usuários encomendavam CDs e DVDs que chegavam pelo correio e deveriam ser devolvidos alguns dias depois. Com a expansão da internet, aumento das velocidades de conexão doméstica e maior flexibilidade dos navegadores, a empresa começou a colocar os vídeos em seu site, substituindo o envio de uma cópia física para casa das pessoas. Ao invés de alugar o disco, como em uma locadora, os usuários iriam pagar uma assinatura mensal para ter acesso a sua biblioteca, podendo assistir quando e quantas vezes quiserem, sem precisar pagar pela cópia individualmente ou sair de casa para pegá-la. Foi a partir daí que sua popularidade explodiu.

A ideia de um site com vídeos não era algo novo, o YouTube e diversas redes sociais já faziam isso; o grande diferencial é que o conteúdo da Netflix era o mesmo que passava na televisão ou nos cinemas, mas sem a necessidade de ter que esperar para ter acesso a ele. Foi destas vantagens que surgiram os termos streaming e on-demand para designar seu serviço. Desde de a ascensão da Netflix, muito do funcionamento da plataforma mudou, conquistando cada vez mais o espaço da televisão no dia a dia das pessoas. Recentemente, vários serviços de streaming concorrentes foram lançados. Entre os mais destacados estão o Amazon Prime, o HBO GO e o Disney +, este último lançado ainda neste ano. Ainda se destacam serviços mais especializados, como Hulu e Crunchyroll, este focado em animes.

Emylly Alves, que usa a Netflix e o Amazon Prime, afirma que a principal vantagem deles é seu catálogo extenso, “filmes tanto clássicos como os mais novos, além das séries”. E essa é realmente uma grande vantagem que os  serviços de streaming têm sobre a televisão. Além da praticidade de poder assistir a qualquer momento, eles permitem também que o usuário pague uma quantia fixa para ter acesso a todo catálogo, ao invés de pagar por filmes assistido. 

Além disso, Emylly menciona outro motivo de usá-los: os filmes e séries exclusivos. “Gosto bastante das produzidas por eles mesmos, as exclusivas, principalmente da Netflix, que eu acho que é revolucionária nesse meio”, afirma ela.

Com o crescimento cada vez mais acelerado tanto na quantidade como na qualidade dos conteúdos por streaming, não é surpreendente que tenha dominado um espaço no nosso dia a dia. Dessa forma, é importante refletirmos sobre como essa nova plataforma afeta o modo como consumimos nosso conteúdo.

O professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA e diretor cinematográfico Rubens Rewald afirma que a arte do cinema tem uma forte conexão com as mudanças tecnológicas ao seu redor. “[Ela] sempre teve essa ambiguidade, desde seu começo lá no século XIX. Ao mesmo tempo é arte e indústria, além de cultura e entretenimento”, afirma o professor. Dessa forma, é difícil atribuir um julgamento de valor ao avanço dos serviços de streaming. Por um lado, eles permitem que mais pessoas tenham acesso à arte e entretenimento, popularizando o cinema. Por outro, acaba por aproximar a arte mais de seu aspecto industrial e comercial, produzindo conteúdo para que se disseminar nesta nova plataforma, principalmente com as empresas assumindo o controle do entra ou não entra no seu catálogo. Nas palavras de Rubens, “ele tem um componente cultural e outro mercadológico. O que acontece é que os interesses comerciais acabam por falar mais alto que os interesses culturais”.

Ao discutir o assunto, o professor destaca que hoje acontecem discussões sobre como regular esses serviços de streaming. Segundo ele, essa discussão é extremamente importante, pois deve definir cotas de produção nacional, as quais seriam uma obrigatoriedade por parte dessas plataformas para incluir em seu catálogo uma certa quantidade de filmes nacionais, participar da produção de novos e incluir produções nacionais independentes.  

Se isso fosse implementado, o enorme poder que essas empresas possuem poderia ser direcionado para a ampliação e desenvolvimento do cinema nacional, ajudando a desenvolvê-lo. Como um exemplo similar de sucesso, Rubens Rewald cita o regulamento vigente da TV a cabo, que inclui cotas similares: “essas cotas foram revolucionárias na produção nacional, foram um boom no setor, em termos de contratação de mão de obra e de desenvolvimento artístico”. 

Sua importância se destaca também para proteger o cinema brasileiro, especialmente em um momento que os conteúdos estrangeiros se tornam mais disponíveis com o streaming. “Se não houver regulamentação o que vai acontecer: ou a gente vira consumidor de produtos estrangeiros ou, se não forem feitas produção nacionais de forma independente, a gente vira prestador de serviços”, afirma ele.

