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‘Evil Dead’ e quando o trash vira tendência
CINÉFILOS
02 maio 2020 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

Em 1981, os filmes de terror voltaram a ficar em evidência. Com longas como Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978) e Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980), novas portas se abriram para diretores se arriscarem, mesmo com investimentos mais honestos, se comparados à grande indústria. O jovem Sam Raimi foi um desses diretores e com ele surgiria o filme que seria base para muitas outras obras: The Evil Dead, ou conforme traduzido no Brasil, Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio (1981).  

Através de muitas pesquisas, Raimi e seus colegas perceberam que os maiores sucessos de baixo orçamento eram de filmes de terror; além disso, algo que despertava maior atenção é que quase todos eram feitos por diretores iniciantes. Sendo assim, só faltava achar a fonte certa para o desenvolvimento da narrativa e Raimi encontrou no escritor H. P. Lovecraft o objeto perfeito para dar vida a sua história: O livro dos mortos, Necronomicon (Al Azif, 1933). 

O objeto citado é, na verdade, um livro fictício criado por Lovecraft e engloba muitos conceitos utilizados em sua mitologia, mas a intenção principal do livro era carregar diversas profecias e feitiços, que se usados de forma errada, poderia resultar em grandes tragédias… o que de fato ocorre. 

 

O famoso livro Necronomicon com sua capa feita de pele humana, o objeto que acorda os terríveis demônios em Evil Dead

O famoso livro Necronomicon com sua capa feita de pele humana, o objeto que acorda os terríveis demônios em Evil Dead [Copyright Metropolitan FilmExport]

 

Com o livro aberto e ativado, vemos um desfile de concepções que ficariam eternizadas e que estabeleceria um novo conceito ao mundo dos sustos: o longa de terror feito em uma cabana abandonada (que seria reutilizado incessantemente por outros diretores). Preparado para enfrentar demônios com maquiagem estranha, galhos com vida própria e um livro com um rosto muito feio em sua capa? Se sim, ligue sua motosserra, porque a trasheira está apenas começando.

 

O trash que não queria ser trash

Muitas vezes menosprezado devido a outros longas que saíram na mesma época, The Evil Dead continua sendo um dos poucos casos de terror que não sofreu desgaste ao longo do tempo e que, inclusive, deu origem a diversos produtos de entretenimento, expandindo ainda mais a sua marca (já teve até crossover com a princesa guerreira Xena, acredita?!). O fato de Evil Dead ter poucas continuações, o mesmo diretor estar sempre por perto na direção ou roteiro, e até mesmo o respeito em torno de sua própria mitologia, contribuiu na manutenção de qualidade da marca.

Quando Sam Raimi e seus colegas partiram para o Tennessee (um dos 50 estados dos Estados Unidos), eles não tinham noção do que estavam prestes a fazer. O conceito de terror foi levado tão ao extremo que a cabana selecionada para gravação era uma cabana mal-assombrada, isso de acordo com os relatos descritos no livro Evil Dead – A Morte do Demônio, Arquivos Mortos (Evil Dead Companion, 2000) de Bill Warren.

Raimi era um entusiasta e já engatinhava na tentativa de fazer filmes desde a adolescência e, por acaso, encontrou outros amantes da sétima arte, tais como Bruce Campbell (que atuou como Ash, o protagonista de Evil Dead) e Robert Tapert (roteirista e diretor). No início, com muitas influências de Os Três Patetas (The Three Stooges, 1920), Raimi arriscou alguns projetos na comédia, mas não demorou muito para perceber que a chance dele estava no terror. Raimi cita no livro Evil Dead – A Morte do Demônio, Arquivos Mortos que “filmes de terror te esmagam. É a experiência da montanha-russa. Você assiste a milhares de filmes esperando aquele tipo que te põe numa montanha-russa de verdade, você não sabe aonde está indo; faz a curva no último segundo — ou não faz a curva, bate numa parede feita de isopor. É a velocidade vertiginosa o que você procura”. E Raimi procurou a velocidade máxima do que ele poderia fazer no terror. 

Com roteiro simples, cinco adolescentes partem para uma cabana onde passarão o final de semana. No decorrer do dia, descobrem um porão e nele encontram um livro bizarro, além de um gravador com fitas. Ao ouvirem essas fitas, palavras estranhas são proferidas e coisas horripilantes começam a acontecer. Sem saber, os jovens despertaram o demônio que habitava a floresta, e a partir desse momento, a própria floresta ganha vida, aterrorizando a todos que estavam na cabana. 

