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Observatório | Flexibilização da quarentena e a reabertura dos cinemas em São Paulo
CINÉFILOS
12 jul 2020 | Por Ana Carolina Guerra (anacarolinariosguerra@usp.br) e Luisa Martins Costa (luisa.mc@usp.br)

No dia 3 de julho, o governador de São Paulo, João Doria, anunciou a antecipação da reabertura dos espaços culturais para eventos com público sentado, como os  cinemas. A reabertura era prevista para a última fase do plano de flexibilização da quarentena no estado, a fase 5-azul. Agora, ocorrerá nas cidades que permanecerem na fase 3-amarela por, no mínimo, 28 dias. Assim, a capital paulista provavelmente reabrirá seus espaços culturais a partir do dia 27 de julho, visto que está na fase 3-amarela desde 29 de junho. Essa medida vem preocupando profissionais da saúde, trabalhadores do ramo cinematográfico e frequentadores desses espaços.

Para a reabertura, os estabelecimentos devem elaborar protocolos de funcionamento e tê-los aprovados pela vigilância sanitária, seguindo as restrições estabelecidas pelo Governo de São Paulo. A ocupação máxima será de 40% da capacidade, o uso de máscara será obrigatório, o funcionamento será limitado a 6 horas por dia, e os assentos serão marcados respeitando certo distanciamento. Além disso, a venda de ingressos será online e o consumo de alimentos e bebidas nos locais será  proibido. 

Entretanto, mesmo com as restrições, a reabertura dos espaços culturais é arriscada. Segundo Raquel Stucchi, infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a antecipação da reabertura dos cinemas é “absolutamente precipitada” e deveria ocorrer quando a curva de casos estivesse descendente. Porém, essa não é a atual situação da cidade.

A transmissão do coronavírus está relacionada à proximidade entre as pessoas, à ventilação do ambiente e ao tempo de permanência no local. Pode-se controlar o número de pessoas nos cinemas e o distanciamento entre os assentos, mas são locais não ventilados onde as pessoas ficam por bastante tempo. E a adesão ao uso de máscaras durante as exibições não é fácil de fiscalizar. “Então em cinemas temos todas as condições necessárias para uma grande transmissão”, afirma Raquel. 

Dessa forma, a reabertura inevitavelmente apresenta riscos não só para os funcionários e o público dos cinemas, como para a população em geral. Raquel também observa a pouca viabilidade econômica de manter funcionários para a limpeza dos espaços, para o controle na entrada e o funcionamento dos cinemas no geral e ter uma baixa frequência de pessoas usufruindo do espetáculo cultural. 

Realmente prevê-se que não haverá grande aderência do público aos cinemas no momento, visto que a capital paulista ainda apresenta grande circulação do vírus e a maioria das pessoas não parece segura em visitar esses espaços. Maria Luísa Bassan, frequentadora assídua dos cinemas em épocas de pré-pandemia, contou ao Observatório que ainda não se sente segura em frequentá-los. Ela acha arriscado e diz que há outras maneiras de se vivenciar cinema, como o drive-in. “O cinema é um ambiente muito legal por você saber que as pessoas estão tendo aquela experiência junto com você. E isso tem que ser feito de uma forma segura”.

Mirian Nakamura, outra grande frequentadora dos cinemas, acredita que a reabertura desses espaços é importante para a retomada da economia e das atividades do cotidiano, e seria possível fazê-la com relativa segurança se todos tomassem os cuidados necessários, mas não descarta o risco de uma nova onda de casos. 

O cinéfilo Rodrigo Ribeyro também acha compreensível a reabertura dos espaços culturais, tanto pela dificuldade econômica de tais espaços se manterem quanto pelo “aprofundamento de sofrimentos” que estariam sentindo os adeptos da quarentena, por conta do prolongamento e da falta de eficácia das políticas públicas em relação ao isolamento social. Entretanto, ele acredita que os cinemas sejam uma questão mais delicada – por motivos semelhantes aos que Raquel explicou – e também aponta o drive-in como uma alternativa mais segura.

Uma parcela dos críticos de cinema também apresenta opinião contrária à reabertura, como Donny Correia e Isabel Wittmann. Segundo esses profissionais, antes da pandemia, seus trabalhos já eram feitos, majoritariamente, em home-office. Segundo Isabel, “a primeira atividade afetada foram as cabines de imprensa, que são as sessões realizadas para jornalistas e críticos antes do lançamento de um filme”. Já Donny informou que os estúdios e as distribuidoras estão se adaptando a essa nova dinâmica. Ele explicou que os críticos estão recebendo links protegidos dos filmes para realizar as críticas. Ambos os profissionais afirmaram ser contrários à reabertura devido aos riscos para saúde pública e que, no atual momento, não retornarão a frequentar os cinemas, preferindo continuar a analisar longas disponíveis via streaming ou DVD.

Donny Correia também afirma que, com a paralisação das atividades dos cinemas tradicionais, outros meios de assistir filme estão ganhando espaço, como os cinemas drive-in e as plataformas de streaming, que já eram gigantes do mercado cinematográfico. Os festivais e mostras de cinema também estão se adaptando. Como Donny explica, muitos festivais estão sendo realizados virtualmente. O festival Varilux de Cinema Francês e o festival We Are One: a Global Film Festival são alguns exemplos dessa mudança. O festival Varilux teve sua edição de 2020 adiada indeterminadamente, mas disponibilizou, em formato digital, filmes apresentados em edições anteriores no site Festival Varilux em casa, até o dia 27 de agosto. 

cinema drive-in

Belas Artes Drive-in, no Memorial da América Latina, em São Paulo.
[Imagem: Kaio Lakaio/VEJA]

Enquanto isso, os drive-ins, que tiveram o seu ápice nos anos 50 e 60, estão retornando e conquistando cada vez mais público no período da quarentena. Essa forma de assistir filmes têm sido uma alternativa para os cinemas tradicionais, como apontaram Maria Luísa e Rodrigo. Um exemplo disso é o tradicional cinema paulistano Cine Petra Belas Artes que está promovendo transmissão de filmes em drive-in no Memorial da América Latina em São Paulo.

O crítico Donny também aponta para o fato de que filmes que iriam estrear no cinema no início da pandemia, estrearam no streaming. “Mesmo pagando um pouco a mais, constatou se que as pessoas optaram por aderir e comprar esse serviço para assistir ao filme em primeira mão, isso gera uma renda maior para o filme”, comenta Donny. Esse é o caso dos filmes SCOOBY! (SCOOB!, 2020) e Emma (2020). Segundo o crítico, após a pandemia, o mundo e a indústria cinematográfica mundial não voltaram a ser como antes. Para ele, as novas formas de consumir cinema dominarão o mercado e o cinema tradicional se tornará um espaço mais comemorativo e nostálgico, no qual se realizarão, principalmente, mostras e festivais.

Enquanto as salas estão fechadas, profissionais do audiovisual estão promovendo a campanha #JuntosPeloCinema, para fortalecer o vínculo entre cinema e público, relembrando a experiência da exibição nas salas de cinema.Para recepcionar o público na reabertura, o movimento realizará o Festival De Volta para o Cinema, que exibirá diversos filmes que emocionaram os brasileiros e marcaram a história do cinema.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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