Impactos como esse na produção de países que recebem os serviços de streaming se tornam bastante claros ao longo do tempo, com cada vez mais pessoas se afastando de novelas e seriados nacionais para dedicar seu tempo a conteúdos estrangeiros, grande parte deles estadunidenses. Mas serviços como a Netflix, famosa não só por seu extenso catálogo, como também por suas produções independentes, parecem estar adiantando essa regulamentação. Apesar da grande maioria do conteúdo ainda prover dos Estados Unidos, nos últimos anos a empresa tem incluído tanto filmes e séries produzidas por elas em outros países como também produções de terceiros. Isso ajuda a popularizar produções que diversos países, as quais antes não recebiam a mesma visibilidade.

Uma das características desses serviços é lançarem toda a temporada de uma série de uma só vez, para prover conteúdo ao assinante e deixá-lo escolher em qual ritmo assiste. Ao fazer isso, os serviços “incentivam o que o pessoal chama de binge watching, maratonar, assistir tudo em uma jornada só”, diz Rubens. Com isso, a narrativa se adapta: “antes era necessário ter uma narrativa com ganchos muito fortes, para segurar público entre uma semana e outra, agora nem tanto”. Com a disponibilidade de todos os episódios de uma vez, não é mais necessário criar cliff hangers (ocasiões em que o final de um episódio não resolve a trama, deixando o espectador curioso para ver o seguinte) forçados para garantir que a audiência na televisão voltará quando o próximo vir ao ar. Agora, a narrativa tende a deixar os episódios mais interconectados, sem longas interrupções para manter o drama. 

Além disso, com essa tendência, os produtores de conteúdo podem assumir que o espectador já viu todos os episódios anteriores, já que pode vê-los a qualquer momento, diferente da televisão, em que eles passavam em horários específicos. Dessa forma, ao produzir uma temporada, não é mais necessário assumir que todo episódio pode ser o primeiro para algum espectador, deixando conexões entre os episódios mais fracas e dispersas, para não confundir alguém que tenha acabado de mudar o canal. A história que uma temporada conta pode ser mais contínua, mais serializada. “As séries tinham, antigamente, uma narrativa mais episódica, os episódios mais independentes entre si. Como as pessoas podem assistir um depois do outro, eles se tornaram mais interligados dramaticamente, como uma novela”, diz Rubens.

O professor ainda destaca outro fator, igualmente importante para discutir o modo como o streaming afeta o cinema: a proeminência. Segundo ele, a proeminência é o destaque dado pela empresa a certos filmes e séries em seu catálogo, colocando-os em partes mais chamativas ou mais recomendadas diante do público. Dessa forma, uma fatia maior do público acaba por assisti-los. Na sua visão, seria importante também regular o modo como essas empresas lidam com a proeminência, para garantir que os filmes nacionais inclusos no catálogo consigam encontrar seu público e não fiquem restritos às profundezas das listas de recomendação.

Esse é um dos tópicos mais importantes para saber como o avanço dos serviços de streaming afeta nosso consumo de conteúdo, afinal, é a partir das recomendações e do destaque dado para nós que escolhemos o que assistir. No caso dos serviços de streaming, a decisão de destacar uma conteúdo ou de colocá-lo na sua lista de “recomendados” é realizada por um algoritmo de recomendação. Enquanto esse trabalho era realizado principalmente por campanhas de publicidade ou indicações de conhecidos, agora, com os serviços de streaming, é um programa de computador que o faz.

André Lima, pós-graduando na área de computação, trabalha com o desenvolvimento de algoritmos de recomendação para as mais diversas áreas. Ele faz uma analogia para explicá-los: “um algoritmo é um tipo de receita, como uma receita culinária. O cozinheiro segue uma sequência de instruções sobre como manipular e combinar os ingredientes para preparar um prato”. A diferença está em quem pode entender essas instruções e executá-las. Para o computador fazer esse processo, é preciso que elas sejam escritas de acordo com regras, em uma linguagem que ele compreenda, uma linguagem de programação.

Já no caso dos algoritmos de recomendação, “o produto final é uma sugestão de, por exemplo, qual restaurante próximo ao usuário oferece um prato que ele vai gostar”, afirma André. O modo como ele faz isso pode variar de empresa para empresa e de algoritmo para algoritmo, mas todos eles têm um fator em comum: buscam informações do passado para tentar fazer recomendações no presente. Assim, esses programas necessitam de informações tanto dos filmes e séries como dos usuários, para poder criar combinações entre o que um usuário gosta e as características do conteúdo disponível na plataforma.

Segundo ele, os algoritmos podem ser classificados em três tipos, todos com o mesmo objetivo, mas que o atingem com diferentes estratégias e diferentes níveis de complexidade. O primeiro tipo são algoritmos de recomendação não personalizada. Eles são os mais básicos, operando com base nas avaliações dos usuários. Os filmes e séries com melhores avaliações são mais recomendados para todos, sem qualquer personalização de usuário. Esse tipo de programa é mais simples, sendo mais usado antigamente. Sua principal fraqueza é não avaliar as diferenças de gosto dentro de seu público, fazendo recomendações muito genéricas que nem sempre se encaixam com preferências individuais.