 

A parte trash de Evil Dead é geralmente associada à maquiagem e alguns efeitos visuais. E com a imagem acima, entendemos perfeitamente a razão disso

A parte trash de Evil Dead é geralmente associada à maquiagem e alguns efeitos visuais. E com a imagem acima, entendemos perfeitamente a razão disso [Copyright Metropolitan FilmExport]

 

O que faz de Evil Dead um clássico é a maneira intuitiva e genial que Raimi utiliza sua direção. Com recursos financeiros escassos, todos tiveram que recorrer a ideias não-convencionais e economizar em determinadas partes. A câmera vira um personagem quando entra em ação dando vida ao próprio demônio. Ele fica percorrendo a floresta com movimentos estranhos e a maneira como isso foi feita intriga a muitos diretores até hoje. Entre esses diretores, podemos citar Stephen King: “A maior parte do meu cérebro estava registrando coisas que eu nunca havia visto em um filme, jamais, que funcionavam perfeitamente. Umas cenas que estavam acontecendo que eram como se fossem tomadas insanas de Steadicam. Mais tarde, Sam me contou como elas haviam sido feitas, e pensei comigo que elas funcionavam porque ninguém em um estabelecimento organizado de cinema poderia pensar em tentá-las daquela maneira”, comenta o escritor em Evil Dead – A Morte do Demônio, Arquivos Mortos.

A maneira com que Raimi e seus colegas encontraram de fazer essa simulação de Steadicam foi colocar uma pessoa em cada lado de uma câmera, e essas pessoas segurando um suporte que estava acoplado a uma caixa de madeira, local onde a câmera estava conectada. Sendo assim, ao passo que essas pessoas andavam, corriam, elas levavam a câmera a fazer movimentos tortuosos, que normalmente precisariam de equipamentos mais caros. Outro exemplo são os momentos em que janelas são destruídas por galhos possuídos, como se o galho estivesse em primeira pessoa. Na verdade, havia uma câmera acoplada a um desses galhos, e ao se movimentar, a câmera também era movimentada.

Claramente, um dos artifícios que filmes de terror utilizam para ficar em evidência é criar polêmica com alguma cena em específico. Evil Dead não precisaria desse recurso para conseguir esse feito, mas há uma cena em questão que até hoje causa desconfortos aos espectadores: aquela em que uma trepadeira estupra a personagem Cheryl (Ellen Sandweiss). A atriz conta que “seu único arrependimento em ter feito o filme é a cena na qual ela é estuprada pela trepadeira”. Considerado por muitos como de mau gosto, a cena em si tornou-se uma das mais icônicas de todo o longa. 

Todos os atores envolvidos relataram que se machucaram bastante ao fazer o filme. No entanto, ao invés de reclamarem, geralmente relatam que, como estavam entre amigos, essas escoriações não fariam que eles parassem de desenvolver o filme e esse ar de realismo trouxe algo bem visceral para as cenas, principalmente quando alguma correria estava envolvida. 

O ar trash envolvido em Evil Dead é associado principalmente à parte de maquiagem e efeitos práticos e isso não foi feito de maneira intencional, mas devido à escassez financeira. Madeiras que parecem mais de plástico, monstros que parecem bonecos, uma lua que mais se assemelhava a um selo postal, entre outras coisas. Era tanta coisa “amadora” e cheios de “gambiarra” que dificilmente alguém acreditaria que estava vendo aquilo em um cinema. Mas a questão é que estava e por mais que alguém falasse o quão ridículo aquilo parecia, tudo funcionava em tela, o que já era algo impressionante por si só. 

 

As definições de filme sangrento foram atualizadas! [Copyright Metropolitan FilmExport]

As definições de filme sangrento foram atualizadas! [Copyright Metropolitan FilmExport]

 

A atmosfera criada pela iluminação, ambientação e movimentos não-usuais de câmera faz com que Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio seja o filme mais assustador de toda a cronologia. As viradas no roteiro também ajudam a edificar o longa, por exemplo, quando não sabemos ao certo quem é o protagonista. Isso acontece pois a narrativa dá mais importância para um determinado personagem em seu início, sendo que no fim, há apenas um sobrevivente e o personagem que menos fez coisas até uma certa parte do filme. 

Com algumas cenas arrastadas em seu final (talvez para alcançar a marca mínima de 80 minutos), Evil Dead termina quando Ash joga o livro dos mortos no fogo, após ter que matar todos seus entes queridos. Mas será que o pesadelo havia realmente terminado?

 

Um é pouco, dois é bom e três é melhor ainda

Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio alcançou um grande sucesso depois de sua estreia em 1981, inclusive chegando a Cannes em 1982. Mas só veríamos uma continuação em 1987. Uma Noite Alucinante 2 (Evil Dead 2: Dead by Dawn, 1987), é uma espécie de remake/continuação. Digamos que seus 20 primeiros minutos são reencenações de momentos do primeiro filme, mas de uma maneira mais cínica. Agora, com muito mais investimento, a parte visual estava mais aprimorada e o longa acrescentou características que ficariam eternizadas na série, sendo a principal delas o jeito fanfarrão de Ash (Bruce Campbell), único sobrevivente do filme anterior. 

Se o primeiro longa foi um filme puramente de terror, temos uma junção de gêneros no segundo: terror + comédia. A influência já citada de Os Três Patetas aparece de forma mais natural aqui, e Raimi articula genialmente esses gêneros tão diferentes, pois não percebemos a transposição de ambos. É algo contínuo e verossímil. 

