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Fanfictions: o potencial da (re)imaginação dos fãs
Na Estante
12 fev 2016 | Por Jornalismo Júnior

Fanfictions são histórias contadas por fãs sobre seus personagens favoritos em cenários e situações que não acontecem na narrativa original. Uma fanfiction pode vir de absolutamente qualquer lugar: uma série de TV, um filme, um livro; as possibilidades são incontáveis. As fanfics, como são chamadas, carregam consigo uma reputação de má qualidade, já que são um veículo muito utilizado por jovens escritores para aprimorar sua técnica. No entanto, algumas delas conseguem quebrar esse preconceito e se tornar obras de sucesso mundial.

Tomemos, como exemplo, uma fanfiction muito famosa sobre a Bíblia. O autor complementa alguns elementos do Livro Sagrado e também coloca a si próprio como personagem no cenário bíblico, no melhor estilo de “self-insert fanfiction” (ou fanfiction de auto-inserção). Graças a ele, temos a imagem popular do Inferno divido em punições para cada tipo de pecador, enquanto que na Bíblia ganhamos por descrição apenas frases como “lago de fogo” ou “prantos e ranger de dentes”. Consegue adivinhar sobre quem estou falando? Apesar de haver controvérsias, a não ser que Dante Alighieri tenha sido o autor da Bíblia, seu livro “A Divina Comédia” pode ser encaixado na categoria de fanfiction, embora nunca chamado de obra de “má qualidade”.

E como esquecer esse lindo rostinho verde?

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(Pôster de Wicked, o musical. Imagem: Divulgação)

Wicked, antes de ser um musical da Broadway, foi um livro escrito em 1995 por Gregory Maguire com o título de Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West (na versão em português, Maligna), por sua vez baseado na conhecida obra O Mágico de Oz, de L. Frank Baum. Em sua história, Maguire lida com temas sombrios, não explorados no livro de origem ou na adaptação cinematográfica subsequente: opressão, preconceito, conspirações, casos amorosos e assassinatos, todos vistos através dos olhos de Elphaba, ou, como viria a ser conhecida, a Bruxa Má do Oeste.

A partir dos anos 90, o sucesso das fanfictions foi potencializado com a popularização da Internet. Foi através desse veículo que surgiu a série de sucesso 50 Tons de Cinza. Essa fanfic de Crepúsculo alcançou grande fama entre os internautas e, posteriormente, ganhou uma versão impressa, passando por inúmeras modificações para que seus personagens se tornassem menos parecidos com suas inspirações. A autora E. L. James angariou tantos admiradores que os dois primeiros volumes de sua trilogia já ganharam versões para o cinema.

 

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(Foto promocional do filme 50 Tons de Cinza, adaptação da controversa obra homônima de E. L. James. Imagem: Divulgação)

Também não são incomuns os autores famosos que escrevem ou já escreveram fanfictions. Entre vários trabalhos originais muito bem aclamados, Neil Gaiman já produziu histórias baseadas em Sherlock Holmes, As Crônicas de Nárnia e no trabalho de H. P. Lovecraft (Um Estudo em Esmeralda, O Problema de Susan e Eu, Cthulu, respectivamente). Cassandra Clare, autora da série juvenil Os Instrumentos Mortais, foi previamente conhecida na Internet por sua atividade na escrita de fanfictions baseadas em Harry Potter. Até mesmo Orson Scott, vencedor dos prêmios literários Hugo e Nebula e um profundo antipatizante de fanfictions, já redigiu sua cota delas, com base no trabalho dos autores Isaac Asimov e Shakespeare.

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(Neil Gaiman sobre fanfictions. Fonte: Rede social Tumblr do autor)

Portanto, fanfictions não se tratam apenas de universos e personagens “roubados”, ou mesmo devem ser tratadas como espaço de treino para escritores jovens ou inexperientes. São, na verdade, a maneira que as pessoas encontram de se expressar por meio de seus heróis, seja projetando-se no texto, aprofundando a complexidade de um enredo ou afirmando sua sexualidade através dos personagens.

Por Laís Ribeiro
la.ribeiro97@gmail.com

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