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Fernando Diniz e eu: do desprezo à saudade
ARQUIBANCADA
26 maio 2020 | Por José Higídio (zehigidio@usp.br)

Atenção: esta crônica infelizmente pode conter heresias contra o futebol bem jogado. Mas também pode apresentar conteúdo ofensivo para os críticos do Fernando Diniz.

 

Abril de 2016

Sinceramente, que vexame! Como pode o Tricolor ser eliminado do Paulistão pro Audax? O timeco de Osasco do Vampeta? Tomar 4 a 1 de um clube comandado por esse Fernando Diniz? 

Se eu me lembro bem, nos dois últimos anos o São Paulo goleou fácil esse mesmo timinho com esse mesmo técnico. Por quê? Simples, esse cara é doido! Fica nessa ideia doida de nunca dar chutão, sair tocando em frente da própria área, brincando onde não deve… E ainda por cima se acha o próprio Pep Guardiola, vê o time dele como um Barcelona, faz seus jogadores ficarem tocando, tocando e tocando, sem nunca evoluir.

Hoje mesmo essa equipe medíocre achou todos os gols! Mas se prepara, porque vão falar que o São Paulo foi engolido pelo “carrossel” do Diniz.

 

Maio de 2016

Uau, o Santos é campeão paulista. Alguém realmente achou que o Audax seria a grande zebra do ano? Ficaram bastante no lucro conseguindo eliminar São Paulo e Corinthians – por mais que eu tenha adorado ver o rival também cair. E obviamente nunca mais vão repetir uma campanha dessas, porque foi tudo claramente na sorte. O que não vai impedir a galera de continuar exaltando o “espetacular” e “ousado” estilo de jogo do Diniz. Vão inflar bastante o ego desse treinador patético. 

Não me leve a mal, claro que eu torci para eles desbancarem o Santos na final. E até que eles ensaiaram uma pressão, levaram perigo, prenderam a bola no ataque… Mas pra variar não deu certo: foi só o Peixe jogar no contra-ataque e matar o jogo. No fim, o futebolzinho do Fernando Diniz se mostrou previsível.

Fernando Diniz comandando a equipe do Audax [Imagem: Marcos Ribolli]

Março de 2017

O Audax, grande fenômeno do futebol estadual no ano passado, foi rebaixado para a série A2 do Paulistão. O mesmo time que esse ano, na primeira rodada, novamente meteu 4 gols no São Paulo. Adiantou alguma coisa? O suposto gênio Fernando Diniz por fim afundou o time. Anotem aí: ninguém nunca mais vai lembrar dele.

 

Janeiro de 2018

Calma, é isso mesmo? O Athletico Paranaense fechou com o Fernando Diniz? Aquele mesmo Diniz do Audax? Eles realmente acham que esse estilinho de jogo vai dar certo na elite do futebol brasileiro? Esse ano eles voltam pra série B.

 

Junho de 2018

Olha só, e não é que demitiram o tal do Diniz? Previsível, eu diria. Aliás, eu já estava sentindo que ele ia cair a qualquer momento desde quando o São Paulo quebrou o tabu na Arena da Baixada. Agora, com o time lá embaixo na tabela, não tinha mesmo como segurar. 34% de aproveitamento, o pior técnico do Athletico nos últimos 10 anos.

Fernando Diniz no comando do Atlhetico Paranaense [Imagem: Albari Rosa]

Mas em se tratando de Fernando Diniz, eu diria até que ele foi longe. Não tem como negar que seu trabalho até começou bem, eliminaram a gente na Copa do Brasil (que tristeza) e despacharam argentinos na Sul-Americana. Mas eventualmente esse toque de bola exagerado cai na mesmice. Nunca mais ele vai ter uma oportunidade dessas.

 

Dezembro de 2018

Agora o Fluminense foi quem resolveu contratar o Fernando Diniz. Será que esses times não conseguem olhar pro currículo do cara e ver que ele não fez nada de importante? A que nível de desespero você tem que chegar pra achar que o Diniz é uma boa alternativa pro seu clube? Não é possível.

 

Agosto de 2019

Pois é, Fernando Diniz. Você não consegue parar em nenhum time, né? Sempre dá um jeito de se humilhar. Vai dando adeus agora ao Fluminense com um aproveitamento pífio de 26% no Brasileirão e o time na zona de rebaixamento.

Pior que dessa vez deu quase pra acreditar. Até o Ganso, que nunca esconde descontentamento, defendeu a permanência dele! O presidente parecia que estava gostando do trabalho dele, mas o vice não tinha muita paciência. Eu pessoalmente não apoio essa cultura de demitir o técnico com poucos meses de trabalho. Mas não julgo, fica difícil, principalmente com o time nessa situação.

Fernando Diniz na sua época como treinador do Fluminense [Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF]

Setembro de 2019

OK, eu vou tentar não reclamar. Porque eu realmente não estava suportando o São Paulo sob o comando do Cuca, que só tentava vencer na sorte. Mas chamar pro lugar dele o Fernando Diniz? Não sei. Não sou fã dele, e é difícil acreditar em um cara que teve desempenhos tão ruins recentemente. Mas acho que não tinha muito o que fazer, precisava acertar logo com alguém pra terminar a temporada. Ele vai ser claramente um tapa-buraco. Se não der em nada, é demitido assim que acabar o ano. Se fizer algo de interessante, aí depois a gente vê se vale a pena manter. Mas não levo muita fé.