O segundo tipo é de recomendação personalizada individual. Seu trabalho é de “recomendar aqueles itens que são mais similares aos itens que a pessoa já consumiu e gostou”. Ou seja, com base nas decisões de quais filmes e séries um usuário mostrou interesse e avaliou positivamente no passado, o algoritmo irá tentar encontrar e recomendar similares.

Por último, há os algoritmos de recomendação personalizada colaborativa. Esses funcionam de maneira semelhante ao anterior, mas ao invés de levar em conta somente o que aquele usuário já gostou, o programa também busca encaixar esse usuário em um perfil, criando um grupo de pessoas com perfis de gostos similares. A partir dos gostos desse grupo, o algoritmo irá recomendar algo ao usuário, confiando que possuem gostos similares. Segundo André Lima, geralmente os grandes serviços de streaming empregam essas três abordagens, usando uma para compensar as fraquezas e lacunas da outra, conseguindo, dessa forma, uma recomendação melhor.

Qualquer que seja o tipo de algoritmo empregado, o especialista em algoritmos destaca que seu trabalho é achar o conteúdo que mais se encaixe no gosto do usuário. Para isso precisa de informação tanto do conteúdo que está recomendando (gênero dramático, direção, público-direcionado, plataforma, detalhes do enredo, etc), geralmente obtida através das descrições dos filmes e de avaliações de usuários na internet, como do usuário que pretende atingir (o que ele já assistiu no passado, avaliações de filmes e séries no passado, tempo de uso do serviço, no que ele clica, quais categorias dá preferência, o que procura, quais trailers assiste, etc; incluí até mesmo filmes e séries que ele não viu, apenas clicou para saber mais). Mas, independente desses fatores, para qualquer uma dessas abordagens funcionar bem, é essencial que o sistema registre a avaliação dos usuários para cada item, ou seja, é necessário registrar o rating que cada usuário atribui aos itens que consome”. Quanto mais informação sobre seu gosto o algoritmo tiver, mais precisas serão suas recomendações.

Por mais que a ideia de “programas de computador decidindo nossas recomendações” possa dar medo, é preciso ver esses algoritmos com mais complexidade. André afirma que eles são empregados em situações nas quais não é possível ou viável para um usuário conhecer todas as opções a sua escolha, necessitando, dessa forma, de algum guia por todo esse universo. Os algoritmos, se bem construídos e usados, podem ser esse guia, ajudando a fornecer para as pessoas o que elas buscam de maneira mais eficiente. Isso fica claro no projeto associado ao ICMC-USP em que ele trabalha, desenvolvendo um algoritmo que ajude idosos a encontrar as atividades que mais gostam (e precisam) para um envelhecimento ativo.

Mas, também existe debate sobre algumas consequências negativas. Como esses algoritmos sempre recomendam com base nos gostos pré-existentes dos usuários, é possível que eles deixem este gosto “viciado”, recomendando sempre um conteúdo similar. Sem contato com o novo, o gosto ficaria impedido de evoluir. Eles muitas vezes “limitam a diversidade dos itens aos quais seus usuários são expostos. Alguns algoritmos de recomendação, aqueles que oferecem recomendação personalizada e individual, estão mais sujeitos a essa condição”. Porém, se aplicados corretamente, os algoritmos podem reverter essa situação. Quando esse algoritmo se baseia não só nos gostos de um indivíduo, mas leva em conta também as preferências de um grupo diverso (diferentes nacionalidades, idades, classes sociais e gostos pessoais), ele pode gerar uma recomendação de algo que o usuário por si só nunca teria contato. Portanto, o algoritmo ajudou a romper a bolha de isolamento e a conectar seu gosto com o gosto de outras pessoas. Esse processo de gerar uma surpresa na recomendação é chamado de serendipidade, e está cada vez sendo mais implementado para ajudar os usuários a expandirem seu leque de interesses (o que comercialmente também faz sentido, já que o usuário irá consumir mais conteúdo). Nas suas palavras, “os algoritmos de recomendação personalizada e colaborativa ajudam o usuário a descobrir itens que são bem diferentes do que ele costuma buscar, justamente porque esses algoritmos exploram as experiências de outros usuários do sistema e isso promove diversidade nas recomendações”.

De qualquer forma, entre suas vantagens e desvantagens, o professor Rubens afirma que é inegável que este seja o futuro do consumo de filmes e séries. “O streaming é a evolução, não dá para negar a existência dele”, então deve se aproveitar a mudança para ampliar seus aspectos positivos e combater os negativos. E isso começa por reconhecer como ele nos afeta e como afeta a arte que consumimos. 

 

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