Após matar sua namorada (igual ao primeiro filme), Ash começa a ficar louco e percebe que o espírito maligno não morreu e assim, esse ser tenta possuir Ash de diversas formas. A situação fica tão extrema, que Ash é obrigado a cortar sua própria mão na intenção de destruir esse mal. Tendo feito isso em vão, vemos a épica batalha de uma mão contra um homem (a cena mais pastelão de toda a saga). Mais um grupo chega à cabana e no final das contas, eles precisam encontrar uma maneira de enviar os demônios para o passado. 

Há um maior enfoque à origem do livro dos mortos e de sua mitologia, seja pelos ensinamentos de como matar os demônios, uma profecia envolvendo um glorioso salvador ou as reais intenções dos próprios demônios. No final das contas, Uma Noite Alucinante 2 é uma paródia de terror extremamente engraçada. 

No final do segundo filme, vemos que Ash voltou para o passado também, e assim, ele seria a personificação da profecia descoberta através dos livros dos mortos. Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992) mostra o que aconteceu a Ash e se o segundo longa era um terror com elementos de comédia, esse filme é o que mais se diferencia do resto, já que é um épico medieval com comédia/aventura/terror.  

 

E não é que a série de Evil Dead é muito boa?!! Com ajuda de Sam Raimi, Bruce Campbell volta para interpretar o personagem mais fanfarrão do terror [Copyright Starz]

E não é que a série de Evil Dead é muito boa?!! Com ajuda de Sam Raimi, Bruce Campbell volta para interpretar o personagem mais fanfarrão do terror [Copyright Starz]

 

Ash precisa encontrar o livro dos mortos para poder voltar a sua realidade, e nisso acompanhamos a jornada do herói por terras medievais ao ter que enfrentar um exército de demônios que ele mesmo invocou sem saber. O protagonista precisa unificar as classes do reino, para, assim, defender o povo e conseguir retornar ao seu tempo. Sim, uma narrativa que  se iniciou em uma cabana assombrada virou um filme arturiano e por incrível que pareça, o filme faz sentido e é engraçado.

Contendo algumas cenas bobas, a comédia do filme funciona e as características de Os Três Patetas estão mais evidentes do que nunca, principalmente devido à atuação de Campbell. Os efeitos visuais estão exagerados, mas bem executados, como no caso das aparições dos esqueletos ou mesmo quando um gêiser de sangue estoura por um poço medieval. A ambientação na Idade Média está fidedigna, sendo mais um ponto positivo ao design de produção, o que pode soar estranho, já que o filme não se leva a sério. 

Apesar de ter um romance descartável e uma pior reimaginação do final do segundo filme, o terceiro longa desempenha bem o papel de encerrar a trilogia envolvendo o livro dos mortos e é interessante ver como um protagonista pode evoluir em sua jornada, pois o Ash que vemos no primeiro longa é totalmente diferente do Ash que vemos nesse terceiro capítulo. 

Infelizmente, a bilheteria desse terceiro filme não foi expressiva e assim Evil Dead ficou engavetado por muito tempo, tendo um remake apenas em 2013. Nesse remake, o terror é focado novamente e vemos uma boa reinterpretação da obra original, com suas devidas homenagens, mas se diferenciando no decorrer de sua narrativa. Numa leva de remakes de terror sofríveis (sim Freddy Krueger, Jason e amigos, estou falando de vocês), A Morte do Demônio (Evil Dead, 2013) consegue se manter como um bom longa de terror.

No intuito de continuar uma narrativa, o cinema nem sempre é a melhor opção e, assim, a série Ash Vs. Evil Dead (2015) nasceu. Tendo seu episódio inicial dirigido por Sam Raimi, a narrativa nos mostra o que aconteceu com Ash após ele retornar do passado no final do terceiro filme e conseguir viver normalmente. Vemos um Ash cinquentão em ação, mas com a mente de um eterno fanfarrão. 

E o que vemos é uma excelente interpretação do que foi visto no cinema: monstros com maquiagens esquisitas mas que funcionam, um Ash mais fanfarrão do que nunca, sangue jorrado em quantidades excessivas e um humor ácido e pastelão que só funciona por causa de seu protagonista. É um caso raro de quando um produto derivado consegue capturar a essência de seu material original e ainda melhor por conseguir desenvolver sua própria narrativa. 

Evil Dead consegue a proeza de ter uma trilogia clássica que ajudou a moldar diversos tipos de subgêneros no terror, além de ter um bom remake e uma série que mantém a qualidade do material original. Sendo adaptado para videogames, quadrinhos e até um musical, percebemos que o jeito fanfarrão de Ash, demônios com maquiagens diferenciadas, técnicas de direção inovadoras conquistou muitos seguidores, algo que dificilmente Sam Raimi e sua turma esperavam no início, mas que deixa um belo exemplo para aqueles que não desistem de seus objetivos, independente das dificuldades encontradas ao longo do caminho. 

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