 

Dezembro de 2019

É isso, o Diniz começa 2020 como técnico do São Paulo mesmo. Merecido? Talvez sim. Querendo ou não, o time conseguiu a classificação pra Libertadores, única coisa que ainda restava. E sinceramente, pra quem tinha Cuca no banco, agora o São Paulo pelo menos parece ter alguma estratégia, mais opções táticas pra tentar vencer. Tropeçou algumas vezes nesse fim de ano, é verdade. Mas não dá pra colocar a culpa no Diniz, que acabou de chegar.

E ele tem a vantagem de estar fechado com o elenco. Em poucos meses, ele recuperou Vitor Bueno, Igor Gomes, Antony… Se nosso goleirão Tiago Volpi disse que o Diniz é o melhor técnico com quem ele já trabalhou, quem sou eu pra discordar? Vamos torcer para que aqui ele finalmente vingue.

 

Fevereiro de 2020

Como dá gosto de ver o São Paulo do Diniz em campo! O time é sempre objetivo, está sempre no controle, cria inúmeras oportunidades de gol por jogo, toca a bola e se movimenta até encontrar os espaços. É verdade que os jogadores vinham tendo dificuldade de converter as finalizações, mas não é o treinador quem chuta a bola no gol. E não importa mais, porque agora os resultados também estão vindo! É a recompensa para um time muito bem treinado e que acredita nos ensinamentos do técnico.

 

Tive a oportunidade de acompanhar da arquibancada a goleada por 4 a 0 no Oeste, na Arena Barueri. No ano passado, só tinha ido ao estádio para ver jogos bem decepcionantes do Tricolor. Dessa vez, vi o São Paulo sufocando o adversário e jogando sério até o último minuto. Mesmo com o placar consolidado, depois do 4º gol, vi Tiago Volpi correndo para abraçar Fernando Diniz, o grande responsável pela minha primeira alegria são-paulina genuína em tempos.

– Nossa…

– O que foi?

– Nada não. Olhei de relance e achei que era o Diniz ali.

Eu estava passeando com minha namorada no Shopping Ibirapuera, um dia após a bela vitória, quando ela me disse isso. Imediatamente olhei para a mesma direção, demorei alguns segundos para reconhecer. Era o próprio, comprando sorvete para sua família. Pedimos e ganhamos uma fotografia com o mestre, e eu só pude me emocionar. Quem diria que um dia eu estaria tietando Fernando Diniz?

 

Março de 2020

O correto é “dinizismo”, não “dinizmo”. Essa é a palavra que define não apenas o estilo de jogo de Fernando Diniz, mas também o movimento de torcedores adeptos de tais concepções. Quase uma corrente ideológica, que segue as ideias de um intelectual (aliás, você sabia que Fernando Diniz é formado em psicologia?). A discussão acerca do termo só existe porque o “dinizismo” é finalmente popular. Com os resultados e apresentações recentes do São Paulo, boa parte dos torcedores parece compreender que o estilo de Diniz é o melhor caminho para o clube.

Fernando Diniz em seu cargo atual de técnico do São Paulo [Imagem: Rubens Chiri/São Paulo FC]

O que mais me intriga é: como eu pude demorar tanto para aderir ao “dinizismo”? Hoje me parece tão claro, tão simples! Maior posse de bola, quando bem treinada e objetiva, significa maior oportunidade de conseguir finalizações. Mais finalizações significa maior chance de convertê-las em gols. Mesmo que em determinada partida eles não aconteçam, com um elenco bom, como o do São Paulo, isso eventualmente vai se concretizar. Por mais que seja possível basear os gols em contra-ataques, isso exige muito mais eficiência, o que é menos treinável e bem mais difícil de atingir. 

Ninguém consegue vencer tudo, tropeços acontecem. Mas ao meu ver, Fernando Diniz está trabalhando de forma a maximizar as chances de o São Paulo vencer.

 

Quarentena – dia X

Nada de futebol. A pandemia do novo coronavírus cancelou praticamente todos os eventos esportivos do mundo. Nada de Paulistão. Nada de Libertadores. E nada de São Paulo do Diniz.

Justo quando o time estava melhor se encaixando. Justo quando era mais prazeroso acompanhar os jogos do Tricolor. Justo quando me parecia que o time, que não conquista um título há 8 anos (12, se contarmos só triunfos de ponta), parecia estar bem encaminhado para brilhar em alguma competição – ou pelo menos mais perto do que esteve em todos esses anos de seca. Não sei se no futuro ele realmente será vitorioso com o São Paulo. Pode ser que na volta tudo comece a dar errado. Por enquanto, isso pouco me importa.

Meu “eu” de alguns anos atrás jamais aceitaria ou cogitaria isso. Mas já é realidade. O trabalho do Fernando Diniz aos poucos me convenceu e me encantou. Hoje, posso dizer que o técnico do meu time é meu treinador favorito em atividade. E que uma das coisas que mais me faz falta durante o isolamento é ver o belo futebol do São Paulo comandado pelo Diniz.

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